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Trusevich, a alma do F.C. Start no Jogo da Morte

Sábado, 11 Julho 09, 09:52 AM · Comentários(3)

Se o amigo procurar na net sobre o "Jogo da Morte", terá idéia do que aconteceu naquele 09 de agosto de 1942. A história do F.C.Start porém, não começou naquele dia e são os fatos que antecedem o Jogo da Morte que esta fanática tenta contar por aqui, além do último e emocionante jogo daquela temporada em meio à ocupação nazista em Kiev.

Por toda a União Soviética, então sob o controle de Stálin, existiam os clubes noemados "Dínamo" e na Ucrânia existia um que era o clube esportivo da polícia e do Ministério do Interior em Kiev. O mais notável dos Dinamos era, evidentemente, o de Moscou, principal equipe de futebol no campeonato da capital, mas em novembro de 1927, Nikolai Khanikov e Sergei Barminsky, dois jovens policiais membros do Dinamo de Kiev montaram um time formado inteiramente por funcionários da polícia local. Nascia o Dinamo de Kiev.

Seu maior rival local era o Zheldor, mais conhecido como Lokomotiv que era formado por operários do Sistema Ferroviário Sudoeste.

FK Zheldor ou Lokomotiv

A profissionalização se tornou uma realidade e com a oferta de um salário melhor e tempo para treinar, os clubes começaram a sondar jogadores dos clubes rivais. Esta nova perspectiva trouxe para o Dinamo de Kiev - como para tantos outros times da URSS - vários bons jogadores e ainda no início da década de 30 o Dinamo já contava com uma geração de jogadores que muito diriam ao mundo.

Escudo do Dinamo de Kiev
 

O novo Dinamo foi se formando e em menos de sete anos após sua fundação contribuiu com cinco jogadores para a seleção nacional ucraniana. Em 1935 chegaria o homem que traduziria em campo o espírito guerreiro do povo ucraniano.

Nikolai Trusevich

Nikolai Trusevich nasceu em Odessa em 1908. Começou a jogar futebol aos 13 anos, porém só despontou no jogo anos depois por conta de sua condição familiar. Desde muito novo, Kolya ajudava a alimentar a familia, já que seu pai não conseguia trabalho. Logo conseguiu trabalho como aprendiz numa padaria e acabou se tornando mestre padeiro. O compromisso com o trabalho, o pouco convivio social e a necessidade de retomar os estudos, não deixavam que o futebol fosse prioridade na vida de Trusevich, mesmo assim, quando algum tempo sobrava, ele jogava.

Alto, flexível e de estilo inovador, Trusevich logo foi convidado a jogar regularmente pelo Pischevik, equipe formada pelos operários da indústria alimentícia local. Muito talentoso, chamou a atenção do Dinamo de Odessa e assinou contrato com a equipe em 1929. Durante sete temporadas foi ídolo no Dinamo de Odessa por seu estilo pouco convencional e arrastava multidões quando jogava justamente por seu jeito brincalhão e exuberante. 

Para quem o observava ficava óbvio que o Odessa era pequeno demais para sua habilidade, já que não se restringia à pequena área. Trusevich inovou saindo da área e fazendo muitas vezes a função de zagueiro além de utilizar os pés e não as mãos em grande parte de suas defesas.

História interessante é contada quando depois de uma vitória acachapante sobre a seleção da Turquia, Trusecivh organizou um banquete surpresa para os adversários derrotados. Não que esta atitude estivesse ligada a alguma arrogância, é que Trusevich era homem de maneiras impecáveis e para que a surra em campo sobre o adversário não ficasse vista como falta de educação ou hospitalidade por parte do povo ucraniano. Para alegrar os visitantes, Trusevich se incumbiu de distraí-los com sua "dança do goleiro", que consistia em dobrar-se, balançar-se, esticar-se e saltar para apanhar uma bola imaginária ao som de um pot-pourri de tango e jazz. O ponto alto do "espetáculo" de Trusevich se deu quando a música parou e ele se congelou. De repente, caiu duro para frente, mas instantes antes de tocar o chão, ele esticou os braços e num salto voltou a ficar de pé e a fazer a sua "dança do goleiro" novamente. Inevitavelmente a platéia pediu bis, e Trusevich repetiu sua dança quantas vezes foram necessárias para deixar os visitantes satisfeitos e confortáveis. Impecável, exigente e bem sucedido em tudo o que fazia, Trusevich não ficaria marcado apenas pela inovação dentro de campo, ou pelo ímpeto de se lançar aos pés dos atacantes em divididas perigosas ou por sua amabilidade, cortesia e alegria. Os tempos de guerra com a invasão alemã e posterior ocupação de Kiev mostraria ao mundo que Trusevich era um homem determinado e filho leal da mãe Rússia.

