Segunda-feira, 19 Outubro 09, 09:27 PM
1958 - O ano em que o mundo descobriu o Brasil
Ainda não viu? E sabe mesmo de futebol brasileiro? Tem certeza? Então faça a lição: assista ao filme!
Sábado, 11 Julho 09, 09:52 AM
Se o amigo procurar na net sobre o "Jogo da Morte", terá idéia do que aconteceu naquele 09 de agosto de 1942. A história do F.C.Start porém, não começou naquele dia e são os fatos que antecedem o Jogo da Morte que esta fanática tenta contar por aqui, além do último e emocionante jogo daquela temporada em meio à ocupação nazista em Kiev.
Por toda a União Soviética, então sob o controle de Stálin, existiam os clubes noemados "Dínamo" e na Ucrânia existia um que era o clube esportivo da polícia e do Ministério do Interior em Kiev. O mais notável dos Dinamos era, evidentemente, o de Moscou, principal equipe de futebol no campeonato da capital, mas em novembro de 1927, Nikolai Khanikov e Sergei Barminsky, dois jovens policiais membros do Dinamo de Kiev montaram um time formado inteiramente por funcionários da polícia local. Nascia o Dinamo de Kiev.
Seu maior rival local era o Zheldor, mais conhecido como Lokomotiv que era formado por operários do Sistema Ferroviário Sudoeste.
A profissionalização se tornou uma realidade e com a oferta de um salário melhor e tempo para treinar, os clubes começaram a sondar jogadores dos clubes rivais. Esta nova perspectiva trouxe para o Dinamo de Kiev - como para tantos outros times da URSS - vários bons jogadores e ainda no início da década de 30 o Dinamo já contava com uma geração de jogadores que muito diriam ao mundo.
O novo Dinamo foi se formando e em menos de sete anos após sua fundação contribuiu com cinco jogadores para a seleção nacional ucraniana. Em 1935 chegaria o homem que traduziria em campo o espírito guerreiro do povo ucraniano.
Nikolai Trusevich nasceu em Odessa em 1908. Começou a jogar futebol aos 13 anos, porém só despontou no jogo anos depois por conta de sua condição familiar. Desde muito novo, Kolya ajudava a alimentar a familia, já que seu pai não conseguia trabalho. Logo conseguiu trabalho como aprendiz numa padaria e acabou se tornando mestre padeiro. O compromisso com o trabalho, o pouco convivio social e a necessidade de retomar os estudos, não deixavam que o futebol fosse prioridade na vida de Trusevich, mesmo assim, quando algum tempo sobrava, ele jogava.
Alto, flexível e de estilo inovador, Trusevich logo foi convidado a jogar regularmente pelo Pischevik, equipe formada pelos operários da indústria alimentícia local. Muito talentoso, chamou a atenção do Dinamo de Odessa e assinou contrato com a equipe em 1929. Durante sete temporadas foi ídolo no Dinamo de Odessa por seu estilo pouco convencional e arrastava multidões quando jogava justamente por seu jeito brincalhão e exuberante.
Para quem o observava ficava óbvio que o Odessa era pequeno demais para sua habilidade, já que não se restringia à pequena área. Trusevich inovou saindo da área e fazendo muitas vezes a função de zagueiro além de utilizar os pés e não as mãos em grande parte de suas defesas.
História interessante é contada quando depois de uma vitória acachapante sobre a seleção da Turquia, Trusecivh organizou um banquete surpresa para os adversários derrotados. Não que esta atitude estivesse ligada a alguma arrogância, é que Trusevich era homem de maneiras impecáveis e para que a surra em campo sobre o adversário não ficasse vista como falta de educação ou hospitalidade por parte do povo ucraniano. Para alegrar os visitantes, Trusevich se incumbiu de distraí-los com sua "dança do goleiro", que consistia em dobrar-se, balançar-se, esticar-se e saltar para apanhar uma bola imaginária ao som de um pot-pourri de tango e jazz. O ponto alto do "espetáculo" de Trusevich se deu quando a música parou e ele se congelou. De repente, caiu duro para frente, mas instantes antes de tocar o chão, ele esticou os braços e num salto voltou a ficar de pé e a fazer a sua "dança do goleiro" novamente. Inevitavelmente a platéia pediu bis, e Trusevich repetiu sua dança quantas vezes foram necessárias para deixar os visitantes satisfeitos e confortáveis. Impecável, exigente e bem sucedido em tudo o que fazia, Trusevich não ficaria marcado apenas pela inovação dentro de campo, ou pelo ímpeto de se lançar aos pés dos atacantes em divididas perigosas ou por sua amabilidade, cortesia e alegria. Os tempos de guerra com a invasão alemã e posterior ocupação de Kiev mostraria ao mundo que Trusevich era um homem determinado e filho leal da mãe Rússia.
Apesar do pacto de não agressão entre Stálin e Hittler, o führer traiçoeiro e doente não tinha em mente deixar a capital da URSS em paz, e avançou com suas tropas pelo leste europeu. Kiev foi atacada e boa parte do time do Dinamo se juntou ao exército ou às milícias para combater os alemães que esmagavam a população e queria ocupar a cidade usando-a como uma das bases para o avanço até Moscou.
Trusevich combateu ferozmente os alemães e apesar das poucas armas - o discurso de Stálin era duro, exigindo que a população não se entregasse e lutasse, a despeito das condições desiguais de armamento - conseguiu sobreviver. Em andrajos perambulou por Kiev até que foi reconhecido como o grande goleiro do Dinamo por Josef Kordik, atual dono da Padaria número 3. Imediatamente Kordik lhe deu abrigo e trabalho e alí surgia a idéia de ter perto de si os maiores atletas da Ucrânia. Conseguiu juntar alguns jogadores do Dínamo e do Lokomotiv além de boxeadores, ciclistas, ginastas entre outras celebridades.
