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O que move o mundo

Terça-feira, 01 Julho 08, 05:10 PM

Por Victor Uchoa, de Viena/Áustria, em 29.06.2008

Quando o árbitro italiano Roberto Rosseti autoriza o início da partida entre Espanha e Alemanha, 203 emissoras de TV transmitem a final da Eurocopa 2008 para 300 milhoes de pessoas ao redor do mundo. Dentro do Estádio Ernst Happel, em Viena, 40 mil previlegiados acompanham o embate de perto. Nas ruas da capital da Áustria, 100 mil viventes grudam o olho em algum telao. 70 mil somente na Fanzone, a "cidade do torcedor".

A Alemanha entra melhor no jogo decisivo, mas logo o quadro muda. A maior qualidade técnica espanhola sobressai frente à impressionante disciplina tática germanica. Paciente, a Espanha chega aos poucos. Coloca uma bola na trave e desperdica outras oportunidades. Até que El Nino Fernando Torres, o vendaval que assombrou o futebol ingles na última temportada, ganha na velocidade do defensor alemao e, com uma cutucada de quem sabe o que faz, estremece meia Europa.

A Fanzone é inundada por cantos ibéricos e...e mais nada. Volta a fita!

O dia 29 de junho amanhece ensolarado em Viena. Durante o Campeonato Europeu de Selecoes, todos os jogos disputados aqui ocorreram debaixo de forte chuva, relatam moradores. O cenário para o jogo mais esperado do ano na Europa nao poderia ser melhor. Para a decisao, a Espanha aposta na sua talentosa geracao de jogadores e tenta afastar a fama de "amarelar" em momentos cruciais. Já os alemaes...bem, nao importa se o time tem talento ou nao. Eles sao sempre fortes.

Logo cedo as ruas de Viena sao tomadas por gritos alemaes e espanhóis. Cada grupo vibra à sua maneira. A festa dos espanhóis é, obviamente, alatinada. Alguns homens vestem-se de mulher e soltam beijos provocativos para os alemaes. Jogam bola no meio da rua. Sobem nos pontos de onibus e criam uma atmosfera talvez nunca vivenciada pela clássica Viena. Os germanicos preferem os tradicionais cantos em coro, entoados disciplinadamente, como que ensaiados. Bradam com forca. Ecoa alto.

As bandas de sopro e percussao das duas nacoes tocam juntas e todos entram na brincadeira. Inclusive quem ficou pelo caminho da competicao. Italianos, russos, suecos, croatas e tantos outros bailam felizes na festa alheia. Mulheres e criancas misturam-se com os marmanjos que deliram com a febre da bola. Velhos e jovens riem o riso de uma celebracao engendrada pelos austríacos para o mundo ver. O futebol chega a ser surreal.

É claro que nao poderia faltar o problema cronico: cambistas. Querem 500 euros por um ingresso (pausa para o riso...) - nao há polícia no mundo que controle essa peste. Por outro lado, há os quadros que valem a pena: senegaleses batem seus tambores tribais na porta da Fanzone e a branquelada vai no embalo africano. Do lado de dentro, o Brasil, porque nao pode faltar Brasil onde tem futebol. Uma bateria austríaca (eles no mínimo se esforcaram), comandada por brasileiros, bota todo mundo pra sambar (se é que algum dia, até  fim dos tempos, os europeus vao aprender a sambar). E suar. Tudo pronto pro espetáculo da bola.

O ronco da cuíca silencia e entao, no ritmo dos tamborins austríacos, Fernando Torres entra como um tufao pela intermediária alema. O mundo pára pra ver. El Nino deixa o defensor pra trás, ve o goleiro crescendo em sua frente e encosta o bico da chuteira por baixo da pelota. Ela descreve o arco e morre na fundo da rede. Torres corre para o canto e desliza de joelhos para a bandeira de escanteio. O mundo volta a se mover. Soam as castanholas. Aguda o trompete. A Fanzone é tomada pela Fúria.

