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Trinta anos

Quarta-feira, 03 Dezembro 08, 08:44 AM · Comentários (7)

 

Dia 3 de dezembro, não tem jeito. Para mim, é dia de lembrar do Velho. Chamavam-no, alguns, de Zé Marinheiro, não só por causa de sua passagem pela Marinha, mas talvez por seu caráter meio nômade, de sair da Bahia jovem e ficar flanando pelo interior de Minas Gerais.
Sorte minha. No interior, encontrou uma jovem com quem se casaria. Não fosse assim, e eu não teria nascido.
Datas, datas.
Nem o 20 de maio, quando ele veio ao mundo, nem o 22 de janeiro, quando deste mundo ele se foi, me trazem mais a lembrança do Velho do que este 3 de dezembro. Não uma lembrança para choro, vela ou saudade. Mas sim uma....lembrança. Com a intensidade de uma lembrança repentina, daquelas que fazem seu coração acelerar, como quem lembra de repente que esqueceu a carteira em casa ou que perdeu o telefone celular. Uma lembrança quase física.
E é meio física. Na casa de minha mãe, onde já não moro mais, sou capaz de apontar o pedaço de chão que o velho pisou quando veio me dar a notícia – notícia esta que eu já ouvia dos pulmões de Waldir Amaral, pela caixinha nas mãos do Zé Marinheiro.
Eu disse que não era uma lembrança para choro? Perdão, eu estava mentindo.
Porque fica difícil me conter quando lembro do som daquela vinheta da Rádio Globo, ao fundo, esclarecendo nossa dúvida repentina. "Fla-men-go-go".
Me vem uma sensação de vertigem porque me lembro como se tivesse acontecido ontem. A luz da memória varia entre o sépia e o fim-de-tarde.

 


O som é que é estranho. Porque, curiosamente, eu confundo o inconfundível: na minha cabeça, o gol de Rondinelli aos 41 minutos do segundo tempo da decisão do Carioca de 1978 contra o Vasco foi narrado por Jorge Cúri, a voz potente, empostada, num gooooooooooooooooooooooooooooool profundo, gigantesco, monumental. Mas a verdade já dita (me foi dita inclusive pelo próprio Rondinelli) é que o gol foi narrado pelo não menos gigante Waldir Amaral (quando criança, eu não gostava dele, e sim do Curi).
O Waldir Amaral do "calibra o centro, executa, entra Zico de cabeça é goool".
Ambos, já desaparecidos, Waldir e Jorge Curi. Gigantescos. Inesquecíveis. E naquele momento, realmente, minhas memórias acertam quando erram: possivelmente os dois narraram na eternidade o gol de Rondinelli, depois do cruzamento no escanteio cobrado por Zico.
 
Isto aconteceu há 30 anos e me assusta dizer isto. Eu vivi trinta anos desde então e não parece que foi tanto. Será culpa do Rondinelli?
 
A imagem é clara, do Zé Marinheiro. O rádio – 'click' - sendo desligado com raiva, conformados, pai e filho. Os minutos intermináveis de silêncio por causa da presunção de que o título estava perdido - o do segundo turno, e isto nos levaria a uma finalíssima com o mesmo Vasco. Naquele tempo, ficar indo para final era desagradável. Bom era vencer os dois turnos. Hoje em dia, ninguém ganha os dois turnos. Acho que fica todo mundo – todos os clubes – de olho na grana dos dois joguinhos decisivos, grana da TV e das arquibancadas. Para quê desperdiçar, né?
 
Naquele tempo, a coisa amadora.  E eu e o Zé Marinheiro lá, ouvindo pelo radinho. O filho mais velho dele tinha feito aniversário dois dias antes e estava no Maracanã.  Esse aí deu a sorte de, em 1998, fazer aniversário no dia em que o Real Madrid derrubou o Vasco. Aqui no blog também tem o Juan nascido em data magna, no dia do Mundial Interclubes. É o Juan o único rubro-negro nascido neste dia tão importante, pelo menos que eu conheça. De fato, ele não podia ser menos rubro-negro do que é.
 
