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Ponha-se de pé: o Flamengo avança!

Terça-feira, 30 Setembro 08, 09:14 PM

 

“Corria o ano de 1911. Vejam vocês: — 1911! O bigode do kaiser estava, então, em plena vigência; Mata-Hari, com um seio só, ateava paixões e suicídios; e as mulheres, aqui e alhures, usa­vam umas ancas imensas e intransportáveis. Aliás, diga-se de pas­sagem: — é impossível não ter uma funda nostalgia dos quadris anteriores à Primeira Grande Guerra. Uma menina de catorze anos para atravessar uma porta tinha que se pôr de perfil. Con­venhamos: — grande época! grande época!

Pois bem. Foi em 1911, tempo dos cabelos compridos e dos espartilhos, das valsas em primeira audição e do busto uni­lateral de Mata-Hari, que nasceu o Flamengo. Em tempo retifi­co: — nasceu a seção terrestre do Flamengo. De fato, o clube de regatas já existia, já começava a tecer a sua camoniana tradi­ção náutica. Em 1911, aconteceu uma briga no Fluminense. Dis­cute daqui, dali, e é possível que tenha havido tapa, nome feio, o diabo. Conclusão: — cindiu-se o Fluminense e a dissidência, ainda esbravejante, ainda ululante, foi fundar, no Flamengo de regatas, o Flamengo de futebol.

Naquele tempo tudo era diferente. Por exemplo: — a tor­cida tinha uma ênfase, uma grandiloqüência de ópera. E acon­tecia esta coisa sublime: — quando havia um gol, as mulheres rolavam em ataques. Eis o que empobrece liricamente o fute­bol atual: — a inexistência do histerismo feminino. Difícil, muito difícil, achar-se uma torcedora histérica. Por sua vez, os homens torciam como espanhóis de anedota. E os jogadores? Ah, os jogadores! A bola tinha uma importância relativa ou nula. Quantas vezes o craque esquecia a pelota e saía em frente, ceifando, dizimando, assassinando canelas, rins, tórax e baços adversá­rios? Hoje, o homem está muito desvirilizado e já não aceita a ferocidade dos velhos tempos. Mas raciocinemos: — em 1911, ninguém bebia um copo d’água sem paixão.

Passou-se. E o Flamengo joga, hoje, com a mesma alma de 1911. Admite, é claro, as convenções disciplinares que o fute­bol moderno exige. Mas o comportamento interior, a gana, a garra, o élan são perfeitamente inatuais. Essa fixação no tempo explica a tremenda força rubro-negra. Note-se: — não se trata de um fenômeno apenas do jogador. Mas do torcedor também. Aliás, time e torcida completam-se numa integração definitiva. O adepto de qualquer outro clube recebe um gol, uma derrota, com uma tristeza maior ou menor, que não afeta as raízes do ser. O torcedor rubro-negro, não. Se entra um gol adversário, ele se crispa, ele arqueja, ele vidra os olhos, ele agoniza, ele san­gra como um césar apunhalado.

Também é de 1911, da mentalidade anterior à Primeira Gran­de Guerra, o amor às cores do clube. Para qualquer um, a cami­sa vale tanto quanto uma gravata. Não para o Flamengo. Para o Flamengo, a camisa é tudo. Já tem acontecido várias vezes o seguinte: — quando o time não dá nada, a camisa é içada, des­fraldada, por invisíveis mãos. Adversários, juizes, bandeirinhas tremem então, intimidados, acovardados, batidos. Há de che­gar talvez o dia em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada. Bastará a camisa, aberta no ar­co. E, diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável.”

De Nélson Rodrigues

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Hei, Grêmio, vai tomar no cú!

Sexta-feira, 22 Agosto 08, 02:58 AM

No Rio Grande, do loirinho guapo ao negrinho malacabado, se aprende desde piá as façanhas que serviram de modelo à toda terra. Acreditem, no Brasil meridional isso acontece. A gurizada canta hino da pátria farroupilha no 19 de setembro, chupando chupeta de costela e mateando no colo da mãe. Pois é assim que se forma uma gaúcho: cultuando Garibaldi, bebendo vinho de garrafão e dando carrinho nas peladas da escola.

