Quinta-feira, 24 Abril 08, 12:07 PM
Respondo ao Mautex, e explico que não quero parecer indelicado com a demora, trata-se apenas de falta de tempo. De fato, acredito que o atual “patrocínio espontâneo” do Barcelona sirva para preparar a opinião pública catalã para a venda do espaço propriamente dito. Que sentido haveria em subverter uma lógica histórica e, convenhamos, bastante contundente de ser, ao menos entre os grandes clubes mundiais, o único a não permitir outro símbolo em sua camisa? Posso estar enganado, mas acho que estamos assistindo à derrocada da última resistência. Acho ainda que não temos condições de julgar para além das implicações estéticas, mas soa-me como um encanto do capitalismo essa desistência azul-grená. Pois que tanto incremento das finanças necessitaria o Barcelona a ponto de entregar um de seus maiores ícones (a camisa não-patrocinada, em mais de cem anos)?
Quinta-feira, 24 Abril 08, 12:00 PM
Um escasso mês e perde-se muito das fases decisivas das competições européias. Isto deve-se a um insuportável acúmulo de compromissos, de forma que serei breve. Considerando os primeiros jogos das semis da Liga dos Campeões, pode-se pensar de tudo: o Liverpool empata em casa vítima de uma fatalidade e o Manchester prende-se num jogo estranho, ao menos para mim, perdendo pênalti e portando-se de forma muito mais contida que de costume. Certamente, Sir Alex Fergusson não comete o pecado da presunção, impedindo liberdades a Messi e outros que não sucumbiram completamente à queda do Barcelona. A questão é que o Manchester não marcou gol, e esse fato pode cobrar a conta em breve. Em Anfield, como disse, uma fatalidade, ainda que pense que o Liverpool é exatamente aquele que suplanta desastres como esse para seguir adiante. Como é absolutamente repetitivo afirmar que não há como prever o futuro desses confrontos, parto de uma análise frio para chegar a um palpite quente: passam Manchester e Liverpool, e teríamos a terceira final entre clubes compatriotas da história da Liga. Vejo aí, ao menos, a mais interessante das combinações possíveis. E também a mais justa.
Terça-feira, 01 Abril 08, 08:34 PM
Um dos aspectos do futebol que mais venero é a cultura dos uniformes, que há muito já superaram o simples papel de equipamento do jogo. Será tema recorrente neste espaço. Como será, assim espero, um assunto de fôlego, a ser abordado inúmeras vezes e sob diversos vieses (formas, cores, estilos, história), inicio com opinião que nutro há algum tempo e que diz respeito à inevitável comparação entre as marcas esportivas da atualidade. Minha amostra foi a partida Schalke 04 x Barcelona, pelas quartas-de-final da Liga dos Campeões, disputada hoje na Alemanha. Apenas a título de introdução, penso que caberia uma introdução com considerações gerais sobre como interpreto essa questão (sobre as constantes mudanças de estilos ao longo do tempo, as inovações como os patrocínios, etc.), mas para tornar esse texto menos enfadonho, vou direto ao ponto, imaginando que seja possível me fazer entender por completo. Dizia que assistia a Schalke 04 x Barcelona. Os anfitriões vestiam seu uniforme reserva, numa espécie de azul-petróleo com detalhes em celeste, da Adidas. Os catalães visitantes, um questionável fardamento completamente laranja, da camisa às meias, produção da Nike. Acontece que, ficando na discussão sobre o uso das cores — sua relação tradicional com o clube, como cor oficial, rende outro texto —, o kit alemão da Adidas soa muito mais ponderado e elegante até. Pode ser questão de gosto, mas o laranja nunca vestiu bem o que quer que fosse (mesmo a cult Laranja Mecânica de Cruyff). Mesmo assim, o desenho do equipamento da Nike supera, a meu ver em muito, dado o cuidado nas proporções e a cadência na “interferência mercadológica”, a despeito do laranja. Esse é um exemplo que me permite dizer: a Adidas, um dos ícones do futebol, perdeu a mão. Seja no equilíbrio, na harmonia, nas cores, nas proporções, nas invencionices, o que for. Em quase todos os requisitos que permitem a um uniforme ser bonito ou feio, a marca alemã mostra-se perdida, decidida a não promover um revival de seus melhores tempos, cerca de três décadas atrás. Esse rememoramento, aliás, é exatamente o que eleva a Nike à posição de líder. O crescimento vertiginoso do “estilo Nike” se deu sobre a simplicidade, ainda que orgulhosa. Seus uniformes estão limpos, na média trazendo apenas o necessário (como comprova o uniforme da Seleção), no que é seguida pela Puma, ainda reticente e apelando para a padronização. Resiste a inglesa Umbro, essa sim em total via de extinção, dado sua pomposidade e falta de critério. Voltando a Gelsenkirchen, mesmo de laranja (um laranja insosso, aliás), o Barcelona ao menos não exibe faixas ondulantes pelo uniforme, evitando semelhanças com uma colcha de retalhos. Isso que o fardamento do Schalke não é dos piores representantes da Adidas. Ainda dentre os equilibrados, falta aos uniformes de hoje uma certa sinceridade, algo prosaico de antes da era do poliéster: cores carregadas de significado, detalhamentos contidos (como as lendárias três listras escorrendo pelos ombros), números e escudos — e estamos conversados. Se a camisa (eu estendo o conceito a todo o uniforme) é o clube ou o país materializado num único objeto, falta sintetizar exatamente o sentimento, menos o mercado.