Dali pra frente, só festa. "Donde están los alemanes, los alemanes donde están?" era o que se podia ouvir alto. No estádio, o rei Juan Carlos abraca a rainha Sofia. O primeiro ministro Zapatero comemora o feito que ele também gostaria de alcancar: unir a Espanha. Na celebracao da bola, todos os espanhóis estao juntos. Esquecem diferencas etnicas e disputas politicas. Ao menos por um momento, nao sao andaluzes, galegos ou bascos. Sao espanhois. No dia 29 de junho de 2008, pelo futebol, cantam lado a lado, sinceros: "Espana es una, y no cincuenta y una! Espana es una, y no cincuenta y una!". Oooolé!

PS: Tenho fotos, muitas fotos, ilustrando tudo essa lorota aí de cima. Infelizmente, no computador onde estou nao dá pra baixar as imagens. Farei assim que possível.

PS2: Perdao pela falta de acentos, nao consigo me entender com esse teclado. Perdao também por possiveis muitos erros. O minutos estao correndo e nao dá tempo de revisar, pois pago esse negocio em Euro.

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O que move o mundo

Sexta-feira, 18 Abril 08, 03:51 PM

  

Por Victor Uchôa, de Londres/Inglaterra, em 15.04.2008

O dia é domingo, 13 de abril. Há quase um mês o inverno europeu foi embora, mas não avisaram aos deuses ingleses. Chove e faz frio. A manhã já se mostra há algum tempo e Liverpool ainda não despertou. Movimentação somente no Albert Dock, em frente ao museu dos Beatles, que moveram o mundo da música como talvez ninguém volte a mover, e gente de toda parte do mundo se move até Liverpool para ver o legado daqueles quatro rapazes.

Até que um grupo bem heterogêneo começa a juntar-se num café ao lado do museu. Adultos conduzem pequenas crianças. Os jovens têm olhar altivo. Mulheres circulam à vontade. Alguns são bastante velhos, outros um tanto quanto tímidos. Todos cantam. Trajando vermelho, cantam que nunca vão deixar o seu amor caminhar sozinho. Cantam para o Liverpool Football Club

A manhã do domingo corre a passos largos e as ruas de Liverpool ganham vida. Vida vermelha. De todas as direções surgem pessoas que andam pelo centro da cidade esperando o momento de partir para o Anfield Stadium, onde os Reds enfrentariam o Blackburn num jogo sem grande valia. Pelo comportamento dos torcedores, parecia valer o título. A loja oficial do clube está lotada. Crianças perdem-se em meio à camisas feitas especialmente para elas, bichos de pelúcia, chaveiros e quebra-cabeças com imagens dos ídolos. Um pai espera que os dois filhos, um de cinco e um de três anos, escolham o que querem levar. Questionado se torcer pelo Liverpool foi iniciativa dos pequenos ou teve sua influência, responde com outra pergunta: "Tive alguma participação, sim, mas seja sincero, jovem, há algum outro time melhor pra se torcer no mundo?".

Este é também o pensamento dos amigos Yan e Mardi, um japonês e o outro indiano. Moradores de Londres, reservam os finais de semana para acompanhar o Liverpool em qualquer cidade da Inglaterra. Não seria mais fácil torcer por uma equipe londrina? "Até que sim, mas nenhum time de Londres tem Gerrard, que joga com paixão, e nenhuma torcida ama seu time como essa", rebate o sorridente Mardi.

A 50 quilômetros dali, o que move o mundo de Manchester são as indústrias e as universidades. E naquele domingo, o futebol. O Manchester United, líder do campeonato mais rico do mundo, recebe o Arsenal, que então alimentava esperanças de ser campeão. Esquema especial de segurança nos arredores do estádio Old Trafford. Toda atenção para um dos maiores clássicos do planeta.