Sabemos que o Rio Grande não é feito só de gaúchos. É sempre bom fazermos essa ressalva. Existem os riograndenses lúcidos, colorados e trabalhistas. Mas como o tópico visa tratar dos recalques gremistas, nada mais óbvio do que abordar os traumas gaúchos. Pobre gremista. Sujeito medíocre. Estampado nele está a maior frustração gaúcha: não ser portenho. Desde Bento, as elites gaúchas sonham com a grande Bagé; a continuação natural dos pampas uruguayos!E como eles sofrem com o projeto inacabado... Para tentar curar a dor própria condição histórica,  eles hoje em dia fazem avalanche, cantam em portunhol, sonham com De León!  E de CTG em CTG, continuam tentando preservar a imagem daquilo que nunca foram: um povo de luta.

O gaúcho gremista (entendam isso como uma redundância) odeia o Flamengo. O Flamengo é o Inter do Brasil. Não pensem que esse ódio deve-se ao time da era Zico. Esse ódio ultrapassa as fronteiras das quatro linhas e esbarra nas identidades que forjam a torcida do tricolor dos pampas. Um grupo social alinhado com as teses mais conservadoras, que transita entre o racismo das colônias germânicas e o autoritarismo senhorial ibérico.  

Mas graças as forças da coletividade libertária, o Flamengo cumpriu nesta noite mais uma vez seu dever histórico: mostrar que o ímpeto  gauchesco não faz frente ao destino manifesto do estado brasileiro. Se o Grêmio representa o federalismo liberal-conservador, o Flamengo segue carregando o estandarte do estatismo nacional-popular. Mais do que um gol, Toró fez história hoje no Maracanã! História daqueles que estão novamente vivos. Percebam a diferença. O Grêmio, que se auto-proclama imortal, acredita não morrer. Permanece, assim, submetido aos desígnios materialistas. O Flamengo não! O rubro-negro morre e renasce. O Flamengo despreza o racionalismo frio da imortalidade. Quando todos não dão nada, o Flamengo renasce, Impiedoso. Hoje, no Maracanã, presenciamos não o êxito entediante dos que não transcendem; mas a sublime reconstrução daqueles que sempre renascem! Que O Flamengo sirva de exemplo aos trabalhadores do Brasil.

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Os ensinamentos olímpicos e Caio Junior

Segunda-feira, 18 Agosto 08, 08:25 PM

Para que diabos servem as olimpíadas? Essa é uma pergunta inevitável tendo em vista os picos de zero na audiência televisiva – em qualquer parte do globo – dos mundiais de handebol, esgrima, nado-sincronizado, levantamento de peso e todos os demais esportes invisíveis que teimam em subsistir, contrariando o desejo das multidões. Eventos subterrâneos, mas que reunidos de quatro em quatro anos, ganham a ribalta e competem com a novela das oito como assunto preferido da família durante o jantar.

 

Com a presente invasão da Geórgia, ninguém ousa explicar o valor da maior feira esportiva do planeta pela graciosa utopia da paz no mundo. Os boicotes em edições anteriores jogaram por terra o papo de congraçamento dos povos. O doping e a velhice capenga dos super-atletas também desmoralizaram a balela de que esporte é saúde. E a moderna civilização paulatinamente emprestou sua ética aos jogos, dissociando o esporte da guerra, como se o primeiro não nascesse de forma a ser um substituto simbólico do segundo.

 

Ou seja, a cada quadriênio é mais difícil se convencer da relevância da tocha olímpica no caminhar da humanidade. Não tenho a pretensão de responder qual a serventia desta cretinice poliesportiva e multinacional que invadiu as nossas madrugadas – devolvam o corujão! Abaixo as provas de canoagem! – gerando empregos sazonais a comentaristas de luta greco-romana e badminton. Mas ao menos uma coisa eu sei. Uma utilidade há de se reconhecer. Os Jogos Olímpicos desmascaram uma peculiar faceta do nosso povo cordial: o brasileiro se odeia!