Mas a memória volta ao Zé Marinheiro, nesta manhã de 3 de dezembro. Lá pelas sete da noite vou até tentar me lembrar da cena. Ele voltando pelo corredor em direção à porta que dava para a sala. Como eu já disse, Waldir Amaral gritava gol.
 
E a gente imaginava como tinha sido: Rondinelli banhando em sangue, o bigode desalinhado no rosto, os dentes cerrados, os punhos crispados, braços esticados tal e qual numa cruz, Rondinelli voando, o encontro com a bola, os dois – Rondi e a bola – sabendo que já eram História. O impacto fulminante, a explosão de milhões de corações. Lágrimas, abraços, suor, mais sangue.
 

 


A gente imaginava em silêncio, enquanto nos abraçávamos. Meses depois, em um Flamengo x América (podem conferir), César, do América, fez um gol aos 10 minutos, e nós dois na arquibancada, sofrendo. O jogo inteiro. Aí, Zico cobra uma falta para dentro da área, Rondinelli dá um peixinho, vestido naquela camisa reserva parecida com a do São Paulo, e é gol. Gol de empate. Mas que lindo. O Zé Marinheiro pulava e me levantava para ver o replay. No Maracanã tem replay? Não, nada, nem ele sabia porque me levantava. Ou no fundo sabia porquê.
 
Pelo mesmo motivo que ele religou o rádio naquele 3 de dezembro anterior: para que seu filho pudesse ver o Flamengo. Porque é o Flamengo, este ato nosso, de desligar o rádio impacientes, não agüentar, e religar no meio do gooooooooooooooooooooooooool.. E é o Flamengo, este guerreiro incansável, esta mistura de São Jorge com Apolo e Hércules que vira Rondinelli no momento de subir ao céu e nos santificar.
 
E eu, criança, tive esta visão. Aos 10 anos, eu vi o Flamengo. Não sei descrevê-lo bem até hoje – a visão de criança nos trai, nossas crenças vão mudando à medida que vamos ficando adultos, uns viram ateus, outros evangélicos, eu permaneci católico. Mas sempre acreditando que eu vi mesmo o Flamengo. Uma entidade com os olhos de fogo, o coração do lado de fora do corpo, pulsante, forte, imortal, as mãos abertas para abraçar o mundo, um Manto Rubro-Negro a envolver tudo, um céu em torno e ao mesmo tempo contido.
 
 
Depois daquele gol, foram cinco anos dos mais felizes: vibramos na arquibancada e em frente à TV, com estaduais, Brasileiros, Libertadores, Mundial. Só paramos quando Zico foi embora para a Udinese. O Zé Marinheiro, talvez inconscientemente achando que o Zico não voltaria, pegou um barco para a eternidade, num domingo de manhã. Mas acho que ele partiu feliz, com a missão cumprida. Cuidou de sua família, dos filhos, comemorou títulos rubro-negros.
 
E ele sabia que eu tinha visto o Flamengo.
 
Anos mais tarde, tive vontade de contar tudo isto para o Rondinelli, quando, como jornalista, o entrevistei. Não sei se ele iria entender, ou possivelmente não teria tempo para ouvir tudo, afinal, deve ouvir histórias parecidas de milhões de rubro-negros. Ou talvez escutasse com paciência, já que os ídolos do passado são pessoas de outro nível, não os playboys marrentos que temos hoje.
 
Em 2005, quando, às vésperas do meu casamento, me perguntaram quem entraria na Igreja com a mãe de minha mulher, eu não tive dúvidas em responder:
 
- Eu queria que fosse o Rondinelli.
 
É claro que todos em volta acharam que era uma brincadeira minha, e se alguém achou que não era, não quis me levar a sério ou nem cogitou que isso acontecesse. Mas o fato é que nestes anos todos, desde os 16, até os 40 de hoje, nunca deixei de ver no Rondinelli a imagem do Zé Marinheiro.
 