A multidão chega aos poucos. Solitários berros de incentivo dão gradativamente lugar à um coro ensurdecedor. Torcedores do Manchester riem à toa. Seu time joga o futebol mais consistente da Europa e tem o favorito à melhor jogador da temporada. O português é versado nos gritos de guerra, na onda que eles chamam de Ronaldo Fever.

Sem ingresso, assisto ao jogo num pub abarrotado de Red Devils. O único que apóia o Arsenal é um senhor com seus 70 anos, acompanhado pela esposa. Torce discretamente, pra não dar na vista dos rivais. No intervalo, ouso perguntar por que ele foi torcer num bar onde só estavam torcedores do Manchester. "Assisto todas as partidas do Arsenal nesse bar. Hoje não ia ser diferente. Esses meninos têm que me respeitar, pois eu já vi mais futebol do que todos eles juntos", conclui sorrindo.  

Arsenal na frente na casa do adversário. Só o velhinho está feliz, mas nem pode vibrar tanto. Pênalti para o Manchester, Cristiano Ronaldo na bola. Gol. O juiz manda repetir e um copo de cerveja vai ao chão. Segunda cobrança. Gol. Muita cerveja vai pro ar.

O torcedores ensaiam um tímido canto dentro do pub. Ronaldo joga pra torcida no Old Trafford e os ingleses vão à loucura fora do estádio. Virada dos Red Devils e o pub é uma festa completa. Rodada de cerveja pra todo mundo. O título é cada vez mais palpável.

Fim de jogo, tenho que me mover de volta pra Londres. No balcão, uma última cerveja pra rever os gols e sentir a atmosfera de felicidade. Martin comanda aquele pub há 30 anos. Ninguém teria mais credibilidade para concluir essa história. Dentre outras coisas, pergunto se é sempre daquele jeito em dia de jogo. Usando uma pequena toalha preta com o escudo do Manchester bordado, o senhor de pele rosada enxuga a testa: Você veio do Brasil até aqui para ver isso, diz o inglês de olhos esbugalhados. É domingo de futebol e vale o título - prossegue Martin, após tossir forte e respirar fundo - imaginava que poderia ser diferente?

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Enfatizando Conceitos

Terça-feira, 08 Abril 08, 07:05 PM

Por Victor Uchôa, em 08.04.2008, de Braga/Portugal

A verdade é que minhas experiências pessoais não interessam a ninguém.

Mas, também é verdade (por mais que muitos entortem a boca), o futebol interessa a todo mundo.

Quando a bola rola, já disse o filósofo, não tem jeito que dê jeito.

Hoje, oito do quatro do ano da Eurocopa Suíça/Áustria, na residência universitária onde vivo em Portugal, a história se repetiu.

Sala de convivência, duas TV's disponíveis. A disputa é árdua.

Um time quer ver a bola rolando no relvado bem aparado. As adversárias insistem nas repetitivas séries FOX, AXN e afins.

Mas não eram dois televisores?

O problema é que existem aqueles que precisamos ver Steven Gerrard atuando para dormirmos em paz, com a esperança de que o mundo pode melhorar. E existem os turcos.

Em Liverpool, os Reds recebem o Arsenal para o terceiro enfretamento das duas equipes em menos de uma semana. Em Londres, encarando o Chelsea, o Fenerbahçe tenta ser o primeiro time turco a chegar a uma semifinal da UEFA Champions.

O que fazer?

Com carinho, promete-se às mulheres tudo que elas quiserem, desde que seja depois do jogo.

Sala liberada. Duas frontes de combate. Em uma, batalha doméstica entre os herdeiros dos Beatles e a tradição da capital do império. Na outra, o time treinado por Zico e capitaneado por Alex tenta restabelecer o poder de Constantinopla.

As equipes londrinas saem na frente. O Liverpool empata. Em Londres, o Fenerbahçe precisa de um gol para seguir adiante. Os turcos esperam o segundo tempo com a agonia estampada no rosto.