Terça-feira, 01 Abril 08, 02:02 PM
Como todo certame bastante disputado, longe das (via de regra) mesmices dos campeonatos nacionais da Europa, a Liga dos Campeões assiste hoje e amanhã a partidas de nível bastante elevado e serão, penso, igualmente acirradas. Fala-se pouco do confronto Schalke 04 x Barcelona por motivos a distância óbvios, principalmente a qualidade a separar em categorias diferentes os catalães e os alemães. Interpreto de forma diferente e, apesar de me esconder sob um sentimento vago de quem passará às semis, banco minha opinião de que serão jogos onde o Schalke imporá uma dificuldade ainda não experimentada pelo ex-time de Cruyff e Maradona. Isso basicamente porque o Barcelona é um grupo em ruínas. Como equipe, resiste ainda com seus talentos individuais, mas agrava-se a lacuna que deixam, por exemplo, Messi (machucado) e Ronaldinho (em crise técnica e, acho, psicológica). Me parece, por tudo isso, que mesmo um time mediano como o Schalke possa ser o algoz de equipe superior tecnicamente: menos por seus próprios méritos, mais pela decomposição do adversário — decadência essa moral e anímica, mas perceptível também com a bola nos pés. Posso me enganar, claro, mas não consigo ter segurança na classificação catalã.
O mesmo estranhamento provoca o confronto Fenerbahçe x Chelsea. Evidente que o clube inglês desponta como favorito, mas vejo o time turco com claras qualidades que podem complicar aquele que, para muitos, é um dos principais candidatos ao título. Partida curiosa. Arsenal x Liverpool, esse sim, não posso dizer o que esperar. Clássico inglês, times em momentos similares, equipes com poderio técnico parecido. O Liverpool superou a covardíssima e superestimada Internazionale, enquanto o Arsenal “surpreedeu” o Milan no San Siro. Leio o Arsenal como equipe mais equilibrada, bem definida em suas funções. Os Reds têm elenco de qualidade, mas ainda assim menos imponente que os londrinos. Gerrard, como diz amigo meu, é senhor jogador e líder de um grupo que encontra motivação na adversidade. Prognóstico difícil, tendo a apostar no Arsenal analisando sob a perspectiva técnica e no Liverpool sob o viés emocional.
Tudo isso para dar fundamentação à minha opinião sobre Manchester United x Roma, e notadamente sobre o time inglês. No jogo, acredito num desempenho incomum por parte dos italianos, procurando prevalecer sobretudo a partir da disposição e do orgulho ferido na desclassificação no último ano, pelo mesmo adversário, com constrangedor 7 x 1. Vem dessa tragédia, penso eu, o maior impulso para a Roma, sabidamente menos capacitada. Quanto aos Devils, com alguma audácia, sempre necessária, arrisco o pescoço e aponto no time da cidade do Oasis o favorito para o título da Liga. Como bem sugere a ascensão progressiva ao longo da temporada, o trabalho está sendo bem feito, procurando — e encontrando — variações e descobertas qualificadíssimas. Ânderson atuando como volante atesta a riqueza da qual sir Alex dispõe, além, é claro, de Cristiano Ronaldo, melhor do mundo em breve. Wayne Rooney, antes atacante finalizador, foi mais uma “vítima” do ímpeto relativizante de seu técnico, passando a jogar eficiente e solidariamente na construção das jogadas, concluindo na medida do possível. Paul Scholes volta a representar equilíbrio no meio-campo, Evra é bom lateral, Vidic um zagueiro competente e sério e Van der Saar um goleiro experiente. O que mais se poderia pedir de um favorito? A despeito de ser uma de minhas equipes queridas, voto Manchester United para campeão da Europa.