Apesar do pacto de não agressão entre Stálin e Hittler, o führer traiçoeiro e doente não tinha em mente deixar a capital da URSS em paz, e avançou com suas tropas pelo leste europeu. Kiev foi atacada e boa parte do time do Dinamo se juntou ao exército ou às milícias para combater os alemães que esmagavam a população e queria ocupar a cidade usando-a como uma das bases para o avanço até Moscou.

Trusevich combateu ferozmente os alemães e apesar das poucas armas - o discurso de Stálin era duro, exigindo que a população não se entregasse e lutasse, a despeito das condições desiguais de armamento - conseguiu sobreviver. Em andrajos perambulou por Kiev até que foi reconhecido como o grande goleiro do Dinamo por Josef Kordik, atual dono da Padaria número 3. Imediatamente Kordik lhe deu abrigo e trabalho e alí surgia a idéia de ter perto de si os maiores atletas da Ucrânia. Conseguiu juntar alguns jogadores do Dínamo e do Lokomotiv além de boxeadores, ciclistas, ginastas entre outras celebridades.

Numa tentativa de amansar a população local, o governo da ocupação terminou a construção do estádio de Kiev que antes da guerra receberia o nome de Nikita Kruschev, e passou a chamar-se Estádio Ucraniano. Um novo campeonato começaria no dia 7 de junho de 1942, e o time de futebol à disposição de Kordik, formado por jogadores de Lokomotiv e do Dínamo de Kiev, recebeu o nome de F.C. Start.

Trusevich no F.C.Start


O F.C. Start ganhou todas as partidas com o jogo de camisas encontrado nos escombros de guerra. Suas cores eram vermelho e branco. O discurso de Trusevich para os companheiros sobre o uniforme foi algo realmente convencedor: "Não temos armas, mas podemos batalhar pela nossa própria vitória no gramado. Desta vez, membro do Dinamo e do Zheldor vão jogar com a mesma cor, a cor da nossa bandeira. Os facistas vão ver que esta cor não pode ser derrotada".

O primeiro jogo do F.C.Start foi contra o Rukh. Vitória esmagadora por 7 x 2. O "dono" do Rukh, Georgi Shvetson, kievano jogador notável do Lokomotiv e simpatizante dos nazistas, indignado com a derrota do seu time, convenceu os governantes e a proibir que o F.C.Start utilizasse o novo estádio. A eles foi designado do Estádio Zenit. 

Apesar de todas as dificuldades - já que os jogadores do Start trabalhavam em regime semi-escravo, estavam sub-nutridos, sem chuteiras ou condições físicas adequadas - os homens que vestiam o uniforme vermelho e branco já tinham personificado a alma guerreira e em suas peles as cores da mãe Rússia, estavam marcadas para sempre.

O segundo jogo foi contra o time da guarnição hungára e o placar foi de 6 x 2 para o Start.  Alguns dias depois, foi a vez da guarnição romena tomar um chocolate: 11 x 0! Hungaros e romenos, aliados aos alemães na guerra, não foram páreo para a equipe kievana e isso na verdade pouco lhes importava. Mas no dia 17 de julho a coisa mudaria e o Start enfrentaria o PGS, time de uma unidade militar alemã. Nenhuma supresa, placar de 6 x 0 para o Start. Em quatro partidas a equipe de Trusevich havia marcado de 30 gols e levado apenas 4!

Com as vitórias do F.C.Start, o povo kievano teve seu moral elevado e isto começou a preocupar as autoridades alemãs, apesar de manter sua política de não-interferência no futebol. No íntimo, o desejo do comando alemão, era que o F.C.Start sucumbisse e a partida marcada para o dia 19 de julho contra a equipe hungara do MSG Wal poderia atender aos desejos dos alemães. Mas, nem a superioridade física dos hungaros foi capaz de demover o Start de Trusevich de sua ideologia de jamais ser derrotado vestindo as cores da mãe Rússia. O time hungaro perdeu por 5 x 1! Houve revanche no dia 26 de julho, mas o MSG Wal perdeu por 3 x 2 novamente. Enquanto isso, o Rukh, time de Shvetson perdia para o time do destacamento aéreo alemão, o Flakelf. Este jogo inclusive foi considerado um treino para o time alemão.