Liverpool vira. Classificação assegurada. Os chineses se esbaldam no sofá. Pressão turca em Londres. Gritos de homens e mulheres turcas em Portugal.

Chegam os retardatários. Sala de convivência lotada. Arsenal empata. Quem passa é ele. Sete minutos para o fim. Pressão turca em Londres. Egípcio, franceses e gregos apóiam os turcos. Os brasileiros apoiamos os turcos. A engenheira séria puxa os cabelos e morde a camisa. Berra a cada gol perdido. Zico berra na beira do campo.

Pênalti pro Liverpool. Cinco minutos para o fim. Gerrard não erra. Reds na frente. O "You will never walk alone" ecoa pela Europa. Pressão turca em Londres. O segurança abandona o posto. Ninguém vai querer invadir a residência. É noite de futebol.

Pressão turca em Londres. O Liverpool chega ao quarto. Caixão lacrado. Três minutos para o fim. Turcos desesperados em Portugal. Pressão turca em Londres. Uma jogada. Gol do Chelsea. Caixão lacrado.

O mestrando turco baixa a vista e deixa a caneca cair aos seus pés. A engenheira turca, sempre séria, suspira fundo e contêm as lágrimas que se anunciam. 

O Segurança volta ao posto. Os Chineses estão felizes. Os Turcos não dão conversa. Egípcio e gregos discutem amenidades. As meninas estão de volta para ver as séries. Eu venho escrever essa ladainha.

Escrevo mesmo sabendo que minhas experiências pessoais não interessam a ninguém. Mas o futebol, esse não tem jeito, interessa a todo mundo.

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O homem do século XXI e suas paixões

Sábado, 22 Março 08, 12:14 PM

Por Victor Uchôa 

A arquibancada de um estádio de futebol é um dos lugares mais propícios para uma boa análise de comportamento. As pessoas transformam-se. Ali, o mundo é do torcedor, e não há quem o convença que os jogadores em campo não escutam suas instruções, que os adversários não ouvem seus insultos e que a autora dos dias do árbitro pode ser uma senhora de bom trato, daquelas que fazem biscoitos salgados e servem com chocolate quente. Elas são prostitutas e pronto.

 

Pra quem não conhece um ambiente de arquibancada, dou breves dicas, usando como exemplo o time que desperta a minha paixão: caso vejam alguém gritando, de maneira bastante inflamada, coisas como “Vitória, Vitória é minha vida, Vitória é meu orgulho, Vitória é meu amor”, tenham certeza, essa pessoa não sabe nada sobre torcer e provavelmente freqüenta o Parque Sócio-ambiental de Canabrava há pouco tempo.

 

O torcedor nato, aquele que pode ir sozinho porque já fez amizades no estádio e tem conta no churrasco de gato, não grita nada além de um bem modulado “Bora Vitória, minha Porr..!!!” Esse sim sabe o que é torcer. E é esse que se sacrifica pelo time, muitas vezes deixando em segundo plano uma outra paixão: a mulher.

 

Um dia desses, quando o Vitória perdia um jogo dentro dos seus domínios, ouvi a seguinte frase na arquibancada, e aqui vai uma transcrição literal: “Time de sacana! Deixo minha mulher em casa, venho pra cá ver essas merda perder! E o pior é que quando eu voltar ainda vai ter briga, porque ela vai dizer “ai ó, foi pra lá e o Vitória perdeu” e eu vou dizer “me deixe em paz que eu tô pirado” e aí o bicho vai pegar!”

 

Devido a exemplos como este é que defendo a união das paixões. Penso que tudo seria mais tranqüilo se o torcedor levasse a companheira ao templo sagrado de seu time. Acho até que elas iam se divertir bastante, ao ver como homens tão carrancudos podem ter reações inesperadas. As damas não precisam gritar “Bora Vitória, minha...”. Só a presença feminina já torna o momento mais prazeroso.

