Segunda-feira, 30 Abril 07, 08:38 PM
O que se viu no Maracanã foi muito do que se esperava. O clássico de time grande teve 45 minutos botafoguenses e outros 45 flamengos. A arquibancada era 60% rubro-negra, mas dentro de campo, não houve superioridade alguma, Nem havia como.
Os dois times são muito iguais. Ambos treinadores são da escola do defender primeiro e atacar depois. Veja bem: Ney Franco escalou o time num 3-6-1 patético e covarde. Cuca, quando teve o goleiro expulso, mesmo ganhando de 2x0, preferiu tirar seu melhor armador na partida, o empolgado e confiante Lúcio Flávio, do que um marcador. Podem até dizer "ele tava com um a menos e precisava garantir". Vendo o resultado final, bastava dizer que ele deveria matar o jogo. Agora colocou o Flamengo de novo na briga.
Para Ney Franco e essa sua mania de entupir o meio campo, basta lembrar duas ocasiões. Na final da Copa do Brasil, ele escalou o time dessa forma, mas precisou trocar quando Renato se machucou. Entrou Obina e o time melhorou metendo dois gols. No segundo jogo, depois da expulsão de Valdir Papel, o time, que também estava no 3-6-1, trocou para 4-4-2 com a saída de Toró para a entrada de Obina. Saiu o gol do Flamengo, logo depois. Só terminando, nos dois gols que o Fla tomou jogando no alto do morro contra o Potosí, era essa a formação. Trocou no segundo tempo, o time empatou, sem oxigênio. No 3-6-1, o Flamengo não marcou um gol sequer.
Voltando ao jogo....
O Botafogo teve a chance de matar o Flamengo no primeiro tempo? Olha, ao contrário do que vêem falando por aí, mataram sim. Dois a zero e mandaram no jogo. Poderiam ter decidido a final com o terceiro gol, mas aí entra o "se" que nunca joga. O Flamengo dormiu em campo, tal como no último jogo entre os dois times. No vestiário, algo aconteceu e a postura mudou. E o equilíbrio foi reposto.
Algo que eu sempre tenho comentado com amigos. O Flamengo é um time que hoje joga na motivação. Demonstrou várias vezes no ano, que empolgado e sem medo (de gol 1000, por exemplo), é difícil de ser batido. Ainda se considerarmos que o futebol nacional não anda lá essas coisas. Já o Botafogo, só joga quando Dodô e Zé Roberto jogam. O time não é nada demais, nem de menos. Está na média nacional. Ontem, os dois jogaram por 30 segundos e saiu um gol.
Aumentaram demais as capacidades dos dois times, fizeram disputas entre jogador-jogador, apostaram no fator torcida. Mas ninguém nota a igualdade das equipes. Os dois times têm raça acima de tudo. Se respeitam demais. Os treinadores preferem se esconder a atacar.
A chave do título está aí. Quem ousar domingo que vem, leva. Se não, podem ligar a TV só por volta das 18:10, para ver os pênaltis.
Sexta-feira, 27 Abril 07, 07:05 PM
1995 - O Rei do Rio
"Para cada gol que o Romário fizer, eu vou fazer dois". Frase de Túlio Maravilha, provocando o então melhor jogador do mundo, que voltava de contusão justo para a final da Taça Guanabara.
Flamengo e Botafogo chegavam para a decisão em jogo único com equipes bastante equilibradas e sem nenhum favoritismo. O Bota era o campeão Brasileiro e o Fla estava no núcleo da comemoração de seu centenário e tinha em seu elenco, Sávio, Romário além de Vanderlei Luxemburgo, no banco. O Maracanã, lógico, estava lotado, abarrotado, entupido.
Lembra da frase do Túlio? Pois é, guarda ela.
O Flamengo entrou para matar o jogo. Pressionava com vontade e qualidade, sempre chutando a gol, fazendo o goleiro Wagner envelhecer uns 10 anos em 45 minutos. Logo aos sete da primeira etapa, pênalti para o Fla e Romário abriu o marcador. As redes daquela trave de Morumbi, feias, quadradas, se balançaram.
O time do Botafogo não tinha nenhum equilíbrio emocional. Os jogadores batiam como se não houvesse amanhã. Os rubro-negros apenas aproveitavam, sempre chegando com raça e para decidir logo no primeiro tempo.
