Terça-feira, 12 Maio 09, 12:37 PM
Anteriormente: Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4, Parte 5 e Parte 6
Ao sair do Estádio Casablanca, a sensação não era de alívio pela manutenção do primeiro lugar na chave. Era de ansiedade e preocupação, pois não havia a certeza de quem seria o próximo adversário e onde a partida seria jogada. Ainda haviam outros jogos a serem disputados na noite seguinte, que definiriam os confrontos nas oitavas-de-final.
Ficar em Quito por mais um dia ou adiantar a viagem? Eis a questão que, ao lado da misteriosa voz, atormentava a mente de Hércules Leônidas.
A certeza era de que não voltaria de avião. Não só pelo dinheiro, já no fim, nem apenas pelo medo de avião, mas pela maior probabilidade de trombar com agentes da lei. Esse era o problema. Sua ficha de crimes e fraudes aumentava dia após dia e logo logo chamaria a atenção das autoridades. E não só do Brasil.
O táxi do estádio até a pousada não saiu barato e foi pago em dólares. Hércules Leônidas arrumou logo suas coisas e não dormiu até o amanhecer. Tomou café na pousada, já que a
diária incluía, e foi para a rodoviária. Não demorou muito para chegar e descobrir que havia um ônibus para Rio Branco saindo dentro de uma hora. Ainda havia lugares disponíveis e dois dias de
estrada pela frente, sem contar eventuais atrasos. Na sua volta pela cidade no dia anterior, Hércules Leônidas tomou a precaução de trocar os reais ainda em seu poder por dólares americanos, a
moeda local.
O dinheiro, definitivamente, estava chegando ao fim. Quando chegasse a Rio Branco, seria preciso fazer alguma coisa para seguir viagem. Tomou logo dois comprimidos mágicos do sono de uma só vez e dormiu durante as primeiras 16 horas.
Ao acordar, o ônibus já estava em território peruano. Não parecia ter havido grandes problemas durante a viagem até ali. Não demorou muito e o ônibus parou para que os passageiros e motoristas pudessem jantar.
Ao descer, Hércules Leônidas percebeu algumas marcas de bala na lataria do veículo. Conversou com um dos motoristas, que entendia bem português e ele explicou-lhe que houve uma tentativa de assalto, com tiros. Três pegaram na lataria, mas nenhum nos vidros.
Abençoados comprimidos mágicos do sono.
O jantar foi rápido e logo o ônibus estava de volta à estrada. Depois de tantas horas dormindo, Hércules Leônidas só poderia contemplar a paisagem noturna do Peru pela janela e tentar minimizar a voz que continuava a encher a paciência:
- NO IMPORTA CONTRA QUIEN, ES MATAR O MATAR! NO IMPORTA CONTRA QUIEN, ES MATAR O MATAR! NO IMPORTA CONTRA QUIEN, ES MATAR O MATAR! NO IMPORTA CONTRA QUIEN, ES MATAR O MATAR!
Ao menos esta mensagem era mais fácil de entender. "Não importa contra quem, é matar ou matar", uma tradução foneticamente bem próxima da original em espanhol. Esse tormento duraria umas três horas, até que a voz resolveu falar, aliás, berrar, em bom português:
- PORCOS NOVAMENTE NO CAMINHO! PORCOS NOVAMENTE NO CAMINHO! PORCOS NOVAMENTE NO CAMINHO! PORCOS NOVAMENTE NO CAMINHO! PORCOS NOVAMENTE NO CAMINHO! PORCOS NOVAMENTE NO CAMINHO!
A voz avisava que a combinação de resultados dos últimos jogos da primeira fase colocara frente à frente Sport e Palmeiras. De novo. A aposta em voltar ao Brasil dera certo. Descer em Rio Branco. Ver quanto sobrava de dinheiro. Comprar algo que rendesse grana em São Paulo, local da primeira partida. O que diabos poderia ser comprado em Rio Branco que fosse render grana em São Paulo?
Cocaína, claro. A Bolívia e a Colômbia estavam próximas dali. Mas como encontrar, quem procurar? E transportar? As blitzes eram eficientes e não haveria dinheiro para eventuais subornos.