Terça-feira, 25 Março 08, 08:36 PM
Terça-feira, 18 Março 08, 09:39 AM
A propósito desse verdadeiro devaneio sobre o Carrossel do inter-rs, encontrei este vídeo, boa compilação do jogo que marcou a estréia do Futebol Total em Copas do Mundo. Em 15 de junho de 1974, primeira Copa da Alemanha (então, a Ocidental), a Holanda vencia o Uruguai no Niedersachsenstadion, em Hannover, jogando aquilo que melhor define o futebol moderno. Nutro um sincero desgosto para com os holandeses, carrascos do sonho do bicampeonato mundial do Grêmio, mas devo reconhecer que têm (ou tinham) uma das melhores propostas para se jogar. Talvez por isso concorde com o fato de que, a despeito da final e do mérito alemão, a perda do título de 1974 represente uma derrota para o futebol. Talvez ainda não exatamente uma derrota, mas uma verdadeira lástima. Cruyff, a meu ver, trata-se de um dos maiores de todos os tempos, incontestavelmente. Arriscaria até mesmo uma hierarquia: Pelé, Maradona (mesmo que respeite visceralmente opiniões que o substituem por Garrincha, que ocupa aqui nesta ordem a terceira posição), para logo atrás figurar o craque holandês. De resto, como o próprio Cruyff certa vez declarou, a Laranja Mecânica de 1974 contava com jogadores cujos QI, entre todos, superava a média. O camisa 14 atribui a isso o relativo sucesso, e devo concordar. Como pode ser visto por este resumo da partida, não deve ser de fácil cognição uma distribuição tão anárquica e ainda organizada em campo, tão franca a ponto de se expôr a seis adversários postados ofensivamente, e colocados inteligentemente em impedimento ainda no grande círculo central. Tento não superestimar as coisas, mas este time significou uma marcha a passos largos na evolução do futebol, mesmo que as interpretações futuras não lhe soubessem compreender o método.
P.S.: A bem da verdade factual, já postei este texto em meu blog "atemático". Mas o lugar ideal é aqui, e cá está.
Terça-feira, 18 Março 08, 09:15 AM
Zinedine Zidane visita o Brasil e fomenta por aqui uma discussão da qual participamos apenas perifericamente já há alguns meses. O craque francês havia opinado, humildemente tomando o lado oposto: quem fora o maior craque francês, Platini ou Zidane? Como toda celeuma sobre “o melhor”, essa é uma polêmica que apenas por vezes toma como base pontos objetivos. Fica sempre na impressão das pessoas, donde a difuculdade, já que muitos não viram jogar os craques do passado. Consta que Freidenreich foi o maior boleiro dos tempos pré-profissionalismo, mesmo um craque de bola. Pode ser, e eu humildemente também tendo, por razões absolutamente científicas, a acreditar nos relatos ponderados. Voltando à questão, lembro-me de assistir Platini fazer algo que nos meus 5, 6 anos de idade me impressionou muito, decisivamente até. Mas não tenho, obviamente, condições de julgar. Já Zidane sim. Vi, e de olhos muito abertos. Zizu encarnava o que chamei de “personalidade futebolística”, ou seja, era meu modelo de jogar futebol. Como já referi aqui, me agrada mais jogadores elegantes, que jogam, grosso modo, com o tronco reto, em comparação aos nossos serelepes moleques, envergados sobre a bola e cujas pernas reproduzem o movimento das batedeiras. Zidane postava-se sobriamente, fazia suas peripécias sem movimentos desnecessários, sem apêndices barrocos. De forma que tendo a favorecer Zizu em minha opinião sobre o maior francês. Mas, a despeito de minhas impressões, fundamento tudo num dado extremamente objetivo e cartesiano, sempre tendo em vista o contexto, indispensável: Zidane deu à França seu único, e improvável, título mundial.
Terça-feira, 18 Março 08, 09:11 AM
Falo do Grêmio, tentando ser coerente. Meu grande clube mostra-se confuso, tenta aparentar certezas, mas todo apaixonado pensante sente-lhe o humor, o estado de espírito, o ânimo. E esse é claudicante, incerto, inseguro. A troca de técnico logo no início da temporada evidencia um Grêmio em busca de caminhos. Tadeu, Soares, Reinaldo, Perea, indecisões no ataque. Fico surpreso pelo fato de ver nas promissoras incertezas os atuais esteios do time: Paulo Sérgio na lateral-direita (inspirado talvez pela comparação com seu ídolo Cafu), Léo (uma afirmação já do ano passado, atestada pela convocação), Victor (jovem goleiro, infortúnio terrível sua contusão), Roger (subindo de produção) e o próprio Perea, síntese do vacilo tricolor de início de temporada, mas que agora desanda a marcar gols. Não me deixo cair numa apreensão porque bem sei que a história do Grêmio é assim. Grandes ciclos, transições com abismos imensos para no fim retornar mais forte como nunca. Espero que nesta mudança de caminho rumemos para o alto.
