Sábado, 10 Novembro 07, 07:09 PM
Você tentou comprar um ingresso para ver o jogo Brasil x Uruguai, pelas eliminatórias? Se conseguiu, tu és um felizardo. Já podes ir a uma loteria e fazer um jogo com boas chances de ganhar. Se não conseguiste, saibas que és como muitos espalhados por São Paulo, que sairam de casa cedo nesse sábado para ficar nas filas monstruosas que se formaram nos postos de venda, à toa.
Nos quatro principais estádios da capital o caos imperou. Passei pelo Pacaembú, Parque Antarctica e Canindé. O cenário era o mesmo em todos: filas gigantes, gente cansada e cambistas livres, leves e soltos. No Canindé ainda foi pior. Um desses elementos recrutou uma senhora para passar na frente e comprar uma pilha de ingressos, isso aos olhos dos fiscais que nada faziam. A senhora ainda perguntava, aos berros, quantos ingressos o cara desejava comprar. Antes que pensem que poderia ser a mãe dele, suas fisionomias mostravam que nem numa quinta geração eles poderiam ser parentes.
Ao mesmo tempo, um amontoado de gente se espremia no sol (com pancadas de chuva ocasionais) sem saber que a espera seria em vão. Não precisava ser gênio para descobrir que dali a pouco a raiva se sobressairia e o povo voltaria à Idade da Pedra. Basta ver algumas notícias veiculadas à tarde para conferir. Não vi ao vivo, mas parece que o bicho pegou no Morumbi.
Na Internet não foi muito diferente. É impressionante como em pleno 2007 ainda não consigam fazer uma venda de ingresso de futebol pela web. Acessei o site Ingresso Fácil pela manhã e não consegui comprar. Não havia um link "COMPRAR" ou algo do gênero disponível. Apenas portadores de cartão Mastercard ou clientes do Itaú poderiam efetuar a operação pelo site. Isso, lógico, após encontrar o botão que eu não vi em lugar nenhum.
Liguei para o telefone que constava no alto da tela e caí numa irritante gravação onde eu dizia o que queria fazer para uma máquina. Nem para colocarem uma Profissional do Gerúndio para me atender. Pior do que isso. Depois de responder umas, sei lá, 10 perguntas, ouço a questão "para qual time deseja comprar o ingresso?" e respondo "Brasil". "Desculpe mas esse time não consta no cadastro. Por favor, ligue novamente". E fiquei na beiça, como dizemos no Rio.
Criou-se no Brasil uma mania de fazer terrorismo de bilheteria, apavorando os torcedores (e público de shows) com histórias do tipo "as entradas se encerraram em 20 minutos na Europa". No último show do U2 isso ficou bem claro e agora qualquer grande evento cria filas com enorme antecedência. E se o público aumentou - ou ficou mais temeroso de perder o ingresso - os estádios diminuíram e os processos de compras continuam primários.
Hoje em dia eu faço quase tudo pela Internet. Compro livros, cds, periféricos para computador, pago contas, agendo serviços e inicio minha diversão fazendo reservas em restaurantes ou comprando entradas para o cinema. Até futebol europeu eu vejo na web. Mas comprar ingressos para uma partida, isso eu ainda não faço. Porque só existe um site pra isso e é ruim, além de não vender para todos os jogos. Os sites dos clubes não vendem, pode uma coisa dessa? Mesmo quem tem estádio não utiliza desse meio, fazendo a festa dos cambistas.
Em 2000 houve a venda virtual para o Estadual do Rio. Eu comprava fácil e recebia via motoboy em casa, por módicos R$3,00 a mais. Foi um sucesso absurdo na cidade e diminuiu demais o número de cambistas. O torcedor poderia comprar seu ingresso durante a semana, no horário de trabalho, sem precisar matar o serviço ou apelar para o amigo vagabundo. Comprei para vários jogos, inclusive os que não eram do Flamengo. Continuidade? Não. No ano seguinte resolveram fazer a maldita troca de produtos de supermercado pelos ingressos. Pronto, voltou a festa dos vendedores informais.
E agora que a Seleção Estrangeira que veste a camisa do Brasil finalmente volta à São Paulo, milhares de torcedores verão pela TV. Tudo bem, está certo que a grande maioria dirá "eu não quero ver essa Seleção, esse time é ruim, buábuábuá, Dunga feio, bobo, cara de mamão", só que o Morumbi estará cheio. Como esteve o Maracanã e também acontecerá no Mineirão e demais praças. E por isso nada muda nesse país. Ninguém reclama de nada efetivamente, só nas mesas de bares e nas passeatas de ricos cansados ou universitários maconheiros na praia. Ninguém boicota ou exige mudanças. O povo quer o circo. E quem conseguir comprar o pão, que faça a festa.
On Campeão. De novo.