« Post Anterior
Próximo post »
Domingo, 18 Outubro 09, 07:17 PM · Comentários(6)

Nunca fui muito de acompanhar o futebol feminino. Não por preconceito (quanto mais gente praticar, acompanhar e falar de futebol, melhor), mas por uma espécie de trauma: ter visto minha mãe jogar uma partida comemorativa do dia das mães quando eu tinha uns seis ou sete anos. A absoluta inabilidade da minha velha me levou a crer por muito tempo que se minha mãe não sabia jogar bola, nenhuma mulher sabia.
Mas o destino me levou ao Pacaembu na fria noite de 16 de outubro de 2009, para acompanhar as semifinais da 1ª Taça Libertadores de Futebol Feminino. Uma volta nos arredores do estádio. Pouca gente, quase todos com a camisa do Santos. Vendedores de churrasquinho e bebidas com pouco trabalho. A partida entre as paraguaias do Universidad Autonoma de Assuncion e as chilenas do Everton já havia começado quando entrei no estádio. Anda dali, anda daqui, não vejo o gol das paraguaias marcado pela atacante Gloria Esther (o único do jogo) no final do 1º tempo e finalmente paro na arquibancada.
A idéia inicial era procurar pessoas que estivessem no estádio por mera curiosidade, afinal não é todo dia que se tem a oportunidade de assistir a semifinais de um torneio internacional de futebol feminino numa fria noite de sexta-feira em São Paulo, com a partida envolvendo o Santos prevista para terminar após à meia-noite.
Olho atentamente para o público, àquela altura de umas quatro mil pessoas. Olho para os rostos de quem está mais próximo. Ninguém, absolutamente ninguém tira os olhos da partida. Então a ficha caiu: futebol feminino não é mais programa de índio. Futebol feminino tem, sim, gente interessada em acompanhar.
Ricardo Costa e Gabriel Hiray, estudantes de 17 anos e santistas fanáticos, contam que não tiveram dúvidas em ir ao jogo “mesmo que chovesse, tem que apoiar o Santos e o futebol feminino”, disse Gabriel. Reclamaram da pouca divulgação do futebol feminino e da pequena quantidade de partidas televisionadas. A conversa é interrompida por um quase-gol olímpico do Universidad Autonoma. “Preliminar é ótimo. Anima a torcida, tira a ansiedade, não sei porque não é adotada de uma vez”, diz Ricardo. “Seria ótimo que saíssem mais gols nesse jogo”.
Alguns degraus acima dali, três moças assistiam à partida atentamente. Mal conversavam entre si e comentavam a partida com propriedade. Luiza Amad e Carolina Gomes, 16, jogam futebol society pelo Esporte Clube Sírio. Saíram do treino direto para o Pacaembu. Beatriz Sauer, 15, jogou com as amigas, mas parou para fazer teatro. “A paixão pelo futebol é a mesma, tem que haver igualdade de tratamento para o futebol feminino e para o masculino”, diz Carolina. “Fora de campo somos mulheres, dentro somos jogadoras”, diz Beatriz. Luiza concorda, “Dentro de campo é outra coisa, não tem espaço pra frescurinhas, mas não significa perder a feminilidade”.
Logo chegam mais três integrantes da equipe de society do Esporte Clube Sírio: Karen Katchvartanian, 17, Lara Picanço, 13 (caçula e veterana do time, pois joga desde os oito) e Larissa Arida, 14. Quase o time de society inteiro do Sírio nas arquibancadas do Pacaembu para acompanhar Marta, Cristiane & Cia.
Alguns gritos como “vai lavar roupa” e xingamentos de baixo calão dirigidos à figura da mulher, mostram que o machismo ainda permanece. A goleira paraguaia, com saídas arrojadas e saltos acrobáticos, segura o resultado e o Universidad Autonoma vai à final. Certamente contra o Santos, que logo entraria em campo.
Temperatura de 15 graus, mais de dez horas da noite e mesmo assim quase nove mil pessoas estavam no Pacaembu para acompanhar as Sereias da Vila. Muitas dependeriam de metrô para voltar para casa, tendo que sair antes do final da partida ou “dar um jeito” para voltar pra casa depois da meia-noite.