Numa tentativa de amansar a população local, o governo da ocupação terminou a construção do estádio de Kiev que antes da guerra receberia o nome de Nikita Kruschev, e passou a chamar-se Estádio Ucraniano. Um novo campeonato começaria no dia 7 de junho de 1942, e o time de futebol à disposição de Kordik, formado por jogadores de Lokomotiv e do Dínamo de Kiev, recebeu o nome de F.C. Start.
O F.C. Start ganhou todas as partidas com o jogo de camisas encontrado nos escombros de guerra. Suas cores eram vermelho e branco. O discurso de Trusevich para os companheiros sobre o uniforme foi algo realmente convencedor: "Não temos armas, mas podemos batalhar pela nossa própria vitória no gramado. Desta vez, membro do Dinamo e do Zheldor vão jogar com a mesma cor, a cor da nossa bandeira. Os facistas vão ver que esta cor não pode ser derrotada".
O primeiro jogo do F.C.Start foi contra o Rukh. Vitória esmagadora por 7 x 2. O "dono" do Rukh, Georgi Shvetson, kievano jogador notável do Lokomotiv e simpatizante dos nazistas, indignado com a derrota do seu time, convenceu os governantes e a proibir que o F.C.Start utilizasse o novo estádio. A eles foi designado do Estádio Zenit.
Apesar de todas as dificuldades - já que os jogadores do Start trabalhavam em regime semi-escravo, estavam sub-nutridos, sem chuteiras ou condições físicas adequadas - os homens que vestiam o uniforme vermelho e branco já tinham personificado a alma guerreira e em suas peles as cores da mãe Rússia, estavam marcadas para sempre.
O segundo jogo foi contra o time da guarnição hungára e o placar foi de 6 x 2 para o Start. Alguns dias depois, foi a vez da guarnição romena tomar um chocolate: 11 x 0! Hungaros e romenos, aliados aos alemães na guerra, não foram páreo para a equipe kievana e isso na verdade pouco lhes importava. Mas no dia 17 de julho a coisa mudaria e o Start enfrentaria o PGS, time de uma unidade militar alemã. Nenhuma supresa, placar de 6 x 0 para o Start. Em quatro partidas a equipe de Trusevich havia marcado de 30 gols e levado apenas 4!
Com as vitórias do F.C.Start, o povo kievano teve seu moral elevado e isto começou a preocupar as autoridades alemãs, apesar de manter sua política de não-interferência no futebol. No íntimo, o desejo do comando alemão, era que o F.C.Start sucumbisse e a partida marcada para o dia 19 de julho contra a equipe hungara do MSG Wal poderia atender aos desejos dos alemães. Mas, nem a superioridade física dos hungaros foi capaz de demover o Start de Trusevich de sua ideologia de jamais ser derrotado vestindo as cores da mãe Rússia. O time hungaro perdeu por 5 x 1! Houve revanche no dia 26 de julho, mas o MSG Wal perdeu por 3 x 2 novamente. Enquanto isso, o Rukh, time de Shvetson perdia para o time do destacamento aéreo alemão, o Flakelf. Este jogo inclusive foi considerado um treino para o time alemão.
O jogo entre o Start e o Flakelf foi marcado para o dia 06 de agosto. Os alemães provariam que eram superiores física e moralmente e que aquele bando de joão-ninguém sucumbiriam. Placar do jogo: 5 x 1 para o Start, um dos mais fáceis daquele campeonato. Jesse Owens já havia suplantado Hitler em Berlim, nas Olimpíadas de 36, agora seria a vez do Start, em nome dos kievanos de levar o führer ao desespero.
O Start derrotou o Flakelf numa quinta-feira, e na sexta-feira a revanche já estava definida para o dia 09. Os dizeres dos panfletos espalhados pela cidade, deixavam bem clara a insatisfação e a irritação do comando alemão. Fora o tipo de papel utilizado - o mesmo dos anúncios oficiais - outro fato que mereceu destaque foi a escalação do Start feita pelo governo da ocupação. Sim! Os alemães escalaram o time do F.C.Start!
Trusevich, Klimenko, Sviridovsky, Sukharev, Balakin, Gundarev, Goncharenko, Chernega, Komarov, Korotkykh, Putistin, Melnik, Timofeyev e Tyutchev.
Interessante na escalação feita pelo governo da ocupação é que Gundarev era um jogador do Rukh, que atuou apenas na primera partida pelo Start por falta de jogador. E a ausência de Kuzmenko, um dos mais amados e carismáticos da equipe.
Tudo nesta partida foi diferente, a começar da presença do alto comando alemão, soldados com cães na entrada e ao longo do gramado, as arquibancadas foram destinadas aos soldados alemães e o juíz era SÓ um soldado da SS. Este entrou no vestiário do F.C.Start antes do início da partida para dizer algumas palavras: "Sou o juíz de hoje. Sei que o time de vocês é muito bom. Por favor, sigam as regras, não infrinjam qualquer regra e antes do jogo cumprimentem seus adversários à nossa maneira". Isto dito de forma bastante pausada e sem alterar a voz e muito embora seu dicurso tenha sido polido e quase cortês, havia algo de sinistro naquilo tudo.
Tão logo o "juíz" deixou o vestiário, o clima ficou tenso e os jogadores se reuniram como em qualquer outro vestiário. Sobre o que se conversou alí, não se sabe, a única coisaque se pode imaginar é pelo que foi visto em campo.
Os soldados do Flakelf saudaram a tribuna do auto comando com "Heil Hitler" e a multidão aguardou para ver o que os jogadores do Start fariam. A apreensão tomou conta. Todos quietos e os jogadores de cabeça baixa. Um a um, os braços foram erguidos. Os torcedores do Start estavam confusos. Mas quando todos os braços estavam no alto, os jogadores do Start os dobraram sobre o peito e gritaram: "FizcultHura!". O alto comando alemão ficou estupefato. Os torcedores ucranianos aplaudiram e a escolha do termo utilizado para saudação nada mais é do que vida longa ao esporte.