 

E como se odeia. Sempre que houver um crioulinho de verde e amarelo bufando na raia oito, enquanto os outros sete competidores já cruzaram a linha de chegada, haverá também a “torcida” brasileira atenta, apta a dissecar o fracasso. Sim, fracasso. O Brasil não apenas perde, ele fracassa. “São subnutridos”, “brasileiro sempre amarela na hora agá”, “preto não se dá bem dentro d´água”, “como é que um analfabeto desse pode competir com um alemão?”,  “país de merda, era melhor não ter viajado”. Reitero: o brasileiro se odeia, inclusive onde é vencedor, como no futebol. Quantas vezes a mídia especializada não sugeriu a contratação de um treinador estrangeiro para dirigir a seleção? E Ronaldinho? Compare seus feitos aos de Messi ou Cristiano Ronaldo... Não adianta, o seu maior defeito será sempre a sua nacionalidade. O complexo de vira-latas já tomou conta até das aquibancadas, onde nossos macaquitos fundam barras bravas e cantam em castelhano, pois os “argentinos é que sabem torcer”.

 

Gobineau, se vivo estivesse, poderia comentar na tevê o estrepitoso fracasso dessa gente mestiça em Pequim. Faria enorme sucesso. O brasileiro não se perdoa por ser quem ele é. Nunca perdoaremos Joel Santana por ser rico e gostar de cachaça. Jamais o respeitaremos. Ao vê-lo, o comentarista já amarra a sua imagem aos vícios do brasileiro. “Técnico de bar! Churrasqueiro!” – dirão os catedráticos, independente do currículo. Já Caio Junior – branco, articulado, topetudo, europeizado – inspira na crônica o respeito bobo do colonizado. E daí se ele não tem resultados expressivos? “Ele é um técnico estudioso”, “moderno”, “trabalhador”, “capaz de fazer planejamento a longo prazo”.

 

A diretoria do Flamengo caiu nessa. Não teria caído se Caio tivesse nariz de coxinha, dissesse “menas”, bebesse pinga e usasse prancheta. Caio bem que podia ter nascido em Olaria, já estaríamos livres dele.

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No peito do manto, mais uma estrela.

Quarta-feira, 13 Agosto 08, 02:06 AM

Domingo que vem não será apenas dia de perdermos para o Santos na vila, fato que se repetirá até o último suspiro de vida humana sobre a Terra. Domingo será dia de festa, dia de colocarmos mais uma estrela na camisa.

Cada time coloca o que quer na camisa. Tem time (pequeno) que tem zilhões de estrelinhas junto ao distintivo, umas representando o torneio início do campeonato regional de 1924, outras representando o êxito da equipe de bocha capitaneada pelo ex-presidente do clube, e por aí vai. Na real, esse negócio de estrela na camisa é uma zona do cacete. Para piorar, alguns clubes agora ainda inventaram de colocar coroas representando três conquistas em uma temporada. O Cruzeiro foi o primeiro a reivindicar o título de detentor da tríplice coroa com as conquistas do mineiro, copa do Brasil e Brasileiro. O Inter, depois de vencer Libertadores, Mundial e Recopa também passou a ostentar no fardamento o símbolo elitista da monarquia, além das estrelas do mundial e da libertadores.

O Flamengo sempre estampou na camisa uma bonita homenagem. Para cada tricampeonato carioca, uma nova estrela era acrescida. Dessa forma, depois das sequências de 42-43-44, 53-54-55, 78-79-79 e, por último, 99-2000-2001, o manto passou a ter quatro estrelinhas alinhadas verticalmente ao lado do CRF. Isso até a Nike ignorar uma tradição do clube e deixar apenas a estrela referente a conquista do mundial acima do escudo do clube. Uma grande babaquice, negligenciada anacrônicamente pela torcida e diretoria, que hoje hiperdimensiona o título em Tóquio, esquecendo a importância das conquistas dos esquadrões de Zizinho, Evaristo, Dida, Zico, Pet & cia.

Mas domingo será dia de uma nova estrela fazer companhia à solitária referência ao mundial. Dia de Diego Hipólito, atleta do Flamengo, que sempre faz questão de ressaltar a sua ligação desportiva e afetiva com o clube, subir no degrau mais alto de pódio e encher de orgulho a Nação, a Nação rubro-negra. A homenagem, ainda não cogitada por ninguém da diretoria, precisa ser uma demanda da torcida. Uma demanda da torcida de um clube olímpico, de um clube de regatas que fez sua história no basquete, no futebol, no judô, no tênis, na ginástica... Um clube formador e não patrocinador de atletas, que resiste bravamente na árdua tarefa de promover esporte olímpico no Brasil.

