Quarta-feira, 25 Abril 07, 02:32 PM
Diz-se do faquir que é um sujeito que gosta de privar-se de tentações para atingir a perfeição espiritual. Alguns passam dias, semanas, meses sem comer, só meditando. Quando encerram o período, saem mais confiantes e preparados para o que pede sua religião.
Em 1968, o presidente Costa e Silva decretou o AI-5 e enfiou o país num período de trevas ditatoriais. Em 1989, os brasileiros elegeram, pela primeira vez em 21 anos pelo voto direto, o seu presidente. Nesse período, que compreende o nascimento de uma pessoa até atingir a maioridade civil, o Botafogo se recusou a ganhar títulos. Mas, quando finalmente a liberdade chegou ao país, o alvinegro levantou a taça do estadual do Rio de Janeiro, logo sobre o seu maior rival, o Flamengo de Zico.
O título foi conquistado bem ao gosto dos botafoguenses. Com um time aguerrido, com apenas uma estrela, a da camisa, no sacrifício, sobre uma equipe mais forte, mais talentosa e favorita. Afinal, desde quando Josimar supera Jorginho na lateral direita? Gottardo, por melhor que tivesse sido, jamais chegou perto da qualidade e sobriedade de Aldair. Entre Marquinhos e Leonardo vai um abismo de futebol. Bebeto e Zinho já ganharam todos os títulos possíveis, ao contrário de Maurício e Paulinho Cricíuma, que, até hoje, só tem uma história para contar. Espinoza, no banco, só faltava pedir autógrafo para Telê. E o Flamengo ainda tinha Zico....
O Fla era o vencedor da Taça Guanabara onde atropelou o extinto Nova Cidade por 8 x 1 na Gávea, o Fluminense por 4 x 0 e o Vasco por 3 x 1. Contra o Botafogo, foi empate em 1 x 1. Ao todo foram 19 pontos ganhos e nenhuma derrota.
O Botafogo veio para a finalíssima ao vencer a Taça Rio, sem ganhar nenhum clássico, empatou os três. Contra o Flamengo, um 3 x 3 que até hoje está na história do Maracanã. Fez 18 pontos e agora lutaria para acabar com a fome que assolava General Severiano há longos 21 invernos.
Público modesto, 68 mil pessoas. No primeiro jogo, domingo, um 0x0 fraco, sem graça e sem emoção. Mais equilíbrio do que isso, impossível. O jogo ocorreu numa noite de quarta feira. O dia era 21 de junho de 1989.
No primeiro tempo, o drama botafoguense. Zico bate as faltas e Ricardo Cruz pega tudo. Jorginho faz o terror pela direita mas Bebeto não aproveita. O Botafogo, muito mais limitado, se resume a segurar o Flamengo e evitar a tragédia. Sua torcida, por incrível que pareça, era maior no estádio, acreditando no milagre. Tinha que naquele dia. E o sinal definitivo veio no segundo tempo.
Zico, já nos últimos dias de Flamengo, sai do jogo para a entrada de Marquinhos. Era a força que faltava ao Botafogo.
Mazolinha desce pela esquerda. Chuta a bola para a área. Chuta mesmo, sem olhar. Maurício joga Zé Carlos II para dentro do gol e em seguida explode o Maracanã. No gol que Ghiggia silenciou o Brasil em 1950, Maurício matou o Flamengo. Os guerreiros alvinegros passaram o resto do jogo chorando enquanto evitavam o empate. A torcida rubro-negra, aos poucos deixava o estádio. Existem jogos que você sabe que não vai ter como mudar o resultado. Por mais que 1 x 0 seja perfeitamente alterável, esse já estava 21 x 0 pro Botafogo.
Quando o árbitro Válter Senra acaba a partida, acaba também um dos maiores dramas do futebol Brasileiro. E no ano em que finalmente os brasileiros puderam votar para presidente, o Botafogo volta a ganhar seu título. O faquir saiu do jejum como tem que ser, mais forte. Em 1990, conquistou o Bi. O Rio tinha, novamente, quatro times grandes.
2 Comentários
"Existem jogos que você sabe que não vai ter como mudar o resultado. Por mais que 1 x 0 seja perfeitamente alterável, esse já estava 21 x 0 pro Botafogo." - sensacional.. o cara acordou poeta hoje! Muito bom.
Na época eu fiquei fulo da vida. Mas depois vi que foi bom pro futebol em geral. Excelente as lembranças