Com 22 minutos de jogo, Sávio fez um carnaval pela esquerda e cruzou na medida para Romário, de cabeça, ampliar. O Flamengo estava avassalador, impossível naquela noite. E antes ainda dos 45 minutos iniciais, Túlio, a esperança alvinegra, foi expulso. Não havia sequer tocado na bola. Romário já havia feito dois, eram quatro na conta do Maravilha.
No segundo tempo, o Botafogo, sem Túlio, voltou bem melhor. E coube a Adriano fazer as vezes do artilheiro. Não decepcionou e aos 28 e 34 marcou duas vezes empatando o jogo. O Botafogo estava de volta à batalha. Mas.......
Lançamento de Válber para Romário. Marcio Teodoro se antecipa, cabeçeando para Wágner que saía do gol. Romário sabia que aquilo não ia dar certo. A cabeçada sai torta e pára na frente do melhor atacante do mundo. Romário espera ela se ajeitar sozinha e fuzila. Flamengo 3, Botafogo 2. Túlio estava com seis na conta. O Flamengo estava na final do Estadual.
No primeiro jogo da Taça Rio, Romário fez mais três e a conta de Túlio dobrou. Até hoje, não pagou. E Romário era consagrado como Rei do Rio, até que a cidade conheceu, um mês depois, o significado do ditado "com o Rei na barriga".
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1997 - Um time de 22 titulares.
Um time de futebol ganhar um campeonato vencendo todos os jogos, isso já foi visto. Mas DOIS times vencerem o MESMO torneio, ao MESMO tempo, ganhando todos os jogos? Isso era inédito. Até aquele 26 de março de 1997. O Flamengo de Romário, Sávio, Mancuso e outros enfrentaria um Botafogo reserva do goleiro ao ponta-esquerda. Marcelo Alvez, Róbson, Renato era tão obscuros naquela época quanto são hoje.
Ao Flamengo, bastava uma simples vitória que o colocaria na final, aí sim para enfrentar o Botafogo adulto, sério. O alvinegro escalou os reservas para poupar os titulares para a final. O Vasco, terceiro interessado no jogo, havia dispensado seus jogadores para folga, jamais acreditando numa vitória do Botafogo, que o colocaria na decisão.
O jogo foi numa quarta-feira à noite. O Maracanã era totalmente rubro-negro. Talvez, apenas uns 300 botafoguenses estiveram no estádio. O clima era propício para o Fla. Só que aos 25 minutos do primeiro tempo, tudo mudou.
Renato, dispensando pelo próprio Fla um ano antes, de fora da área, mandou uma bomba que Zé Carlos nem viu onde entrou. Estufou a rede digna de Maracanã. O estádio nem ouviu o grito dos torcedores do Botafogo. O silêncio era mais alto. O Flamengo, finalista da Copa do Brasil e do Rio x São Paulo, estava sendo eliminado por um bando de reservas. Um time de estepes venceu o maior rival, contra tudo e contra todos.
Humilhando e eliminado, o Flamengo reservou-se a fugir das manchetes até o início do segundo turno. O Vasco cancelou a folga dos jogadores. Nem eles acreditavam que agora fariam a final da Taça Guanabara.
No domingo seguinte, Gonçalves, ainda cabeludo, fez o gol do título e o Botafogo foi 100% campeão da Taça Guanabara. O Botafogo, não. OS BotafogoS. Os dois times que jogaram o campeonato ganharam todos os seus jogos. Houve quem sugerisse que para se conhecer o verdadeiro campeão, era preciso agora um final entre os reservas e os titulares. Nada mais justo.
E assim, para alegria de quem não aguenta mais, encerro a série.
Quinta-feira, 26 Abril 07, 02:35 PM
"Mais de 800 jogos. Cheguei aqui em 1974 e ganhei três brasileiros, uma Libertadores, um Mundial, seis estaduais e uma Copa do Brasil. Joguei com Zico, Leandro, Nunes, Raúl. Até Pelé esteve em campo comigo por esse time. Graças a esse clube, fui para a Seleção. Fui feliz lá, mas poderia ter vencido mais. E daí? Dane-se.