 

Tive uma namorada de que se dizia Corintiana. Mas dava tanta importância pra futebol que, sem saber, podia torcer pro Atlético Mineiro se visse o time na TV, somente pelo fato do uniforme ser alvinegro. Eu fazia grande esforço para que ela me acompanhasse ao Manoel Barradas, mas a moça matinha firme sua opinião de que lá só tinham malucos. É claro, nunca brigamos por causa disso.

 

Assim como é claro também que existem posições contrárias a essa que exponho. Tenho amigos, torcedores natos, que evitam levar as namoradas ao estádio, pois acham que pode dar problema. Alegam que vão dar muita atenção ao jogo e as respectivas irão reclamar. Pra esses, tenho um conselho. Quando a menina ficar com aquela carinha emburrada, é só transformar a situação num momento descontraído. Segure-a pela cintura, olhe nos olhos, e diga de maneira meio irônica: “Das minhas duas paixões, eu conheci qual primeiro? Você, ou a bola?”. Antes que ela responda com um tapa, dê risada para mostrar que foi uma brincadeira e a beije. Depois, para fechar com chave de ouro o momento romântico em plena arquibancada, vire pro campo e brade retumbantemente: “Bora Vitória, minha poorraa!!!” 

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O que move o mundo

Segunda-feira, 03 Março 08, 03:55 PM

 

Este texto foi escrito há algum tempo, como podem conferir pela data, mas como publiquei um outro de mesmo título recentemente, jogo-o na rede por ter a mesma abordagem.

Por Victor Uchôa, de Braga/Portugal, em 17.11.2007

Na fria madrugada do outono português, o vento se faz ouvir. Carrega as folhas caídas, secas. Com ritmo intenso, dá vida ao que era morto, e as folhas flutuam ensaiadas, compassadas, tocando o chão em seguida e emitindo cortante som. É o balé das folhas. Esse era o cenário em 14 de novembro de 2007. No Brasil, ainda dia 13, outro balé merecia aplausos.    No Estádio Manoel Barradas, em Salvador, o Esporte Clube Vitória dançava o balé da bola, de ritmo acelerado, agora ca den ci a do, voltaaacelerar e pára. Cumprimenta o público. A arquibancada vestida de vermelho e preto vê seu time do coração garantindo o retorno à série A do Campeonato Brasileiro. Na fria madrugada do outono português, trancado num quarto de residência universitária, maldizendo a conexão da internet que cortava a transmissão do jogo a cada instante, roendo unhas que já não existem, com uma taça cheia de vinho barato em punho, este que escreve sentia o drama de torcer à distância. A vida gosta mesmo de pregar peças. Eu, que desde menino vibro nas arquibancadas do Barradão, lá não estava naquele dia 13. Não estava porque me movi no mundo, e agora, vivendo em Portugal, tenho a plena certeza de que o futebol, apesar das várias formas de entretenimento apresentadas pela contemporaneidade, é o que move o mundo.

Viver como estudante em outro país é fazer parte de uma comunidade multifacetada, da qual cada integrante saiu de um lugar diferente do globo. Nessa situação, o único assunto que consegue alcançar a todos, é o futebol. Isso porque, como bem diz Eduardo Galeano, esse esporte é a única religião que não tem ateus. Qualquer um pode assistir às partidas no conforto do seu lar, sentado em frente à televisão, mas uma energia inexplicável move o torcedor para o estádio, para a missa pagã em que se pode ver as divindades em carne e osso. No gol, abraça-se o desconhecido ao lado. É um carnaval a cada jogo, é onde se pode esquecer do trabalho frustrado e do amor sem tesão.  