Domingo será dia de ouvirmos o hino do Brasil. E dia de cantarmos bem alto o hino do Flamengo, abafando a melodia de um país que nada faz pelo seus atletas. 

O ladrilheiro.

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Eu gosto assim!

Segunda-feira, 11 Agosto 08, 02:36 PM

Meu fim de semana foi salvo por Jailton! Não teve derrota no judô ou fracasso no basquete capaz de esfriar meu ânimo após o cabeçaço salvador do  Beckenbauer mestiço. Que gol!

Não quero discutir pela enésima vez os problemas do campeonato de pontos corridos. Eu acho uma bosta, muitos acham uma bosta, mas o pay-per-view gosta e pronto. Porém o jogo de ontem confirmou o que eu suspeitava desde o início deste campeonato. Ficar na liderança durante a longa procissão não tem a mesma graça de vencer com golzinhos salvadores que nos conduzem a melhores posições no meio da tabela.

Cito exemplos históricos que confirmam a minha recente conclusão. O campeonato do ano passado, vencido sem sustos pelos bambis, ficou mais marcado pela arrancada sensacional do Mengo e pela queda barulhenta dos curintia do que pela campanha entediante do tricolete paulista. Este ano, a vitória suada contra o furacão foi mais comemorada pelos adeptos da massa Flamenga do que o êxito mole-mole fácil-fácil alcançado contra o combalido time da colina. Flamengo e Nautico então, nem se fala, baita tédio! Jogo sem graça, três a zero moleza e um segundo tempo de sono na arquibancada do Maracanã.

Sei não, tem gente que vai discordar. Tem gente que quer o Flamengo líder disparado, com vinte pontos de vantagem. Até que seria legal, uma novidade. Mas como seriam meus fins de semana sem o pânico saudável dos joguinhos um a zero vencidos com gol de Jailton? Caberia aos atletas do handball brasileiro a tarefa de me apavorar! Não, isso não me parece razoável.

Gosto do Flamengo assim. Feio, assustador e redentor. Como disse o Dunga sobre a seleção (com bastante propriedade), um time com a cara do trabalhador brasileiro: criticado, perseguido, mas que dá conta do recado. Prefiro assim.

Pode até ser que minha preferência não faça sentido. Mas ora, pro cacete com o sentido! Se fosse pra fazer sentido eu não seria Flamengo!

O ladrilheiro

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Arrogância Rubro-Negra

Quinta-feira, 07 Agosto 08, 09:58 AM

Conosco ninguém podia. Líderes com um vasto tecido adiposo de vantagem. Éramos o Fuderosão e Léo Moura, seleção! Agíamos, falávamos, sonhávamos como campeões do mundo, alimentávamos todas as certezas cabíveis a quem tem a maior torcida do planeta. Nada de mais, apenas o intragável flamenguismo de sempre. Dormíamos em berço esplêndido, todavia, como se nos acordassem da anestesia proveniente da lipoaspiração, toda aquela montanha de lipídios, armazenada durante muitas rodadas de fartura, não fazia mais parte da nossa realidade, ela se foi, simplesmente se esvaiu, virou sabonete. Hoje o time é vagabundo, cheio de vícios, não quer nada com a Hora do Brasil. A torcida joga bomba nos jogadores e exige raça. O herói no árduo caminho da virtude se tornou um pecador inveterado: o médico virou monstro. 

No celebrado romance escocês e no imensurável Flamengo a dualidade é a mesma: o conflito entre a potencialidade apolínea (o Fuderosão) e os desejos dionisíacos (corja de pinguços). Dr. Jekyll e Mr. Hyde, o Médico e o Monstro, duas facetas da mesma criatura. Uma desdobra-se da outra. O Flamengo presunçoso das vitórias inesquecíveis liga-se ao Flamengo relapso e indolente. Acreditem: a arrogância rubro-negra que sopra lá, venta cá também.  