F.C.Start x Flakelf


O jogo entre o Start e o Flakelf foi marcado para o dia 06 de agosto. Os alemães provariam que eram superiores física e moralmente e que aquele bando de joão-ninguém sucumbiriam. Placar do jogo: 5 x 1 para o Start, um dos mais fáceis daquele campeonato. Jesse Owens já havia suplantado Hitler em Berlim, nas Olimpíadas de 36, agora seria a vez do Start, em nome dos kievanos de levar o führer ao desespero.

O Start derrotou o Flakelf numa quinta-feira, e na sexta-feira a revanche já estava definida para o dia 09. Os dizeres dos panfletos espalhados pela cidade, deixavam bem clara a insatisfação e a irritação do comando alemão. Fora o tipo de papel utilizado - o mesmo dos anúncios oficiais - outro fato que mereceu destaque foi a escalação do Start feita pelo governo da ocupação. Sim! Os alemães escalaram o time do F.C.Start!

Cartaz da Revanche

Trusevich, Klimenko, Sviridovsky, Sukharev, Balakin, Gundarev, Goncharenko, Chernega, Komarov, Korotkykh, Putistin, Melnik, Timofeyev e Tyutchev.

Interessante na escalação feita pelo governo da ocupação é que Gundarev era um jogador do Rukh, que atuou apenas na primera partida pelo Start por falta de jogador. E a ausência de  Kuzmenko, um dos mais amados e carismáticos da equipe.

Tudo nesta partida foi diferente, a começar da presença do alto comando alemão, soldados com cães na entrada e ao longo do gramado, as arquibancadas foram destinadas aos soldados alemães e o juíz era SÓ um soldado da SS. Este entrou no vestiário do F.C.Start antes do início da partida para dizer algumas palavras: "Sou o juíz de hoje. Sei que o time de vocês é muito bom. Por favor, sigam as regras, não infrinjam qualquer regra e antes do jogo cumprimentem seus adversários à nossa maneira". Isto dito de forma bastante pausada e sem alterar a voz e muito embora seu dicurso tenha sido polido e quase cortês, havia algo de sinistro naquilo tudo.

Estádio Zenit

Tão logo o "juíz" deixou o vestiário, o clima ficou tenso e os jogadores se reuniram como em qualquer outro vestiário. Sobre o que se conversou alí, não se sabe, a única coisaque se pode imaginar é pelo que foi visto em campo.

F.C.Start x Flakelf

 Os soldados do Flakelf saudaram a tribuna do auto comando com "Heil Hitler" e a multidão aguardou para ver o que os jogadores do Start fariam. A apreensão tomou conta. Todos quietos e os jogadores de cabeça baixa. Um a um, os braços foram erguidos. Os torcedores do Start estavam confusos. Mas quando todos os braços estavam no alto, os jogadores do Start os dobraram sobre o peito e gritaram: "FizcultHura!". O alto comando alemão ficou estupefato. Os torcedores ucranianos aplaudiram e a escolha do termo utilizado para saudação nada mais é do que vida longa ao esporte.

O jogo começou e a violência alemã sob o olhar complacente do juíz da SS não deixava dúvidas sobre o caráter daquela revanche. Ou o Start entregava o jogo, ou a coisa ia piorar. No primeiro lance a gol do Flakelf, Trusevich se lançou nos pés do atacante alemão que não tentou desviar do goleiro e chutou a cabeça de Trusevich, que permaneceu inconsciente por vários minutos. Sem a possibilidade de substituição, Trusevich ainda tonto, levantou-se e continuou no jogo. Era natural que minutos depois, o Flakelf abrisse o placar.

O Start não esmoreceu e Kuzmenko empatou a partida num petardo sensacional a 30 metros de distância da meta. Convém salientar que Kuzmenko treinava com bolas de até 3 vezes o peso normal, justamente para aprimar o poder de seu chute. Goncharenko deu sua contribuição quando pegou uma bola pela lateral e avançou sem conseguir ser detido e infiltrou-se na área driblando um meia após o outro e praticamente entrou com bola e tudo na meta alemã. Kuzmenko fez o terceiro e o primeiro tempo assim terminou: 3 x 1 para o Start.

