Pequena coxa branca

Terça-feira, 16 Outubro 07, 04:43 PM

A tendência familiar natural fez da minha cria uma pequena coxa branca, formada principalmente pela influência do meu pai e do meu irmão - eu caprichei para que, sempre que possível, ela torça contra o Atlético Paranaense. Objetivo alcançado, posso mudar de parágafo.

No dia das crianças, o Coritiba jogou contra o Criciúma no Couto Pereira. Considerando que o time galopa a passos de Shrek rumo à primeira divisão, peguei meu bebê, botei debaixo da asa e enfrentei os 35.000 homens que estavam no Couto Pereira para, além de ver meu time ganhar, oferecer à Ana mais um capítulo da lição sobre o magnetismo, aquela força louca que faz elementos de pólos opostos se atraírem.

Vou pro estádio de óculos escuros porque choro desde o momento em que caminho na direção da catraca. Não por amor à camisa, que eu continuo tentando me apaixonar pelo Paraná Clube com a mesma intensidade com que sou apaixonada pelo meu homem paranista, mas porque tudo num estádio me comove: as camisas, as crianças vendendo bebida na porta, os gritos de guerra, os movimentos ensaiados, as faixas, as pessoas feias, bonitas, limpas, sujas, sóbrias, ébrias, ricas, pobres, desgraçadas, cheias de graça.

Levo a Ana pro estádio porque, ainda que ela dê muita risada do volume de palavrões que o tio é capaz de dizer por minuto e do tom da minha voz xingando o juiz, torço egoisticamente para que ela perceba que ali tem muito mais do que 22 pares de coxa e uma bola, e para que isso vire emoção: tem o tio com dois filhos da minha idade na nossa frente e passou o jogo sentado no meio dos dois, participando das brincadeiras provocativas das suas duas crianças; tem o hippie-punk que agita acreditando que todo movimento é originado pela ordem que ele emana, e sua alegria é legítima acreditando nessa verdade. Tem o cara que fede mas é simpático, tem o moço de muletas sentado do lado distribuindo as informações que recebe pelo radinho, tem a nova esposa cuidando dos filhos da ex enquanto o atual marido vai buscar chopp, tem o coro de sócio pro corajoso que leva a namorada gostosa. E tem toda essa gente diferente sendo muito igual, numa pessoa só, no momento do gol. Tá aí o magnetismo.

Leve suas crianças para o estádio, não importa se elas estão dentro ou fora de você.

Desculpa que ficou emo, gente. :~

Filtrar por Tag: Off The Field, Imbigada
Ir para o Tópico:
Spacer Spacer
0
Postado por carla | Comentários (4)