Notem que a arrogância rubro-negra é anterior ao próprio Flamengo. Explico. Nosso amado Flamengo, de tantas conquistas, nasceu da sobranceria de jovens que só queriam conquistar as belas moçoilas da orla carioca. Para tanto, fundaram um clube de regatas. A história é quem diz: nossos pais fundadores só queriam sexo! A primeira sede do clube era conhecida como República do Amor e da Paz, e ficava na Rua do Russel, por onde desfilavam os maiôs mais cobiçados do Rio de Janeiro. Aqueles rapazes achavam que podiam ser remadores! Quanta arrogância... Quase morreram nas imediações da Ponta do Caju, quando a baleeira Pherusa naufragou num simples passeio. 

Esta arrogância foi passada de geração para geração e existe hoje em todo rubro-negro. Ela se transforma no grito de “essa porra é Flamengo!”, em pleno Estádio Nacional de Tóquio, e possibilita ao representante sul-americano ensacolar três gols, em apenas quarenta e cinco minutos, no todo poderoso Liverpool. Nada de jogar fechadinho, se fingindo de morto para comer o coveiro: essa porra é Flamengo! A mesmíssima arrogância é a explicação para o time de Zico, Leandro e Mozer ser eliminado no Brasileirão de 85. Preocupar-se com o Brasil de Pelotas? Francamente... Essa porra é Flamengo! 

Lembrem o exemplo de Joel Santana. Chegou ao Flamengo sob a égide do Palhaçadinha Zero e saiu de forma vexatória, quando festejou uma classificação que ainda precisava ser disputada. Ridicularizar a bunda do Sebá é muito mais afeito às tradições flamengas do que se antecipar às dificuldades, calcular os riscos. Nunca na Gávea se cogitou a resistência dos adversários ou a própria limitação, isso demandaria humildade. O Flamengo só perde para ele mesmo, no nível do discurso, "quando não joga como Flamengo".

Penso que a presente série de derrotas não marca uma ruptura, ela é a continuidade de tudo o que o Flamengo vinha fazendo no campeonato. No Flamengo, a derrota de hoje foi plantada em alguma vitória do passado. Aqui não existe sucesso contínuo – paradoxalmente – porque nós somos bons demais para isso. Ao mais esquivo e dissimulado olhar da donzela, acreditamos que ela correrá aos nossos braços à hora que quisermos. Pois este clube nasceu da arrogância. E da busca por sexo.

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Boa, nação Flamenga!

Terça-feira, 05 Agosto 08, 10:36 PM

"Desconfiai do mais trivial ,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual"

                                                                       Brecht

Como sempre, as análise são as mesmas. Do programa de humor, ao jornal das oito. Do intelectual ao jornaleiro. Todos repetem a mesma frase com a mesma entonação arrogante que somente a fé absoluta na moral burguesa pode conferir: "bando de desocupados os torcedores que foram à Gávea. Onde já se viu, dia de trabalho ir protestar contra jogador!?

Se concordas irredutivelmente com o exposto acima, alerto: desconfiando do que há de mais trivial, apresentarei nas próximas linhas um breve argumento que vai em direção contrária ao consenso construído nos meios de comunicação hegemônicos.

Em tempos de capitalismo selvagem, novos consensos foram criados. O Estado gasta demais, a economia precisa crescer, funcionário público não trabalha,  vivemos em uma democracia estável, são exemplos de alguns mantras entoados diariamente pelos ideólogos do capital. De todas essas certezas criadas pelo capitalismo liberal, talvez a mais nefasta seja a fé inquestionável nas instituições representativas.

Política hoje é feita no âmbito da legalidade institucional. Aquilo que não estiver inserido na esfera legalista da democracia representativa é baderna, ameaça às instituições democráticas. Movimentos sociais ganham status de representantes da sociedade civil somente quando estes recorrem exclusivamente às instâncias jurídicas ou representativas legais. Nesse contexto, a construção da esférica pública demanda a aceitação incondicional das regras do jogo institucional.

Temos então que o radicalismo político passou a ser visto como terrorismo irracionalista; o antagonismo, como empecilho ao desenvolvimento. Transformações estruturais são tratadas como delírio juvenil e a ação política direta, que propõe o enfrentamento, como crime. Com naturalidade cada vez maior, ouvimos que a cidadania se exerce através do voto, que a dicotomia "direita-esquerda" não existe mais, que movimentos grevistas só prejudicam o próprio povo, que bem-estar material é resultado da competência do indivíduo...  