Pouco antes do início de Santos x Formas Intimas (COL), uma rápida conversa com Arthur Elias, técnico da equipe feminina do Nacional-Mackenzie. Segundo ele, é preciso que torneios como a Libertadores feminina tenham continuidade, que as equipes sejam melhor treinadas e com mais estrutura (sobretudo as estrangeiras) e que haja mais trabalho, mais capacitação e organização, pois ninguém investe em algo desorganizado. Começa a partida principal da noite.
O time feminino do Santos joga, numa comparação exagerada, à la Harlem Globetrotters. Jogadas de efeito, belos dribles, passes rápidos, mas sem preocupação em dar espetáculo e sim, vencer o jogo. Marta, como não poderia deixar de ser, é a síntese e o exemplo do time.
Eleita melhor jogadora do mundo por três vezes consecutivas, Marta não pára em campo, não se omite na marcação, não perdoa erros pessoais ou alheios, reclama com uma, com outra, enfim não pipoca mesmo.
Ver Marta jogando ao vivo é uma experiência única. Mítica até. Aos 23 anos, a alagoana de Dois Riachos já é um mito do futebol. Não é pouco. Seu carisma é surpreendente. Uma jogada, por mais simples que seja, mesmo que não dê em nada, arranca aplausos e gritos empolgados. Mas o gol de Marta demora a sair.
Maurine abre o placar de cabeça logo aos 5 minutos. Cristiane dá um corte seco na defensora colombiana e marca um golaço aos 11. Aline Pelegrino, também de cabeça, marca o terceiro aos 23. Três gols com três quartos de partida a jogar deixavam claro que tudo o que o time com nome mais peculiar do torneio poderia fazer seria perder de pouco – e não tomar gol da melhor jogadora do mundo.
Marta corre, chuta, se esforça mais nada de fazer o gol que explodiria a galera. Até que no apagar das luzes do primeiro tempo, aos 45 minutos ela arranca do meio campo como se o gramado do Pacaembu fosse só dela, deixa meio time para trás, dribla a goleira Sandra Milena e marca o gol que poderia ser muito bem classificado como “o mais bonito que eu vi em um estádio” por qualquer um que estivesse ali.
Marta, Cristiane, Aline Pelegrino... não dá para medir a dimensão do que elas foram capazes de fazer pelo futebol, não só o feminino. “Elas estão destruindo o preconceito por mulheres que jogam futebol”, diz Nadja Marin, 28 anos, que jogou futsal e campo pela USP entre 1998 e 2008. “2009 está sendo um ano crucial para o futebol feminino. Agora sim é possível acreditar que a modalidade terá uma exposição semelhante ao vôlei”, completa.
As meninas do futebol não estão somente quebrando preconceitos. Elas estã fazendo muito mais. Mulheres que não tinham o mínimo interesse por futebol passaram a acompanhar o esporte por causa delas, inclusive indo ao estádio e levando seus filhos e filhas; crianças e adultos nas arquibancadas se divertindo sem preocupação.
No segundo tempo, o jogo esfria. Com 4x0 no placar, com gol de Cristiane e gol de Marta, o espetáculo já estava perfeito. Quem dependesse do metrô já poderia sair do estádio. Mas ninguém fazia isso. Mais uma façanha das meninas: ninguém saiu do estádio, mesmo com o jogo já definido. Afinal de contas, as meninas teriam apenas 36 horas de intervalo até a decisão. Se fosse no futebol masculino, a chiadeira seria enorme.
Cristiane marcou mais um e foi comemorar pendurada no alambrado. Tomou o segundo amarelo e foi expulsa, ficando fora da decisão. Sua irmã Aline, com a qual conversei rapidamente após o jogo, disse que conversou com a atacante, pediu que ela evitasse bater boca com arbitragem ou adversária (o primeiro amarelo ela tomou por reclamação), mas não teve jeito. “Vou ver se consigo assistir da tribuna junto com ela”.