O jogo começou e a violência alemã sob o olhar complacente do juíz da SS não deixava dúvidas sobre o caráter daquela revanche. Ou o Start entregava o jogo, ou a coisa ia piorar. No primeiro lance a gol do Flakelf, Trusevich se lançou nos pés do atacante alemão que não tentou desviar do goleiro e chutou a cabeça de Trusevich, que permaneceu inconsciente por vários minutos. Sem a possibilidade de substituição, Trusevich ainda tonto, levantou-se e continuou no jogo. Era natural que minutos depois, o Flakelf abrisse o placar.
O Start não esmoreceu e Kuzmenko empatou a partida num petardo sensacional a 30 metros de distância da meta. Convém salientar que Kuzmenko treinava com bolas de até 3 vezes o peso normal, justamente para aprimar o poder de seu chute. Goncharenko deu sua contribuição quando pegou uma bola pela lateral e avançou sem conseguir ser detido e infiltrou-se na área driblando um meia após o outro e praticamente entrou com bola e tudo na meta alemã. Kuzmenko fez o terceiro e o primeiro tempo assim terminou: 3 x 1 para o Start.
Os jogadores receberam algumas visitas no vestiário, entre elas, a do próprio Shvetsov pedindo para que eles entregassem o jogo, já antevendo uma retaliação por parte do governo da ocupação. Outro soldado da SS visitou o vestiário e no mesmo tom polido e cortês elogiou o futebol apresentado pela equipe, mas ressaltou que não seria bom que detivessem a vitória e que seria de bom senso avaliarem suas ações antes de voltar a campo. Nada disso resolveu, e o Start venceu o time do destacamento aéreo alemão por 5 x 3, com possibilidade de ter feito o sexto gol, não fosse Klimenko desmoralizar ainda mais os alemães quando sozinho, na linha do gol, parou a bola antes da linha, olhou para tras, entrou no gol e colocou a bola em jogo novamente.
Foi demais para o juíz da SS. Antes mesmo de decorridos os 90 minutos do jogo, ele apitou o final. O Start golpeou o orgulho e a "superioridade" alemã não uma, mas duas vezes e o homem que deu o golpe final na humilhação era o mais jovem do time, um zagueiro marcado para ser eliminado.
Apesar da vitória, os jogadores do Start mal comemoraram porque sabiam o que lhes esperava. Voltaram para a Padaria número 3 e alguns dias depois a Gestapo prendeu a maioria dos homens do F.C.Start. Trusevich foi levado para o campo de concentração em Siretz.
Foi executado juntamente com Klimenko e Kuzmenko quando o Exército Vermelho estava quase tomando Kiev e o comandante alemão do campo de Siretz estava muito perto de ser capturado e seus crimes de guerra a ponto de serem descobertos. Trusevich não se entregou nem no momento de sua morte e antes de levar o tiro na nuca gritou: "O esporte vermelho nunca morrerá!".
Em homenagem aos heróis kievanos do F.C.Start, há um monumento no estádio do Dinamo de Kiev: Nikolai Trusevich, Korotkykh, Ivan Kuzmenko e Alexei Klimenko. Trusevich morreu com a sua camisa de goleiro e foi, além da alma do F.C.Start, a fonte de inspiração para o povo kievano para lutar por sua dignidade.
Sábado, 21 Março 09, 12:14 PM
Quarta-feira acho que vou ao Pacaembu. Estou me programando pra assistir um jogo do Corinthians.
Sim, do Corinthians. Mas não pelo Corinthians de agora, com seus dirigentes toscos.
Vou, como tantos outros tricolores e palestrinos, para ver Ronaldo.
Para quem desconhece a história do futebol, ou não faz questão de ampliar sua visão sobre o esporte por pura rivalidade, só um, além de Pelé, é claro (mas Pelé não conta nunca porque é ignorância pura incluí-lo em alguma estatística), foi capaz de arancar de seus lares torcedores de times rivais para vê-lo em campo.
Muito tempo se passou até que Ronaldo conseguisse repetir o feito de Canhoteiro.
José Ribamar de Oliveira, maranhense, nascido em 1932, chegou ao SPFC em 1955 e trouxe para os paulistanos, tarde memoráveis de um futebol que não veremos jamais.
Dono de um drible desconcertante, é considerado o melhor ponta-esquerda de todos os tempos, talvez por isso tantos torcedores de outros times quisessem vê-lo atuando, mesmo que isso significasse ir a um jogo do SPFC.
No livro "Canhoteiro, o homem que driblou a glória", Renato Pompeu descreve tardes paulistana de futebol, onde o espetáculo era ele, o ponta-esquerda maranhense que adotou a cidade de São Paulo como seu lar e provou que era possível ir ao estádio pelo simples fato de que nele havia alguém realmente interessante jogando bola.
Quero ver Ronaldo em campo. Não esperando que ele seja o Canhoteiro da vez, até porque seu futebol não é mais o mesmo, as posições são distintas e o estilo de futebol é completamente diferente.
Mas Ronaldo é o cara que suplantou tantas fases ruins, passou por cima de tantas adversidades e continua fazendo gols, que seria no mínimo ignorância de minha parte, se rejeitasse qualquer possibilidade de vê-lo atuando, por pura marra.
É pena que fenômenos assim aconteçam de vez em nunca e no caso de Canhoteiro, não conheço quem tenha imagens de seu futebol a não ser em lembrança.
Seria não só um feito, seria, para alegria de quem gosta de futebol, uma alegre e prazerosa constante.