A participação direta, sem a mediação das instituições representativas, é uma forma de atuação política que vem sendo cada vez mais criminalizada pela setores conservadores da sociedade civil. Sejam os movimentos campesinos,  trabalhadores grevistas, ou torcedores de futebol, quando estes optam pelo enfrentamento direto com fazendeiros, patrões ou dirigentes e jogadores, logo passam a carregar o estigma de baderneiros, desocupados, como se o protesto não fosse um ato político, e sim uma conduta criminosa.

Não cabe julgar a motivação pessoal de cada pessoa envolvida no conflito da Gávea. O que devemos sim questionar é o consenso construído de que lugar de torcedor é na arquibancada. Ora, cabe ao torcedor enfrentar filas homéricas para comprar um ingresso, gastar uma grana absurda para acompanhar o time, muitas vezes viajando, tomar cacetada da polícia e por aí vai. Mas manifestar-se contrariamente ao bando que anda em campo, isso não pode. Obviamente, a bomba lançada em campo merece uma repreensão. Mas a partir disso afirmar que o torcedor não tem direito de pressionar os jogadores e os dirigentes em seu "sagrado ambiente de trabalho" não passa de hipocrisia elitista que condena a ação direta como forma de pressão.

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O barbeiro canelense.

Segunda-feira, 04 Agosto 08, 05:36 PM

Aproveitando o post anterior do meu amigo vidraceiro, deixo um texto de 2005 sobre o Mengo. A atuação indolente veio rápida.

Ontem eu fui ao barbeiro. Não porque queria, porque precisava. Minha barba estava enorme, pois a última vez que havia aparado tinha sido para a festa de formatura da minha irmã, mês passado, no Rio de Janeiro.

Eu odeio fazer a barba. Certa vez ouvi de uma amiga chegada aos estudos antropólogicos que, em determinadas tribos, raspar os pêlos do rosto era um dos castigos mais severos. Nunca mais esqueci dessa informação, mesmo não tendo nenhuma certeza se ela é verossímel. E sempre penso nela quando estou deitado naquelas cadeiras reclináveis, impotente diante do sorriso sádico do barbeiro que mansuseia a navalha.

Na ocasião da festa da minha irmã, eu saí todo cortado. Além dos cortes, ainda tive que ouvir a debochada frase proferida pelo simpático Miltinho, meu barbeiro desde os tempos em que andava de bate-bate no Campo de São Bento: “a sua pele é muito sensível”. Ora, além de sofrer com os golpes da sua navalha afiada, ainda passei pelo constrangimento de ter um dos estandartes da minha masculinidade sendo colocado em xeque. Talvez ele diga isso para todos, já que acredito ser impossível alguém não ter irritações cutâneas ao sentir contra o seu pescoço uma lâmina sendo passada repetidas vezes com rapidez. E que rapidez, diga-se de passagem! A minha viçosa barba, digna de ser comparada as dos companheiros de Sierra Maestra, tornou-se uma delineada barbicha aburguesada em míseros dez minutos. Não houve tempo nem mesmo para o homem que me viu crescer sentado na cadeira do salão Riba’s me perguntar como estava a vida no sul após a minha mudança. Ao terminar, a menina do caixa me cobrou, eu paguei, peguei o troco e quando olhei para trás o ágil gordinho já preparava os seus instrumentos para fazer um corte de cabelo num senhor que resmungava desde que havia chegado ao salão. Tudo rápido, rasteiro, eficiente e caro. Em outras palavras, moderno.