Irene é uma italiana que obriga os brasileiros a assistirem as partidas da sua seleção. Quando a Azzurra marca, vibra sozinha, lançando-se no ar como as folhas do outono, sem se preocupar com os olhares em volta. O alemão Paul é fanático pelo Werder Bremen e acha Diego (ex-Santos) um jogador fora de série. Discordamos neste ponto, mas cada um pensa o que quiser. Fato é que o Bayern Munique vem jogar em Braga, cidade onde vivo, e mesmo sendo um rival do seu clube do peito, Paul vai assistir a partida. É um clube alemão, diz ele, tem que ser visto. Victor é mineiro, mas não fica quieto quando o Cruzeiro joga. Estende a bandeira azul no corredor da residência e deixa a rádio on-line no mais alto volume. Gol do cruzeiro e quase estouram as caixas de som. Se o “Estrelado” perde, melhor não chegar perto. Convidado para assistir Benfica e Milan em Lisboa, arrematou: “O problema não é gastar 40 euros no ingresso. O problema é que isso paga quase o Campeonato Mineiro todo”. Para jogar bola em Portugal, Rafael comprou um tênis vermelho e azul, as cores do Clube Náutico Marcílio Dias. “Hoje eu tenho que comemorar porque o Marcílio ganhou o primeiro turno da Copa Santa Catarina, vencendo o Figueirense B no Gigantão das Avenidas”, disse ele há alguns dias. O Gigantão comporta 12 mil pessoas. Recentemente, após o Liverpool aplicar a histórica goleada de 8 a 0 sobre o Besiktas, pela UEFA Champions, o turco Aytekin parecia ter perdido um ente querido. Em breve, o Besiktas virá enfrentar o Porto. Apesar de o seu time ter remotas chances de classificação e o ingresso custar um considerável punhado de euros, Aytekin vai ao estádio.

 Exemplos assim são provas de que para o torcedor de futebol, o que mais vale não é ganhar ou perder. O que vale é o lúdico, a criação de espaço e tempo imaginários, onde há a eterna possibilidade de vitória. E de fazer parte da conquista. Ninguém diz que torce para esse ou aquele time. Diz-se eu sou Vitória, sou rubro-negro e sou 1ª divisão. Ou eu sou Cruzeiro, ou sou Besiktas. Nós ganhamos o jogo, e não o time. O juiz rouba a todos nós. Aborrece menos o adversário gozador do que o sem-graça que diz não entender porque tanto descontrole diante de um simples jogo. Na missa pagã, vale tudo, menos acabar com a ilusão do jogo.  

Li em algum lugar que o futebol se parece muito com Deus, devido à devoção que desperta nos crentes e a desconfiança com que lhe vêem muitos intelectuais. Chamam-no de ópio dos povos. Para os crentes, penso que inebria mesmo como uma droga. E se Deus realmente criou o mundo, nada melhor do algo parecido com Ele para mover sua criação. Além do mais, dizem que após seis dias de árduo trabalho para criar tudo que existe, Deus sentou pra descansar. Era sábado. Sentou pra ver futebol.  

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O que move o mundo - parte 4

Quarta-feira, 27 Fevereiro 08, 12:06 PM

 

Por Victor Uchôa, de Rabat/Marrocos, em 16.02.2008

 

O campo de terra batida está encravado na Cordilheira do Atlas, cadeia de montanhas que se ergue bem no meio do Marrocos e divide o país entre Costa Atlântica e Deserto do Saara. Barreiras de pedra definem os limites laterais. As linhas de fundo são estabelecidas por quatro pedras maiores, duas de cada lado, que ao mesmo tempo determinam a medida da “trave”.

 

Naquele terreno, à uma temperatura aproximada de 12º e com um vento que diminuía em muito a sensação térmica, meninos jogam futebol sem dar importância ao frio ou às regras do jogo. Onde está a bola, estão quase todos, numa disputa febril pelo objeto desejado. Até que um baixinho de camisa vermelha, mais lúcido, domina o balão de borracha pela direita e parte na diagonal em direção ao gol adversário. Dois defensores param em sua frente e ele empurra a pelota pra esquerda. O companheiro de amarelo mata e devolve em dois toques. Baixinho só precisa encostar o pé pra que a bola ultrapasse as duas pedras e ele corra pra comemorar com os amigos.

