Quinta-feira, 22 Março 07, 12:06 AM
Desculpe, mas nesta semana não há como fugir do assunto Romário.
No jogo contra o Gama, ele entrou aos 12, quando o Vasco perdia por 2 a 0. Na banheira, conseguiu acertar uma boa na trave e deu uma assistência preciosa para André Dias, que chutou em cima do goleiro.
Nos últimos dias, li uma série de comentários a respeito do gol 1000 de Romário. As comparações com Pelé, claro, têm sido inevitáveis.
Para romaristas de carteirinha, a marca do Baixinho é mais significativa, já que O Rei jogou em uma época em que os zagueiros eram lentos, os goleiros não se mexiam e o Santos disputava amistosos demais (em alguns casos, um jogo a cada dois dias, sem direito ao pijama training).
Não concordo com essas justificativas, embora considere Romário o maior centroavante que vi jogar, deixando para trás gente como Van Basten, Batistuta, Bebeto, Serginho Chulapa, Ronaldo, Careca e Klisman. Dentro da área, ele é realmente "O Cara".
Infelizmente, não pude acompanhar Pelé. Apenas escuto falar dele. E bastante. De cada dez sujeitos que conheço com mais de 50 anos, dez afirmam categoricamente que nunca mais vai existir um jogador igual. Nesse caso, não me parece que a unanimidade é burra.
O argumento de que no passado era mais fácil não se justifica quando se leva em condição a estrutura da época. Pelé usava chuteiras que tinham travas assassinas, e o couro passava longe dos cangurus australianos que abastecem a Nike, fornecedora da maioria dos boleiros de hoje.
Contusão se tratava com gelo e as famosas infiltrações. A camisa pesava (literalmente), o estado do gramado dependia do estádio em que se atuava e não havia câmeras de TV para vigiar e punir os zagueiros botinudos. Cartão vermelho e amarelo, só depois da Copa de 70.
E a bola, ah, a bola. Se chovia, ficava três vezes mais difícil de chutar e dominar (quem está na casa dos 30 anos sabe do que estou falando).
Na época de Pelé, camisa 10 era sinônimo de craque. E cada time tinha o seu: Corinthians (Rivelino), Palmeiras (Ademir), São Paulo (Gerson), Botafogo (Jairzinho) e Cruzeiro (Tostão). Todos sabiam que na seleção tinham de abdicar do número para jogar. E não havia contestação. Mais importante: todos jogavam no Brasil, diante da torcida. Os tempos mudaram. Para pior.
Romário trocou a Espanha pelo Rio no auge da carreira e teve de dividir o ataques dos times onde jogou com Lúcio Bala, Josafá, Oscar Gil e, pra encerrar a carreira, André Dias.
Isso não diminui seu brilho. O Baixinho foi artilheiro na maioria dos principais torneios do mundo, campeão mundial, brilhou na Europa e ainda foi chamado de gênio da grande área por nada menos que Cruyff, o holandês arrogante e convencido que assombrou o mundo na Copa de 1974.
Romário merece todas as homenagens do mundo nesse momento.
Mas, repito: acho injusto comparar o Baixinho com o Rei.
Pelé foi completo, sinônimo de perfeição com a bola nos pés. Usar a desculpa de que os tempos são outros não vale nesse caso específico.
On Betão Eterno