Por essas razões, andei contrariado ontem até a barbearia mais próxima da minha casa. No caminho pensei em desistir, ficar com o aspecto de sujo e comer um suculento churros que é vendido na praça principal da cidade. Pois é, Canela ainda tem Praça Principal com barraquinha de churros. Mas, não cedi às tentações e rumei decidido para o estabelecimento do “Seu” Lourenço. Lourenço é um senhor de muita  idade, que aparenta ter saído de um conto machadiano. Ele tem todos os trejeitos de um trabalhador brasileiro, e a sua salinha com apenas uma cadeira tem todos os apetrechos que fazem daquela barbearia um dos cenários mais peculiares que já tive o prazer de conhecer. As fotos dos netos coladas no alto espelho, o rádio de pilha com suas músicas chiadas, a imagem de Nossa senhora no balcão, a gaveta de madeira que serve como caixa e o mofo no teto que nos faz ficar entretidos enquanto olhamos para cima compõem o cenário do lugar. Quando eu adentrei a sua barbearia, “Seu” Lourenço permaneceu na mesma posição, sem esboçar nenhuma reação enquanto comia algo indescretível que estava dentro de um recipiente azul. Findo o seu merecido lanche, ele esticou vagarosamente as suas mãos e apontou-me B cadeira - “Sente-se, por favor”- foram as suas únicas palvras.

E Lourenço começou a fazer o seu ofício. Limpou as mãos, preparou o creme de barbear com água quente e arrumou cuidadosamente sobre mim os panos que cobriam a minha blusa. Passou primeiramente a loção no meu rosto durante dois minutos, ao menos. Ameaçou começar a esfregar a lâmina contra o meu rosto, mas voltou, lambuzou mais uma vez aquele instrumento semelhante a um pincel no pote em que estava o creme e o passou novamente pelo meu pescoço, como se estivesse massageando. Fez isso mais umas três vezes, até que começou calmamente a passar a navalha em minha pele. Enquanto eu olhava para o mofo do teto, imaginando quantos milhtes de seres vivos havia naquele pedaço de concreto, senti subitamente pena do “Seu Loureço”. Pensei em como ele seria engolido se trabalhasse no Rio, em Porto Alegre, e em como ele deve estar perdendo clientela aqui na cidade. Afinal, eu já estava lá há uns vinte minutos e ainda ficaria pelo menos mais dez. Sendo assim, enquanto Miltinho consegue atender três clientes, “Seu” Lourenço consegue atender apenas um. Enquanto matutava sobre o a questão, olhei rapidamente para o relógio e falei baixinho para mim mesmo o quanto odiava o maldito tempo do capitalismo, que nos faz viver o tempo todo com pressa, tendo que produzir incessantemente mais, mais e mais. Neste instante, movido pela força do hábito, lembrei do combalido Flamengo. Outrora temido por todos, o clube mais querido do Brasil vem virando motivo de piada desde o início da década de noventa. Refleti sobre as causas que fazem desse clube um gigante que vem adoecendo ao mesmo tempo em que “Seu” Lourenço fazia o contorno da minha barba. E abri um largo sorriso quando concluí estar nele a resposta, estar no tempo dele. O Flamengo não joga no tempo do capitalismo. De um modo geral, os clubes cariocas vêm sofrendo desde que o futebol brasileiro se tornou mais rápido, mais dinâmico, mais moderno. Basta assistirmos a um clássico do Campeonato Carioca para notarmos como a marcação é mais frouxa, como existem mais espaço e beleza neste campeonato do que há no Gauchão ou no Paulista. O futebol do Rio é belo, mas não é competitivo. E isso é característica dos clubes, que por sua vez, mantém-se clubes tradicionais, avesso às vantagens e desvantagens da modernidade capitalista que assola o futebol mundial.

E quanto ao “Seu” Lourenço, depois de quarenta minutos, ele encerrou o seu trabalho. Cobrou-me a metade do preço que paguei no Rio e sentou-se calmamente em sua cadeira, enquanto eu saía sem um arranhão no rosto da sua barbearia.

O ladrilheiro. 

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Raízes do Flamengo

Segunda-feira, 04 Agosto 08, 10:38 AM

     De uma vez por todas, nossos problemas não começaram na abertura da janela de transferências européias. Definitivamente não. Eles datam do século XV, das Grandes Navegações, dos Descobrimentos Marítimos, da época em que mercadores europeus cobiçavam açafrão e não atacantes de araque, e que caneleiros eram só traficantes de canela.  Naquela ocasião, começava a história do país, que mais tarde elegeria o Flamengo como principal instituição representativa de sua gente – como disse Ruy Castro: “o Flamengo não é uma nação, a nação é que é Flamengo”. Para esquadrinhar explicações acerca do infortúnio preto e vermelho, muito mais importante do que os forasteiros que chegam hoje ao Brasil para nos saquear boleiros de meia-tigela, foram aqueles que tomaram estas terras em 1500, fundando o Brasil. O Brasil do Flamengo. 