Segunda-feira, 17 Março 08, 08:55 PM
Imaginando que diversas pessoas colocarão os olhos sobre estas linhas, desde este início sinto a necessidade de admitir: sim, sou fã devoto do futebol europeu. Antes de mais nada, peço apenas que evitem confusões com baba-ovos colonizados, torcedores de Chelseas empurrados goela abaixo por uma mídia interessada não no jogo, mas no nível de audiência. De fato, nutro uma especial afeição pelo futebol europeu, não da Europa, e isso pode parecer uma contradição alarmante para um brasileiro, acostumado a dribles e gingas invulgares e maior vencedor do futebol mundial. Apenas delineando: apesar de ver charme inconteste na atual situação da Europa futebolística, me choca a mercantilização promovida pelos clubes de lá, onde uma Internazionale, por exemplo, faz jus ao nome e consegue não escalar nenhum italiano em seu plantel titular (ou quase isso, já que Materazzi, vez por outra, quando não está cumprindo suspensão, integra a squadra titular). Evidentemente me atrai, como a muitos outros (confessadamente ou não), a riqueza dos clubes, uma espécie de bem-estar financeiro absolutamente misterioso para nós, sul do mundo, na medida em que muitos clubes ricos sequer conseguem vencer uma copa qualquer. Ainda assim, são ricos e seus estádios cheios e seus produtos vendidos como água no deserto. Claro, óbvio que há o deslumbre. Quem negar, está sendo irônico e/ou cínico — e ambos estados de espírito são comuns por aqui, país que julga-se superior a todos dentro das quatro linhas.
Além disso, temos visto, ou sempre vimos, uma certa solidariedade continental, digamos. Brasil e Argentina, altruísticamente talvez, apadrinham toda a América do Sul (com o adendo vultuoso do Uruguai de outrora) e identificam um antagonista para a Europa “arrogante, preconceituosa e ruim de bola”: o futbol latinoamericano. Miram a opulência européia e unem-se num revanchismo “do bem”: vocês nos excluem, nos achincalham com esta soberba, nós os humilhamos dentro do campo.
Quero dizer que me oponho a essas interpretações — simplistas e simplificantes, a meu ver. Isso vai transparecer sempre que preencher algumas linhas aqui. Não se trata de preferir um ao outro. Sou latinoamericano, e em nenhum outro aspecto poderia ser tão bom ter nascido na América do Sul. Mas confesso uma admiração pela maneira como o europeu interpreta o futebol: menos uma questão visceral de vida ou morte, ainda que inspirada, e mais arte operária. Arte, por sinal, que eles não têm tanto quanto nós dispomos, mas que por vezes esquecemos. Na Europa, o futebol se define por um série maior e mais complexa e completa de fatores. Acho (apenas uma opinião) que a América condensou o futebol aos seus movimentos dentro do campo — numa expressão resumida — , à arte propriamente dita, e esqueceu-se do entorno. Não falo de estádios suntuosos ou torcidas mais ou menos ruidosas. Me refiro à não-necessidade que o futebol europeu tem de malícia, de ginga, de malemolência corporal para apreciar o jogo. Apesar de habilidoso, Johann Cruyff, por exemplo, despontou como craque numa equipe que redescobriu uma boa fórmula apenas na maneira de posicionar seus jogadores — e não com 11 jogadores extremamente hábeis.
Nós, latinoamericanos, individualizamos o jogo ao máximo, até condensar a arte do futebol em uma única pessoa, o craque, que produzimos em escala industrial, mais que qualquer outro ponto do mapa futebolístico. O que de forma alguma é problemático. Mas acaba por esconder problemas e, mais ainda, uma certa graça do jogo. Não sei me fiz compreender e definitivamente não gostaria de me ver confundido entre puxa-sacos ou traidores. O futebol sul-americano me encanta, enquanto admiro o futebol europeu. Acho que sou um sortudo. Ademais, creio que tudo se tornará mais claro ao longo do tempo.
Segunda-feira, 17 Março 08, 02:21 PM
On Materializar o sentimento