 

Assisto a cena do alto de uma colina, fotografando tudo. É quando um marroquino passa por mim sorrindo e conclui o lance: “Il est très bon. Fantastique”.

 

Com aquela frase na cabeça, guardo a câmera e sigo me movendo no mundo, rumo ao Saara. No caminho, fecho os olhos e lembro.

 

Lembro de ver cafés e restaurantes lotados nas ruas de Marrakech. Atenções voltadas para a Copa Africana de Nações 2008, vencida pelo Egito. Mesmo com sua seleção sendo eliminada na primeira fase, os marroquinos acompanharam o torneio até a final, como se ainda disputassem o título. Prova de que o que vale mesmo é a ilusão do jogo, sem tanto crédito para a vitória ou para a derrota.

 

Também em Marrakech, conheci um vendedor de sucos chamado Simon. Em três dias, o jovem aparece com três camisas diferentes do Barcelona. Curioso, quer saber se os clientes brasileiros são jogadores profissionais. Para ver sua reação, inventamos que um de nós é um jogador em férias. Simon quer fotos ao lado do “craque”.  De aparência humilde, surpreende ao sacar um celular de última geração e mostrar um vídeo onde Ronaldinho Gaúcho só falta fazer chover no deserto. As imagens, diz Simon, são preciosas.

 

Andar nas ruas de cidades marroquinas como Marrakech e Fès significa ser questionado a todo momento sobre sua origem. Os vendedores, artesãos ou encantadores de cobras querem sempre saber de onde chega o viajante. Se ouvem “Brasil” como resposta, é uma festa: “Ronaldo! Ronaldinho! Kaká!”. Todos, sem exceção, querem jogar com os brasileiros. Melhor. Eles querem brincar com a bola como brincam os brasileiros. Afinal, é do Brasil que sai boa parte dos poucos exemplos ainda existentes de jogadores que jogam pelo prazer de jogar, e não pela lógica numérica. São aqueles que mandam às favas os padrões estatísticos e deixam florescer a liberdade criadora, o improviso dos que atuam pela alegria de dar alegria.

 

Quando abro os olhos já estou em Mhamid, às portas do Saara, quase na fronteira com a Argélia. No deserto, passo alguns dias com Berberes, os nômades daquele território. Atualmente, devido à falta de água, muitos estão agrupados em vilas, em constante contato com o resto do mundo. Entre eles está Rhamon, que diz amar três coisas: o deserto, os camelos e futebol. Enquanto caminhamos pela areia fofa e ele acaricia seu camelo, Rhamon me deixa assombrado ao fazer algo que eu não conseguiria: sem titubear um só instante, escala toda a Seleção Brasileira que enfrentou o Marrocos na fase de grupos da Copa do Mundo de 1998. Numerando a camisa de cada jogador, ele vai de Taffarel a Ronaldo.

 

Voltando do Deserto, em Mhamid, encontro algumas crianças jogando bola num campo de areia, onde a barra horizontal das traves dá lugar a uma corda. Começo a fotografar  e muitos não gostam. Digo que sou do Brasil e tudo muda. Cada um dá o melhor de si em campo. Eles não têm calçados e, infelizmente, também não têm muitos dentes. Todos estão bastante sujos, e não por causa do jogo. Reparo que só um time tem uniforme. Descubro que o “árbitro” fala inglês e questiono sobre a falta de camisas para os demais. “Não tinha dinheiro pra comprar tantas camisas. Mas isso pouco importa, o que importa é que eles joguem e se divirtam”, diz Ahmed.