Sergio Buarque de Holanda nos mostra o caminho para o entendimento de nossas singularidades ao traçar as raízes da nação. Colonizada por Portugal, traz consigo aspectos peculiares da cultura ibérica, destacadamente o culto à personalidade. A gente brasileira herdava, dessa forma, a crença de que cada homem é filho de suas virtudes; atribuir-se-ia, por estas bandas, especial importância ao valor do indivíduo e à sua autonomia em relação aos seus semelhantes. Da autarquia do indivíduo, da exacerbada valorização da personalidade, resulta a incrível frouxidão dos laços inter-pessoais verificada até hoje, pois num lugar em que todos são barões, todos são especiais, todos são craques anárquicos, não é possível acordo coletivo, pois este implica em solidariedade e ordenação.

Outro fato determinante a ser considerado na transmissão do espírito dos povos ibéricos ao brasileiro é a indomável aversão que lhes inspira toda a moral fundada no trabalho. O trabalho exige submissão do indivíduo personalista, cujo ideal de vida é o do grande senhor: ser livre de esforço e preocupação, ser um chinelinho. O trabalho não glorifica, não aumenta sua própria dignidade, ao contrário, expõe a necessidade, mostra fraqueza, humilha. “Uma digna ociosidade sempre pareceu mais excelente, e até mais nobilitante do que a luta insana pelo pão de cada dia.” Caso imperasse a moral do trabalho, haveria maior coesão social, pois as partes envolvidas estariam amarradas por interesses em comum, cada um desempenhando o seu papel e reconhecendo a importância do outro no produto final: seriam um time! A carência da moral do trabalho dificulta a organização, não atrela as pessoas às suas necessidades e tarefas, deixa o vazio para que elas se unam a partir de sentimentos, de afinidades, de amizades, de panelinhas.

Os países do Norte e sua ética protestante vêm modificando paulatinamente as feições do Brasil. Já contaminam o pensamento brasileiro. Falta ainda o coração. É onde reside o Flamengo: instituição na qual não existem coesão sólida e ética do trabalho, onde os costumes manifestam-se à margem da hierarquia organizada. O Flamengo das prostitutas e do treino leve no final da tarde... Era previsível que quando as rodadas de quarta e domingo se acumulassem, o rendimento em campo cairia e as lesões musculares se multiplicariam. Se este país fosse descoberto por piratas ingleses, o Flamengo já seria o virtual campeão e Obina – fino – o artilheiro.

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Um pouco de cinema.

Domingo, 03 Agosto 08, 10:35 PM

Hoje às vinte e duas horas a HBO exibirá Barry Lyndon. Não conheço essa película, mas se trata de um filme do Kubrick. Isso por si só qualifica o programa.

Não vi muitos filmes do Kubrick. Creio ter visto os clássicos. Laranja Mecânica certamente é o mais famoso. Mas confesso, não assistiria de novo. A violência gratuita de Alex, personagem principal, e sua galera é sempre comentada com entusiasmo pelos cinéfilos. Sei lá, não me empolga. Reconheço a importância da obra que marca um momento histórico, óbvio. Mas não entendo porque em qualquer conversa entre pessoas que se pretendem eruditas este filme sempre aparece como referência de cinema de qualidade. 

Vi também "O Iluminado". Gostei. O Jack Nicholson mata a pau! As tomadas do garotinho andando de velotrol são assustadoras. E "trabalho sem diversão faz de Jack um bobalhão" marcou como uma frase clássica do cinema. Grande filme!

Lembro-me também de Nascido para matar. Esse eu gostei muito. O Gaiato tem belíssimas sacadas. Os momentos de tensão, os diálogos, as atuações, todos esses elementos tornam esse filme um clássico. Faz tempo que vi, mas mensagem final ecoa vivamente em minha cabeça neste domingo. Vivemos em um mundo de merda.

O ladrilheiro.

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Postado por Ladrilheiro | Comentários (0)