Ver esse time de meninas guerreiras do Santos faz bem não só aos olhos, mas à alma. Magia, espetáculo, paz (embora não houvesse nas arquibancadas ninguém com camisas de times rivais do Santos), inocência, tudo aquilo que há muito se perdeu no futebol masculino esteve presente na fria noite de 16 de outubro de 2009 no Pacaembu. Meninas e mulheres que nunca haviam ido num estádio, um garotinho de 3 anos que “escalava” os assentos da arquibancada sob o olhar atento e deslumbrado do pai, enfim, tudo isso pode ser resumido na frase do garoto Wesley Silva Ribeiro, de 10 anos.
“Você viu o gol da Marta? Se não fosse a rede ela ia parar lá no Japão”
6 Comentários · Adicionar o seu
"afinal não é todo dia que se tem a oportunidade de assistir a semifinais de um torneio internacional de futebol" e pagando só 5 reais. Também fui nesse jogo e vi a final pela TV. Não é um time, é seleção. Marta joga demais.
O melhor é que as meninas, ao menos por enquanto, não tem essa mania detestável de jogar com sabedoria, de fazer 1x0 e ficar todas atrás da bola e o escambau. Vão pra cima, querem nem saber.
E confesso que os outros times tbm me surpreenderam positivamente. O time da semi até deu trabalho nos minutos inicias!
Muito legal, espero que essa Libertadores motive mais o futebol feminino a ter seqüencia e apoio. A TV poderia transmitir mais.
Marta pode entrar facil no time masculino do Santos. Deve ser até mais alta que o Madson.
Deve ser. Mas acho que é melhor poupar o talento fora da média da Marta.
Vc foi no jogo de sexta, pensa naqueles dribles dela. Agora imagine o Domingos chegando. Porra, não jogava never more.
Muito bom o texto, jornalisticamente e futebolisticamente falando.
Não tive a oportunidade de ver a Marta jogar ao vivo, ela saiu daqui com 14 anos. Estou na torcida para que o Cesmac tenha uma maré de bons resultados e cruze com o Santos na Copa do Brasil.
Falar o que dela? Pelé do feminino já é o suficiente. Como toca na bola, dribla, corre, chuta, ...
Além disso, a Cristiane é a centroavante que todo time quer ter.
Ah, não sei se é coincidência, mas desde que a Libertadores começou, chovem comentários neste blog de meninas querendo jogar futebol.
Antes já tinha viu? E bastante!
"afinal não é todo dia que se tem a oportunidade de assistir a semifinais de um torneio internacional de futebol" e pagando só 5 reais. Também fui nesse jogo e vi a final pela TV. Não é um time, é seleção. Marta joga demais.
O melhor é que as meninas, ao menos por enquanto, não tem essa mania detestável de jogar com sabedoria, de fazer 1x0 e ficar todas atrás da bola e o escambau. Vão pra cima, querem nem saber.
E confesso que os outros times tbm me surpreenderam positivamente. O time da semi até deu trabalho nos minutos inicias!
Muito legal, espero que essa Libertadores motive mais o futebol feminino a ter seqüencia e apoio. A TV poderia transmitir mais.
Marta pode entrar facil no time masculino do Santos. Deve ser até mais alta que o Madson.
Deve ser. Mas acho que é melhor poupar o talento fora da média da Marta.
Vc foi no jogo de sexta, pensa naqueles dribles dela. Agora imagine o Domingos chegando. Porra, não jogava never more.
Muito bom o texto, jornalisticamente e futebolisticamente falando.
Não tive a oportunidade de ver a Marta jogar ao vivo, ela saiu daqui com 14 anos. Estou na torcida para que o Cesmac tenha uma maré de bons resultados e cruze com o Santos na Copa do Brasil.
Falar o que dela? Pelé do feminino já é o suficiente. Como toca na bola, dribla, corre, chuta, ...
Além disso, a Cristiane é a centroavante que todo time quer ter.
Ah, não sei se é coincidência, mas desde que a Libertadores começou, chovem comentários neste blog de meninas querendo jogar futebol.
Antes já tinha viu? E bastante!