Os jogadores receberam algumas visitas no vestiário, entre elas, a do próprio Shvetsov pedindo para que eles entregassem o jogo, já antevendo uma retaliação por parte do governo da ocupação. Outro soldado da SS visitou o vestiário e no mesmo tom polido e cortês elogiou o futebol apresentado pela equipe, mas ressaltou que não seria bom que detivessem a vitória e que seria de bom senso avaliarem suas ações antes de voltar a campo. Nada disso resolveu, e o Start venceu o time do destacamento aéreo alemão por 5 x 3, com possibilidade de ter feito o sexto gol, não fosse Klimenko desmoralizar ainda mais os alemães quando sozinho, na linha do gol, parou a bola antes da linha, olhou para tras, entrou no gol e colocou a bola em jogo novamente.

Foi demais para o juíz da SS. Antes mesmo de decorridos os 90 minutos do jogo, ele apitou o final. O Start golpeou o orgulho e a "superioridade" alemã não uma, mas duas vezes e o homem que deu o golpe final na humilhação era o mais jovem do time, um zagueiro marcado para ser eliminado.

Apesar da vitória, os jogadores do Start mal comemoraram porque sabiam o que lhes esperava. Voltaram para a Padaria número 3 e alguns dias depois a Gestapo prendeu a maioria dos homens do F.C.Start. Trusevich foi levado para o campo de concentração em Siretz.

Foi executado juntamente com Klimenko e Kuzmenko quando o Exército Vermelho estava quase tomando Kiev e o comandante alemão do campo de Siretz estava muito perto de ser capturado e seus crimes de guerra a ponto de serem descobertos.  Trusevich não se entregou nem no momento de sua morte e antes de levar o tiro na nuca gritou: "O esporte vermelho nunca morrerá!".

Homenagem aos heróis ucranianos

Em homenagem aos heróis kievanos do F.C.Start, há um monumento no estádio do Dinamo de Kiev: Nikolai Trusevich, Korotkykh, Ivan Kuzmenko e Alexei Klimenko. Trusevich morreu com a sua camisa de goleiro e foi, além da alma do F.C.Start, a fonte de inspiração para o povo kievano para lutar por sua dignidade.

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Postado por Lucastro | Comentários (3)

3 Comentários · Adicionar o seu

stebozza
stebozza Escrito: | 12.03BRT | Jul 12, 2009

Muito bom! Aprendi bastante, tinha muita coisa que não sabia.
Me chamou atenção o cara fazendo banquete pros turcos (turcos?, sei lá) derrotados e esse time do Stars que goleava todo mundo. Até com tudo contra eles ganharam de 5x3. Esse time era bom pra caralho meu!
Mas já previa o final. Onde tem Hitler, tem merda no final da história.

Lucastro
Lucastro Escrito: | 10.28BRT | Jul 13, 2009

Responder para stebozza:

Muito bom! Aprendi bastante, tinha muita coisa que não sabia.
Me chamou atenção o cara fazendo banquete pros turcos (turcos?, sei lá) derrotados e esse time do Stars que goleava todo mundo. Até com tudo contra eles ganharam de 5x3. Esse time era bom pra caralho meu!
Mas já previa o...

Fiquei pensando no absurdo de alguém invadir tua terra, te fazer escravo, infernizar a tua vida...
Lá quem jogou contra foram pessoas de outros lugares, aqui, quem joga contra o povo, é o próprio governo...lamentável!

stebozza
stebozza Escrito: | 12.31BRT | Jul 13, 2009

Responder para Lucastro:

Responder para stebozza:

Muito bom! Aprendi bastante, tinha muita coisa que não sabia.
Me chamou atenção o cara fazendo banquete pros turcos (turcos?, sei lá) derrotados e esse time do Stars que goleava todo mundo. Até com tudo contra eles ganharam de 5x3. Esse time era bom pra caralho meu!
Mas já previa o...

Fiquei pensando no absurdo de alguém invadir tua terra, te fazer escravo, infernizar a tua vida...
Lá quem jogou contra foram pessoas de outros lugares, aqui, quem joga contra o povo, é o próprio governo...lamentável!

"aqui, quem joga contra o povo, é o próprio governo..."
Fato.

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