Fui pra Itália mas não podia deixar de voltar. Minha vida é aqui. Os pagodes, as goleadas, os títulos, as mulheres... Quanta alegria. Sinto falta daqueles caras. Só eu sobrei. Se não fosse por meu filho talvez eu estivesse hoje na praia. Uma cervejinha, camarões no espeto, samba...
Mas o garoto estava certo. Eu não poderia abandonar o barco agora. Essa camisa tem alguma coisa que mexe comigo de um jeito que nunca consegui entender. Nem quis. Se eu soubesse, perderia a graça. O que vale é essa mística mesmo. Essa força.
Escuto o meu barulho preferido. Isso arrepia, mesmo depois de tantos anos. Imagino quanta gente tem ali fora, esperando para gritar "é campeão". É ótima essa sensação. Levantei a Copa do Brasil e o estadual do ano passado. Até disse que pararia, mas eu senti que a missão não estava completa.
Olho o vestiário. Olho e vejo garotos com metade da minha idade, moleques legais, com muita carreira pela frente. Hoje vai ser foda. Eles precisam de mim, precisam vencer esse título. Ainda bem que eu tenho alguns coroas aqui do lado. Pessoal gente boa. Gilmar, Gottardo, Gaúcho, Zinho. Zinho... esse ainda vai vencer muito. Nem é coroa, mas já tem um brasileiro nas costas. Bom tê-lo do meu lado, cara.
Vejo o Carlinhos falando. Sua voz mansa, tranquila. Nem parece que estamos numa final de Campeonato Brasileiro. Cacete. Do outro lado está o Botafogo. Os caras jogaram muito o campeonato. Mas não tenho medo. Lembro dos 6 a zero. Flamengo em final é Flamengo, sei bem disso, mas sempre dá um frio na barriga. Sei lá. Vai que sai um gol dos caras logo no início? A molecada aguenta? Já falei, repeti e sempre lembrei o que é o Flamengo, mas essa geração tá um pouco perdida.
Espero que hoje eles entrem como semana passada. Temos que matar logo de cara. deve ter umas 150 mil pessoas lá fora. Quando eu jogava com os caras há 10 anos, podia ter um maluco só na arquibancada que a gente se matava. Mas eu to sentindo que meu time tá preparado. Ó o Baiano. Pediu a palavra. Meio maluco, mas gente fina. Bate pra cacete hehehe.
Só tem maluco nesse meio. Djalminha...tem mais bola que o pai. Só precisa colocar a cabeça no lugar. Mas eu fico feliz. Esse pessoal veste a camisa com gosto sim. Eles têm prazer em jogar pelo Flamengo. São como eu. Minha vida foi isso aqui. Agora é entrar lá e levantar a taça. Carlinhos já chamou. O pessoal começa a ir pro gramado. O barulho fica mais alto ainda. Mas consigo ouvir as vozes do meu lado. Entrei. Lotado. Lindo Maracanã lotado. Do jeito que eu gosto de ver. O Botafogo tá ferrado".
Pensamentos de Júnior em 12 de julho de 1992.
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Quarenta e cinco minutos depois, acabaria o primeiro ato de uma humilhação em praça pública. O Flamengo tinha enfiado 3 gols no favoritíssimo Botafogo. Junior fez o primeiro. Cinco dias depois, o time era consagrado como o primeiro (e até hoje, único) Pentacampeão Brasileiro.
1989 - O dia que o faquir saiu do jejum
1962 - Réquiem composto por pernas tortas
Terça-feira, 24 Abril 07, 02:05 PM
Segunda-feira, 23 Abril 07, 04:18 PM
Numa legítima final de campeonato estadual (sem times do interiorrrrrr), Flamengo e Botafogo começam a se pegar no domingo que vem em total equilíbrio de forças. Os dois times decidiram apenas duas vezes o carioca, com duas vitórias alvinegras, em 1962 e 1989. Por incrível que pareça, em 94 anos se enfrentando, apenas mais uma decisão, o Brasileiro de 92, vencida pelo Flamengo. Para quem considera título, teve a Taça Guanabara de 199, com show de Romário e nova vitória rubro-negra.