Sábado, 28 Fevereiro 09, 10:14 AM
Enquanto não consigo terminar a história de Puskas, segue mais um lançamento de livro, desta vez do companheiro de Memofut, Gustavo Longhi de Carvalho.
abre aspas
O livro “Milani – O Artilheiro Aviador”, basicamente, é uma biografia de Mário Milani, que foi jogador do São Paulo, do Fluminense, do Corinthians e do Juventus, entre outros clubes, sendo um atleta de grande destaque na década de 1940. Após isto, ele teve destaque em outras funções, não ligadas a futebol, na região de Jundiaí. Ele faleceu em 2003 e minha principal fonte foi seu único irmão vivo, o sr. Tico Milani, que esteve em uma reunião do Memofut no último mês de julho.
Milani era jundiaiense e viveu na cidade por praticamente toda sua vida.
O evento de lançamento do livro será no Solar do Barão, no dia 07 de março (sábado), a partir das 10h. Mais detalhes estão no arquivo anexo.
Abaixo está o texto da quarta capa do livro, que contém um resumo da trajetória de Milani: "Quem foi Mário Milani? Apesar de ter sido um jogador de futebol de grande destaque na década de 1940, estando entre os melhores do Brasil numa época de grandes craques, muitos, mesmo entre os que se interessam por futebol, não o conhecem. Milani foi campeão paulista pelo Corinthians, carioca pelo Fluminense, bicampeão brasileiro pela Seleção Paulista, artilheiro do Campeonato Brasileiro de Seleções por duas vezes e do Campeonato Paulista, além de ter passado também por São Paulo, pouco depois do clube ser fundado, Juventus e Paulista de Jundiaí. Trata-se de um dos poucos jogadores que chegaram a fazer 100 gols pelo Sport Club Corinthians Paulista.
Mas ele foi muito mais do que um jogador de destaque. Milani foi um funcionário público dedicado, tendo trabalhado como Secretário de Finanças em Jundiaí e colaborado durante anos em Itupeva, um município vizinho. Tanta dedicação e a bela carreira como jogador renderam-lhe muitas homenagens, como um viaduto e um estádio de futebol que recebem seu nome.
Milani foi alguém que sempre se dedicou à família – a esposa Maria, com quem viveu até falecer, num casamento de quase 60 anos, seus pais, irmãos, filhos, netos e bisnetos. Pilotou aviões, foi professor e passou praticamente toda sua vida em sua cidade natal, Jundiaí. Este é um pequeno resumo de quem foi Mário Milani. Mais detalhes da vida deste grande personagem se encontram neste livro".Gustavo Longhi de Carvalho
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Livro mais que recomendado, já que tive o prazer de acompanhar a apresentação do trabalho do companheiro Gustavo.
Sucesso!
Terça-feira, 18 Novembro 08, 05:07 PM
Nascido em Kispest em abril de 1927, Ferenc Puskas foi criado em meio ao regime nacionalista de direita de Miklos Horthy.
Sua casa ficava ao lado do Kispest Futebol Clube e não era de se estranhar o gosto pelo futebol desde pequeno quando podia ouvir o clamor da torcida entrar pela janela de sua cozinha. Na falta de brinquedos, seu passatempo, como de outros meninos, era jogar bola na rua.
Seu pai jogou pela primeira vez pelo Kispest em 1927, quando o nome da familia ainda era "Purczeld", de origem alemã, e com o aumento do nacionalismo sob o regime de Horthy, húngaros com nomes estrangeiros eram pressionados a mudar seus nomes, caso se recusassem, isso soaria como uma declaração política de simpatia aos alemães.
Sua aproximação do Kispest se deu de forma muito natural, até porque os garotos faziam de tudo para permanecer dentro do clube o maior tempo possível. Sempre alguém do Kispest se ocupava em dar uma olhada na garotada e numa dessas olhadas, Nandor Szucs escolheu alguns dos garotos, entre eles, Jozsef Bozsik - amigo de Puskas desde os 3 anos de idade e profundo conhecedor de seu jogo - então com 11 anos, para integrar a equipe infatil. Puskas não se intimidou e pediu para ser escolhido também, porém teve que mentir sobre sua idade. Oficialmente era necessário ter mais de 12 anos para integrar o infantil do Kispest.
Nesta época, o pai de Puskas era jogador semi-profissional, mas como o dinheiro do futebol não era suficiente para as despesas da familia, ele trabalhava meio período em outra atividade. Apesar dos poucos recursos, a familia de Puskas não reclamava.
Em 1936, seu pai pendurou as chuteiras, mas não abandonou o Kispest. Era o responsável pelo time infantil, pelo time juvenil, pelos reservas e pelo time principal. O time do Kispest naquela época disputava a primeira divisão, e embora não tivesse a mesma força do Ferencvaros, tinha pelo menos dois jogadores de nível de seleção em seu elenco e com a Hungria na final da Copa de 1938, a inspiração para os garotos eram os dois jogadores: Jozsef Nemes e Karoly Deri.
Até os 12 anos, Puskas era pequeno, mas começou a crescer e se tornou forte e rápido. Não só de jogadas eram feitos os treinos do Kispest, mas sim de exercícios de modo a aumentar a força física da garotada.
Com a pouca altura, Puskas começou a desenvolver métodos próprios para se livrar da marcação e adaptar o jogo às circunstâncias. Procurava espaços abertos e fugia dos confrontos físicos onde levava clara desvantagem.
À medida que os meninos do Kispest iam ficando mais velhos, estudavam o jogo e tentavam pôr em prática suas idéias. Logo, aquele time infantil passaria a fazer de 130 a 140 gols por temporada. Ficava evidente que alí havia meninos aptos a disputar a primeira divisão e compôr a seleção nacional; e isto de fato aconteceria.