Vindo do quarto, pelo corredor, em direção à sala, com o rádio ligado de onde Waldir Amaral gritava.

**********

 Aproveito para reiterar com os companheiros de JIHAD RUBRO-NEGRA:

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Tópicos: Brasil, Flamengo
Postado por gustones | Comentários (7)

7 Comentários · Adicionar o seu

Flávio
Flávio Escrito: | 21.31BRST | Dec 3, 2008

Parabéns Gustavo!
Também sou de 68. Apesar de ser nascido em Bauru-SP, comecei a torcer pelo Flamengo em 72 quando cheguei em Brasília. Brasília era um bairro do Rio de Janeiro, muito provavelmente pela transferência do serviço público para cá.
Mas não foi pelo Flamengo de Zico que eu e meu irmão mais velho nos apaixonamos. Foi pelo Flamenguinho da minha rua. Era um campeonato juvenil na quadra de futebol de salão embaixo do meu prédio.
Nós simplesmente ficávamos maravilhados com as goleadas de 10 a 0 que o Flamenguinho aplicava em quem quer que fosse.
Mas em 1977, eu com 9 anos e meu irmão com 10, fomos levados de carro, depois da escola, por nossa mãe para ver um grupo de torcedores do Flamengo com bandeiras e muita festa. Já éramos Rubro-Negros.
Era a semana do jogo contra o Vasco na final de 1977. Mas para ver o jogo houve uma cobrança pesada do pai tricolor. A nota de matemática tinha de ser 10, só isso. Não podia ter erro algum. Conseguimos o 10.
Lembro do jogo, mas não da disputa de pênaltis. Dormi antes e só fiquei sabendo da tragédia no dia seguinte.
Mas em 1978 tudo mudou. Surgia o Deus da Raça, porque Deus, aquele Deus mesmo é o Zico. E era o início dos anos dourados do Flamengo. Era o início do Flamengo do Zico, do Júnior, do Leandro, do Mozer.
E isso tudo aconteceu depois de perdermos uma final (acreditem) para o rival. Naquela época o maior rival era o Flor.
Valeu Gustavo pela lembrança e pelo texto. Ser Flamengo não é para qualquer um.

Alessandro
Alessandro Escrito: | 09.27BRST | Dec 4, 2008

Cara,
linda história. Eu tenho um filho pequeno, de apenas 1 anos, mas que já grita "GOOOOOOLLLLL" toda vez que assistimos um jogo do Mengão.
Ficarei muito feliz se a imagem que meu filho tiver de mim no futuro for com a que você tem de seu pai.

Abraços,

Alessandro

gustones
gustones Escrito: | 09.37BRST | Dec 4, 2008

Flávio, Alessandro, gostaria de agradecer pelos seus comentários. Acho que vocês entenderam perfeitamente o espírito do que estava acontecendo - inclusive do que significou para mim escrever estas mal-traçadas linhas.
Obrigado mesmo.
Gustavo

vôo do urubu
vôo do urubu Escrito: | 09.30BRST | Dec 5, 2008

Perfeito. A substância de que os flamengos somos feitos.

Apoc
Apoc Escrito: | 11.57BRST | Dec 5, 2008

É amigo...quando é pra falar sério a coisa também flui. Parabenizo pelo grandeza da história e pelo privilégio de te-la vivido.

Não tive o prazer de acompanhar essa época do Mengão, sou relativamente novo (26 anos), mas ler esse tipo de história dá a exata noção da grandeza desse time e dos seus torcedores.

Parabéns!

gustones
gustones Escrito: | 21.45BRST | Dec 7, 2008

Agradeço de coração aos amigos pelos comentários. Somos todos, como diz o vôo do urubu, feitos desta substância, tenho certeza.

laura
laura Escrito: | 11.18BRT | Oct 20, 2009

vim pesquisar cheteira mais nao tem so tem, maria chuteira vcs nao servem pra nada nao respondem o q nos falamos nos queremos so a chuteira do flamengo para crianças de 5 anos

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