 

As crianças do deserto marroquino convidam-me para brincar com elas. Não posso. O ônibus que me moverá de volta ao mundo “civilizado” já vai partir. Mas antes, tenho tempo de ver um menino de cabeça raspada disputar no alto uma bola rifada por um companheiro. Na sobra, ganha na corrida do defensor e antes que o goleiro se dê conta, toca pro gol e sai fazendo festa. Então, aquela criança que nasceu no Saara e que tinha sido um dos mais contrários às minhas fotos, vira pra mim, sorri seu sorriso vazio porém cheio de vida e fala em Árabe algo que eu só posso decifrar como: “Brasil, essa foi pra você!”.

 

Très Bon. Fantastique!

Crianças do Deserto do Saara

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Carta de Alforria...ou o dia em que todos pendurarem as chuteiras

Terça-feira, 29 Maio 07, 07:07 PM

Certa vez fui apresentando a um holandês de nome Maurice, apaixonado por futebol. Conversando com ele, soube que nos Países Baixos, e creio eu que assim é em boa parte do mundo, não existe o futebol por diversão. Não existe a cultura do baba, ou da pelada, como queiram. O esporte bretão somente é praticado por atletas profissionais, ou por aqueles inscritos nas ligas amadoras. Quem quiser bater uma bolinha deve estar associado a algum clube, treinar regularmente e submeter-se à esfera de competitividade inerente a qualquer torneio.

 

Penso em como deve ser uma vida sem o prazer do bate-bola com os amigos, momento de alforria geral, liberdade plena. Todo xingamento é válido, sem que o rancor prospere. Num lance aqui, falta. Noutro acolá, simétrico em gravidade, o “agressor” passa impune, e ninguém pede que a mais alta instância da FIFA avalie as imagens para tomar as devidas providências. Um “ladrão descarado” resolve o assunto, a bola segue rolando, a amizade continua. O que vale é a jogada de efeito, e a gozação que esta promove. As regras e as medidas são flexíveis. Na praia, por exemplo, a cada instante o campo ganha dimensões diferentes. Quem vai garantir que a bola saiu ou não, se o limite é uma linha imaginária, ou flutuante? Nasce a discussão, mas ela também faz parte do espírito do Baba. A situação se “auto-resolve”, sem a participação do árbitro, que, por definição óbvia, é arbitrário. 

 

Há algum tempo li uma crônica de Chico Buarque onde ele dizia que a Pelada é uma espécie de futebol jogado apesar do chão. Joga-se no asfalto, no paralelepípedo e, não se enganem, em ladeira. Por isso, vejo o Baba como o esporte do “apesar”. Vale a liberdade de jogar descalço, apesar das bolhas (aliás tem gente que joga com chuteira feita sob medida, e tem bolha). Vale arriscar o inusitado, mesmo com o risco do erro. Vale até marcar um gol, correr em direção à arquibancada, saltar no ar e socar vento, cair de joelhos e beijar o escudo, apesar de em volta não haver nada mais do que uma cerca destroçada e o uniforme do “atleta” não passar de um surrado short.

 

Agora, que já falei um bocado, confesso que comecei a escrever este lero-lero há meses, mas por ineficiência, nunca conclui. Retomei-o porquê recentemente conheci um outro estrangeiro apaixonado por futebol, que em férias no Brasil, vive o prazer das partidas descompromissadas. O gringo da vez é um francês chamado Jon, mas já foi batizado como João e entende todas as mensagens emitidas durante o baba. Fora do jogo, comunicação com o rapaz da Torre Eifell, só em inglês. É o futebol e seu poder de romper barreiras.

 

Infelizmente, aquele conhecido holandês foi embora sem bater uma bolinha sequer na Bahia. Voltou pra sua terra, onde tem muitas bicicletas, lindas tulipas e museus diversos, porém, futebol descontraído na beira do Rio Reno que é bom, nada. Mas haverá um dia em que toda a humanidade vai chutar uma pelota sem compromisso, sem contrato, sem empresários, sem cartolas. Haverá.  

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