Em 1943, Puskas com 16 anos, estreou pelo time principal do Kispest quando seu pai era o treinador. O campeonato húngaro continuou por um tempo apesar da guerra, até porque a Hungria ainda não sofrera qualquer batalha ou bombardeio em seu território. No auge da guerra, o governo húngaro que era aliado dos nazistas, passou a convocar cada vez mais jogadores para lutar no front russo. Em dezembro de 1943, o Kispest se preparava para enfrentar o líder e futuro campeão húngaro Nagyvarad (hoje uma cidade da Transilvania, na Romênia, chamada Oradea), mas um jogador do Kispest fora convocado pelo exército e o clube estava à procura de novos talentos. Puskas foi escolhido para atuar e apesar do medo do fracasso, entrou em campo no dia 5 de dezembro para sofrer uma derrota por 3 x 0. Seu primeiro gol no campeonato saiu no jogo contra um time da cidade de Kolozsvar (agora também na Romênia e chamada de Cluj) e que terminou empatado em 2 x 2.
O time do Kispest sobrevivia graças aos seus patrocinadores. Não se tratava de grandes empresas, mas sim de comerciantes locais, como o alfaiate que fez as mochilas e os uniformes, o dono de um restaurante que fornecia a alimentação após os treinos ou o açougueiro que fornecia a carne e assim por diante.
O clima entre o jogadores era o melhor possível, onde Puskas se sentia em familia. Talvez esta tenha sido a diferença naquela que viria a ser a seleção de ouro.
Em março de 1944, tropas alemães ocuparam a Hungria para enfrentar o exército russo que avançava do leste. Neste clima, Puskas jogou diante de um público de 12 mil pessoas, e o Kispest derrotou o maior clube de Budapeste, o Ferencvaros.
O fim da guerra se aproximava, e em Fevereiro de 1945, Budapeste foi libertada pelas tropas russas.
No verão de 1945, Puskas fez estréia na seleção contra a rival Áustria. Apesar dos tempos difíceis do pós guerra na Hungria, a situação era insustentável na Áustria, impedindo assim que sua seleção recebesse quem quer que fosse para um jogo. Animados com a perspectiva de um jogo internacional depois de tanto tempo, a seleção húngara venceu a seleção austríaca no primeiro jogo por 2 x 0 e Puskas fez um dos gols no segundo jogo onde a Hungria venceu a Áustria por 5 x 2. Naquele ano houve apenas mais um jogo internacional contra a Romênia. A Hungria venceu por 7 x 2 e Puskas anotou dois deles. A partir deste ano, Puskas só deixou a seleção húngara em 1956, quando houve o lenvante.
*Öcsi = irmãozinho. Apelido dado a Puskas ainda criança, de acordo com Gyorgy Szepesi, o comentarista de futebol mais conhecido da Hungria e que o viu jogar pela primeira vez em 1942, no final de uma copa infantil contra o Ferencvaros.
Quinta-feira, 30 Outubro 08, 08:40 AM
A imagem é forte demais para ser esquecida. Final do Gauchão de 1977. O Inter, então bicampeão brasileiro, busca o nono estadual seguido. Aos 42 do primeiro tempo, Iúra lança para André, que de pé trocado, vence o goleiro Benítez. Gol do Grêmio.
André corre e tenta dar um salto mortal na comemoração. Sente, segundo o próprio André, uma distensão na coxa, não completa o salto e se arrebenta de peito na grama. Sai de campo e vê, do banco, o Grêmio sair da fila graças àquele gol. Naquele momento, André Catimba virava um imortal do futebol.
Mas é injusto lembrar de André Catimba apenas por esse momento. Afinal, antes e depois de arrebentar o tórax na relva do Estádio Olímpico, André já escrevia sua história no futebol brasileiro.
Nascido em Salvador a 30 de outubro de 1946, Carlos André Avelino de Lima começou no Ypiranga-BA em 1966. Chegou ao Vitória no início dos anos 1970 e formou um trio infernal com Osny e Mário Sérgio.
No Ba-Vi decisivo do Baiano de 1971, André aprontou a primeira de suas confusões de que se tem registro. O Bahia vencia por 1x0 e lá pelas tantas do segundo tempo André chutou o goleiro tricolor Renato numa disputa de bola. Começou um quebra-pau entre os jogadores que fez o então governador Antônio Carlos Magalhães descer das tribunas de honra para ajudar a apartar a briga.
No ano seguinte, a desforra. O Vitória conquistou o Campeonato Baiano de 1972 e André marcou o primeiro gol na final contra o Bahia, que terminou em 3x1 para o Vitória. Foi único campeonato vencido pelo Vitória na década de 1970. André jogou no rubro-negro até 1976, quando se transferiu para o Guarani.
No time de Campinas, André jogou apenas um ano, logo se transferindo para o Grêmio, comandado por Telê Santana. O tricolor gaúcho estava montando um timaço para fazer frente ao rival Inter. Junto com André, chegaram o ponta-esquerda Éder Aleixo, o zagueiro Oberdan, entre outros.
Deu certo. O Grêmio saiu da fila e André Catimba virou um herói eterno pelo gol na decisão e a cambalhota mal-sucedida. Mas foi num outro Gre-Nal no mesmo ano que André ganhou o apelido.
Num dado momento da partida, Éder enfiou a mão na cara de Batista. Falcão e Batista correram atrás de Éder, seguidos pelos outros 19 jogadores em campo. Éder chegou ao banco gremista do outro lado do campo e a pancadaria começou. O desequilíbrio a favor do Inter era o zagueiro Gardel, dois metros de altura, ruim de bola mas (muito) bom de briga.
André apontou o indicador para si, depois para Gardel e por fim para a trave. O recado estava dado: eu e você, atrás da goleira. Ambos passaram mais de um minuto se encarando, com André gingando, atadura num dos pés, só nos passos de capoeira.
Sem dar uma pancada, André equilibrou a briga a favor do Grêmio e o jogo recomeçou.
Catimba ainda seria campeão gaúcho pelo Grêmio em 1979, quando marcou este golaço sobre o Esportivo de Bento Gonçalves:
Em seguida, André ainda jogou no Bahia, no Boca Juniors, no Náutico (foto abaixo) e encerrou a carreira no Ypiranga-BA (clube onde começou) em 1983.