Em vez de fazer prognósticos aqui, que na hora do vamo vê não adiantam de nada, vou tentar relembrar para os outsiders do Rio, alguns jogos memoráveis entre os dois, incluindo, claro, as finais disputadas. Abro o baú logo com o maior jogo da carreira de um gênio do futebol, que fez sua vida no Botafogo, mas que nutria amores mesmo, pelo Flamengo.
Enjoy....
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1962 - Réquiem composto por pernas tortas
Um ano especial pro mundo, foi esse de 1962. O país viu o nascimento de Bussunda, Frejat, Magic Paula e outras celebridades. Mas também se despediu de Candido Portinari. Foi o ano que John Kennedy declarou que colocaria o home na Lua e ao mesmo tempo quase explodiu a 3ª Guerra Mundial, devido à crise dos mísseis de Cuba.
Para o futebol, especialmente o brasileiro, também foi especial. Recém conquistada a Copa do Chile, o complexo de vira-latas estava enterrado com o Bi mundial. Além disso, o Santos de Pelé já dominava o mundo e um "aleijado" carioca era o grande herói nacional. Garrincha assumira o papel de Pelé e levara o Brasil a igualar o Uruguai em bi campeonatos mundiais e a Itália, em consecutivos. E sua coroação definitiva veio poucos meses depois, no seu palco preferido. Ironicamente, seria também seu último ato de genialidade.
O Maracanã já lotava para ver o botafoguense entortar adversários jogo sim, jogo também, mas aquele 15 de dezembro era um dia especial.
Era um dia chuvoso, apesar da época do ano e 146.287 pessoas se espremiam no ainda Maior do Mundo. Flamengo e Botafogo decidiam o estadual daquele ano e apesar do bom time rubro-negro, os botafoguenses costumavam dizer que "jogo contra o Flamengo é bicho certo".
O Fla veio a campo com Fernando, Joubert, Vanderlei, Décio Crespo e Jordan; Carlinhos e Nelsinho; Espanhol, Henrique, Dida e Gérson. O técnico era Flavio Costa.
Já o Botafogo estava escalado com Manga, Paulistinha, Jadir, Nílton Santos e Rildo; Ayrton e Édison; Garrincha, Quarentinha, Amarildo e Zagallo, comandados por Marinho Rodrigues. Armando Marques era o homem do apito.
A torcida do Flamengo, como sempre, era maior. Mas a do Botafogo não se intimidava. Sabia que tinha mais time. E isso se confirmou no primeiro tempo com Garrincha rasgando a zaga do Flamengo pela direita e fuzilando o goleiro Fernando. Os flamenguistas já sabiam que o título estava decidido. Não demorou muito e Garrincha, de novo, azucrinou o lado esquerdo rubro-negro. Com dribles pra lá e pra cá, jogadores caindo no chão e público nas arquibancadas balaçando a cabeça no ritmo da dança do Mané, o Flamengo assistiu a jogada que terminou com um gol contra do esforçado e humilhado Vanderlei.
O rival já estava morto mas Garrincha ainda tratava os zagueiros adversários como os touros são desgraçados pelas capas vermelhas em Madri.
No segundo tempo, o Flamengo ainda tentou reagir um pouco. Sua primeira tarefa era parar o Mané. A segunda, aí sim, utilizar os passes precisos de Carlinhos para a velocidade de Dida. Não conseguiram nem a primeira. A segunda ficaria mais impossível após a expulsão de Dida.
Garrincha recebe a bola na ponta direita, seu latifúndio preferido. A sua frente estão Vanderlei e Jordan. O drible sempre igual, nunca evitado. O chute seco. A explosão no estádio. Botafogo 3, Flamengo, aniquilado, zero.
Há quem diga que essa foi a maior atuação de um jogador na história do estádio. Pode ter aí, um pouco de nostalgia, mas só Garrinhca mereceu um busto em sua homenagem, pela atuação em uma partida. Está lá, até hoje, subindo a rampa do Belini, a face do maior ponta de todos os tempos. E tragicamente, nesse dia de alegria alvinegra, acabou a carreira do Mané.
Nunca mais ele foi o mesmo. Seus joelhos já não aguentavam mais as pancadas dos rivais e os tendões estavam tortos demais. Garrincha passou a ser o seu próprio fantasma. Suas pernas tortas escreveram no mais célebre estádio do mundo, o seu réquiem.
On Desculpa aí, mas.....