Como técnico, Catimba comandou o Vitória em 31 partidas entre 1989 e 1990, fazendo parte da campanha do bicampeonato baiano. Tornou-se assim um dos três únicos rubro-negros campeões como jogador e técnico, ao lado de Arthurzinho e Agnaldo Liz.
Apesar da fama conquistada, André não era desleal. Suas expulsões foram muito mais conseqüência da malandragem, como provocar o craque do time adversário para enervá-lo e tirá-lo de campo, nem que tivesse que ir junto.
Aos 62 anos completados neste 30 de outubro de 2008, André Catimba vive na sua amada Salvador, longe da bola. Idolatrado pela torcida do Vitória e principalmente pela do Grêmio (Catimba está na calçada da fama do Estádio Olímpico), graças a um gol e uma malfadada cambalhota numa tarde de 25 setembro de 1977.
Sexta-feira, 24 Outubro 08, 01:24 PM
Não, não foi uma vitória acidental por 1-0, e sim Pelé estava em campo nas duas partidas da final.
A história dessa partida que finalmente chamou a atenção da mídia e do público amante do esporte bretão para além de São Paulo e do Rio de Janeiro começou com o Cruzeiro marcando 10 gols nas duas partidas contra o Americano de Campos para vencer o Grupo Centro na primeira fase. Os placares foram 4-0 na primeira partida e 6-1 na volta.
Em seguida veio a decisão da segunda fase contra o Grêmio. Dois jogos apertados mas o time estrelado contando com os craques Dirceu Lopes e Tostão passou pelos gaúchos com um empate sem gols e uma vitória por 2-1 na partida de volta.
Fluminense e Santos só entrariam na competicão na fase final. O time de Pelé, bi-campeão da Libertadores e bi-mundial (62 e 63) chegava como o campeão das últimas 5 edições do torneio. Pelé estava totalmente recuperado da contusão que o tirou da Copa de 66 após a violenta partida conta Portugal. Mas mesmo assim o Peixe precisou de um jogo extra para vencer o Náutico. O Santos venceu o jogo de ida por 2 a 0 mas perdeu por 5-3 na volta e os ânimos só acalmaram quando no terceiro e decisivo jogo os paulistas arrasaram os Pernambucanos por 4-1.
Enquanto isso o Cruzeiro passou sem muito sofrimento pelo Fluminense. 1-0 para o time estrelado no Maracanã e 3-1 no Mineirão carimbaram a passagem para a final contra o todo-poderoso Santos.
Sim, o Santos era um time fantástico, um time incrível, o todo-poderoso do futebol Brasileiro na década de 60. E assim a mídia mundial babava com as imagens que chegavam do nosso jovem Rei Pelé em seu esplendor futebolístico. Com razão, diga-se de passagem.
O Santos era sem dúvida nenhuma, para todos, o favorito a ganhar o hexa. Cruzeiro?Quem era o Cruzeiro pra desafiar o Santos?
É mas esqueceram de avisar isso para o Dirceu Lopes, para o Tostão, para o Natal e para o Raul.
Hoje eu tento imaginar o que passou pela cabeça dos Santistas (jogadores e fãs) quando o time saiu de campo ao fim do primeiro tempo já sendo goleado por 5 a 0.
Isso mesmo! Ao fim dos primeiros 45 minutos os 90mil torcedores presentes ao Mineirão vibravam em êxtase com o show do time Azul! Cruzeiro 5-0 no primeiro tempo.
Na volta para o segundo tempo o Santos voltou com uma atitude muito diferente e em 10 minutos Toninho marcou duas vezes para dimimuir a diferença para 5 a 2.
Acontece que Dirceu Lopes ainda não estava satisfeito com apenas dois gols na partida e o teceiro gol do camisa 10 Cruzeirense veio aos 27 do segundo tempo e selou a goleada. Inexplicável para muitos mas não para a torcida mineira que sabia do talento e domínio do Cruzeiro no futebol do estado.
O jogo de volta no Pacaembu prometia um revanche Santista.
Pelé abriu o placar aos 23 e Toninho aumentou aos 25. O Santos se armava para reverter a derrota sofrida no Mineirão e nos bastidores já se discutia em levar a terceira partida para o Maracanã.
Outra vez esqueceram de avisar o elenco do Cruzeiro sobre os planos. Tostão, que havia perdido um penalti, se redimiu e em uma cobrança de falta pela direita marcou o primeiro do Cruzeiro aos 19 do segundo tempo.
O Santos sentiu o gol e foi aí que Dirceu Lopes se aproveitou e marcou seu quarto gol contra o Peixe em duas partidas. O empate aos 27 do segundo fez com que os jogadores Santistas baixassem a cabeça e o título foi ficando mais perto do time Azul.
Mas o Cruzeiro não queria só o título. Os mineiros queriam entrar para a história como o time que humilhou o Santos de Pelé como nenhum outro conseguiu. Natal aos 44 do segundo tempo deu números finais a partida.
Um jogo memorável. Um time extraordinário... Não, não é o Santos de Pelé ... É o CRUZEIRO DE BELO HORIZONTE!
Sexta-feira, 17 Outubro 08, 01:50 PM
Entre 1972 e 1973, Almir conversou com a equipe da revista Placar. As conversas se transformaram numa série de entrevistas publicadas pela revista, em que Almir desancava a tudo e a todos. Doping, falcatruas, sacanagens, subornos, nada escapava. Dentre as outras, afirmou que jogou dopado a final do Mundial Interclubes entre Santos x Milan e que o juiz da partida havia sido comprado pelo Santos e que aquela não foi a única partida em que tomou “bolinha”. E sempre dando nome aos bois e recebendo ameaças.
As entrevistas também se tornaram o livro “Eu e o Futebol”, clássico obrigatório para qualquer um goste o mínimo que seja de futebol. A autodefinição de Almir, nos primeiros parágrafos do livro, dizem tudo:
“Quebrei a perna do Hélio, do América. Briguei com o time inteiro do Bangu na decisão do Campeonato Carioca de 1966. Paralisei o Milan num jogo em que o Santos se sagrou bicampeão mundial: dei um chega-pra-lá no Amarildo e chutei a cabeça do goleiro Balzarini. Agredi jogadores de outros times, briguei com tantos que até perdi a conta. Eu fui um marginal do futebol.”
Na madrugada de 06 de fevereiro de 1973, Almir estava no bar Rio-Jerez, próximo ao prédio onde morava. Foi defender um amigo numa briga e levou um tiro no pescoço e morreu na hora. O amigo, Alberto Ribeiro, levou dois tiros e também morreu. Outro amigo, o agente de investimentos Elói de Lima, foi atingido quando tentava fugir.
O assassino Artur Garcia Soares, português de vida irregular, além permanência ilegal no país, acabou absolvido. Fato que só reforça a hipótese de que a morte de Almir foi encomendada. Depois que ele resolveu abrir a boca, interessados não faltavam
Suprema ironia: um cara o qual era difícil tirar de casa depois das 10 da noite e que nunca andou armado, morreu com um tiro, de madrugada, a alguns metros de casa. Por causa de coisas que teoricamente seriam virtudes: sinceridade, franqueza e lealdade aos amigos.
Almir deixou um filho, Almirzito (ironicamente torcedor do Botafogo, clube pelo qual Almir nunca atuou) e uma filha, Adriana. Deixou também um legado importantíssimo para o futebol brasileiro.
Pelé foi o maior jogador de todos os tempos, Garrincha foi o grande artista da bola.
Mas o primeiro cabra macho de verdade do futebol brasileiro foi um baixinho de canelas finas nascido na Estrada dos Remédios, bairro da Madalena, em Recife: Almir Morais de Albuquerque. Ou simplesmente, Almir.
Quinta-feira, 16 Outubro 08, 08:00 AM
Em 23 de outubro de 1966, a catimba de Almir foi responsável pela vitória flamenguista no Fla x Flu por 2x0. Longe dos olhos do juiz, Almir deu uma cabeçada no lateral-direito Oliveira, arma ofensiva do tricolor. Os jogadores do Fluminense se enervaram e Almir provocou a expulsão de Denílson e Bauer durante o jogo, sendo ele próprio expulso depois, com o jogo ganho.
Uma semana depois, num jogo duríssimo e repleto de violência dos dois lados (como quase todo o jogo em que Almir estava em campo), Flamengo e Bangu, debaixo de muita chuva, empatavam em 1x1, valendo o título do primeiro turno. Perto do final do jogo, o goleiro Ubirajara largou uma bola que ficou presa na poça de lama. O arqueiro saltou para pegá-la, em meio a uma selva de pés que tentavam chutá-la. Em meio aos pés irrompeu Almir, que com a cara arrastando no solo misto de areia, lama e grama, empurrou de cabeça para a fazer o gol da vitória. A foto do lance foi parar numa página dupla da prestigiada revista France Football.
Na final do carioca de 1966, dia 18 de dezembro, contra o mesmo Bangu, a apoteose. Almir já suspeitava que dentro do Flamengo tinha jogador subornado pelos dirigentes do Bangu. O goleiro Valdomiro parecia ser um deles. Como desde 1964 o time estava sob administração de Eusébio de Andrade e do seu filho Castor, os reis do jogo do bicho, era bem capaz de ser verdade mesmo.
Entretanto, ao começar o jogo, Almir percebeu que o árbitro Aírton Vieira de Morais, o Sansão, também só podia estar “na gaveta”. No primeiro minuto, o lateral-esquerdo banguense Ari Clemente deu uma entrada criminosa no franzino ponta-direita flamenguista Carlos Alberto. Sansão nem falta deu, muito menos advertência. Antes dos vinte, o meia Nelsinho tomou uma bordoada. Pronto. Como as substituições ainda não eram permitidas à época (exceto a do goleiro), o Flamengo estava reduzido a nove jogadores em condições.
Aos 23 e 26 minutos, o goleiro Valdomiro pareceu confirmar as suspeitas de Almir e tomou dois gols bobos. Veio o intervalo e o Flamengo desceu desolado para os vestiários. Almir não. Ele estava muito, muito puto.
O dirigente Flávio Soares de Moura estava ainda mais arrasado. Quase chorando, ele perguntou a Almir:
- Eles vão dar a volta olímpica?
Veio o segundo tempo e logo aos três minutos, Aladim fez o terceiro gol do Bangu. O jogo estava liquidado e tudo o que o Flamengo podia fazer era evitar um massacre maior. Na bola e na porrada.
Aos 25, longe do árbitro, o atacante Ladeira, do Bangu deu um soco em Paulo Henrique, que não fazia mal nem a uma mosca, “uma dama dentro de campo”, nas palavras do próprio Almir. Enquanto os outros jogadores apartavam, Almir correu para dar uma surra em Ladeira que logo correu, com Almir em seu encalço. No meio do caminho, o zagueiro flamenguista Itamar, 1,90 de altura, saltou e acertou um chute no peito de Ladeira. Almir, que vinha na corrida, chegou chutando também. Estava armada a confusão. Ari Clemente entrou na briga e Almir pensou consigo “Tudo o que estiver de camisa de listras vermelhas e brancas é inimigo”. E tome soco e pontapé em todo o time do Bangu.
O incidente ia ficar nisso e o jogo ia recomeçar. Já sabendo que seria expulso, Almir foi para o banco e recebeu uma ordem que nem ele mesmo sabia quem tinha dado.
- Volta, Almir. Acaba de vez com essa palhaçada deles!
Almir voltou ao centro do campo para que o juiz confirmasse a expulsão. Mais de 100 mil flamenguistas nas arquibancadas começaram o coro:
Porrada! Porrada!
Em poucas palavras: foi a maior briga já vista no Maracanã, uma das maiores brigas da história do futebol. Titulares, reservas, comissão técnica, todo mundo entrou na briga. Almir se atracava com dois, três, quatro e não corria da porrada.
Com cinco expulsos do lado do Flamengo (Almir, Silva, Itamar, Valdomiro e o agredido Paulo Henrique) e quatro do Bangu (Ari Clemente, Ubirajara, Luís Alberto e Ladeira), o jogo foi encerrado. O Bangu conquistou seu segundo e até agora último título estadual, mas não deu a volta olímpica.
E Almir saiu do estádio ovacionado pela torcida do Flamengo e ameaçado pela do Bangu, protegido por uma escolta de 10 soldados.
Quarta-feira, 15 Outubro 08, 09:00 AM
No Corinthians, Almir chegou com aura de salvador da pátria, mas os atritos com a diretoria (exceto Vicente Matheus) e com o goleiro Gilmar azedaram o ambiente e ele acabou indo jogar no Boca Juniors em 1961.
Ambiente perfeito para um catimbeiro como Almir, que jogou ao lado dos brasileiros Dino Sani e Paulo Valentim, entre outros. O técnico era Vicente Feola. No Boca Juniors, Almir começou também a enfrentar outra rotina: a das contusões.
Como era um jogador contratado a peso de ouro, tinha que entrar em campo, mesmo sem condições. E tome injeção nos joelhos. Almir, como era de se esperar, não aceitava.
Num jogo contra o Chacaritas, em La Bombonera, um indignado e machucado Almir descia para o intervalo de cabeça baixa. No vestiário, encontrou Feola.
- Seu Feola, eu não disse que não dava pra jogar?
-Dá sim, Almir – disse Feola – Você só precisa fazer um pouco mais de esforço. O que te falta é um pouco de autoconfiança. Vai que dá.
Almir voltou ao jogo, sentindo-se, como ele próprio disse, um peso morto. A torcida do Chacaritas o xingava, e a do Boca também, achando que ele estava fazendo corpo mole.
Então veio a idéia.
Almir entrou forte numa dividida com o zagueiro Mário Rodríguez e o tirou do jogo, propositalmente. Foi expulso. Como não havia substituições na época, logo as duas equipes ficavam com 10. Com uma vantagem para o Boca: Almir estava quebrado, e o Chacaritas perdia um jogador inteiro. Saindo do gramado, mais uma brilhante idéia:
“Por que não levar mais um deles?”
Chegou junto de um jogador que acompanhava a saída de Rodríguez e soltos todos os hijos disso e hijos daquilo que tinha direito. Quando o jogador se aproximou de Almir, levou um soco do baixinho e se atracaram. Esse jogador, cujo nome perdeu-se na história, também foi expulso.
O Boca, que tinha passado o jogo inteiro com um a menos, ficava com um a mais. E ganhou por 2x1, de virada.
Campeão argentino em 1962, Almir foi para a Fiorentina. O frio atrapalhava a recuperação das contusões, Almir foi emprestado para o Genoa, mas saudade do Brasil e a não-adaptação ao clima e ao futebol italiano logo fizeram Almir arrumar confusão com os dirigentes italianos e voltar ao Brasil. Para ser reserva de Pelé no Santos. Algo que ele encarava como uma honra, já que tinha uma admiração inigualável pelo “Negão”.
Quis o destino que Almir substituísse Pelé na partida mais importante da história do Santos: a terceira e decisiva partida do Mundial Interclubes contra o Milan, em 16 de novembro de 1963. O Negão estava machucado e não podia jogar.
Cada time tinha vencido uma partida por 4x2. Logo, era preciso uma terceira, a ser jogada no Maracanã. Antes do jogo, Almir soube das declarações de Amarildo, o Possesso, então no Milan, dizendo que Pelé já era. Para Almir falar mal de Pelé era pior do que qualquer heresia. Entrou em campo disposto a duas coisas: ganhar o jogo e arrebentar Amarildo. Não necessariamente nessa ordem.
Com um minuto de jogo, Amarildo driblou pra lá, driblou pra cá, Almir pediu para os zagueiros fazerem a cobertura, correu em diagonal e acertou aquele toco em Amarildo, que ficou se contorcendo. Friamente, pediu para os companheiros ajeitarem a defesa e se afastou, já esperando que o árbitro argentino Juan Bronzi o expulsasse. Não aconteceu.
No restante do jogo, Almir entre outras coisas, chutou a cabeça do goleiro Balzarini (esta foi sem querer, segundo Almir), que estava com a cabeça enfaixada por causa de um lance anterior e teve que sair do jogo. Almir também sofreu o lance que originou o pênalti que daria o bicampeonato mundial ao Santos.
Vendo que ia chegar atrasado numa bola cruzada na área, Almir simplesmente pôs a cabeça num lance que o zagueiro Maldini (Cesare, o pai de Paolo) ia cortar com o pé. Almir correu o risco de fraturar o crânio, mas faturou o pênalti que Dalmo cobraria para fazer o gol da vitória e do título santista.
Em 1964, Almir voltaria à reserva de Pelé e conquistaria os títulos do Paulista e do Rio-São Paulo naquele ano. Em 1965 se transferiu para o Flamengo, onde conquistaria o estadual de 1965, mesmo com um time modesto.
Mas foram três outros episódios, ocorridos no ano seguinte, que dariam a Almir um lugar especial no coração da maior torcida do Brasil.
A seguir: A terceira parte da saga de Almir
Clique aqui para ler a primeira parte.
On Figuras da Bola – Almir Pernambuquinho (parte 4, ou última)