O dia amanheceu com a certeza de que haveria mais um dia inteiro até Rio Branco. Nas paradas para refeições pelo caminho, Hércules Leônidas aproveitou para sondar alguns locais sobre como conseguir a droga. A obsessão de Hércules Leônidas por uma boa quantidade de cocaína chegava a superar a de qualquer viciado crônico. Mas era muito arriscado entrar em maiores detalhes. Não dava para confiar em qualquer um.
Durante o restante do trajeto até Rio Branco, Hércules Leônidas tratou de elaborar um intricado plano: chegar a Rio Branco e procurar informações sobre pontos de venda de cocaína. Hospedar-se num local não tão próximo nem tão distante de tais pontos. Aproximar-se de traficantes, o que seria muito, mas muito perigoso para um estranho.
Então teve uma idéia que lhe pareceu melhor. Ir até algum prostíbulo e ver se conseguia algo com as funcionárias do local. E usar camisinha, evidentemente. Duas, de preferência.
Não houve grandes atrasos e o ônibus vindo de Quito chegou à capital do Acre nas primeiras horas do sábado. Hércules Leônidas foi logo à banca de jornais, que ainda não abrira. Tomou um suco de açaí na lanchonete ao lado, que cobrou-lhe um dólar. Vinte minutos e a banca abria.
Catou jornais paulistas do dia anterior, já que os de sábado só chegariam por volta do meio-dia. Antes que encontrasse o jornal que procurava, a voz aumentou de volume e voltou a atormentá-lo em idioma espanhol.
- NO ÉS EN EL MIÉRCOLES, ÉS EN EL MARTES! TIENE SÓLO TRES DÍAS! MEJOR IR EN AVIÓN! NO ÉS EN EL MIÉRCOLES, ÉS EN EL MARTES! TIENE SÓLO TRES DÍAS! MEJOR IR EN AVIÓN! NO ÉS EN EL MIÉRCOLES, ÉS EN EL MARTES! TIENE SÓLO TRES DÍAS! MEJOR IR EN AVIÓN!
A voz estava mais uma vez insuportável, mas não suficiente para impedir Hércules Leônidas de lembrar os dias da semana em espanhol. Domingo é domingo mesmo, segunda-feira é lunes, terça-feira é martes... Martes. A primeira parte da mensagem estava decifrada. Faltavam apenas três dias, dizia a segunda parte. Já a terceira dispensava maiores esforços no sentido de tradução e de obediência por parte de Hércules Leônidas.
Logicamente, ele não entraria novamente em um avião tão cedo. Por falar em cedo, parecia cedo demais para procurar a substância que presumivelmente traria algum dinheiro para Hércules Leônidas. Cedo também para ir a algum puteiro em busca de informações, não de prazer.
A sorte pareceu sorrir para Hércules Leônidas ao ver um boteco aberto nas proximidades da rodoviária. Antes de ir até lá, foi ao banheiro da rodoviária para fazer a contabilidade da grana que ainda restava. Não fazia idéia de quanto aquela quantia podia render em cocaína, mas não importava. Era matar ou matar e fim de papo.
Chegou ao bar e pediu a sugestão da casa para o café da manhã. Comeu e pediu aguardente. Cerveja era luxo demais. Demorou bastante para terminar a primeira dose e pediu a segunda, bebida de um só gole. Ao pedir a terceira, o dono do bar foi logo perguntando em tom intimidatório:
- Você vem de onde e procura o quê?
- Antes de mais nada, com quem falo?
- Meu nome é Najim. E o seu?
- Juremir - disse Hércules Leônidas, lembrando-se do nome usado na operação transporte de ecstasy Recife-São Paulo.
- Ok, Juremir. Já percebi que você inventou esse nome. Quem inventa nome para si, ou é ator ou tá metido ou querendo se meter em coisa ilegal. Pode falar o que quer. Se eu fosse polícia, já tinha te levado até a delegacia e se eu fosse alcagüete a viatura já tinha chegado. Vamo, desembucha. Tá atrás do quê? - as palavras de Najim deixaram Juremir, aliás, Hércules Leônidas, em estado de tensão absoluta, fazendo-o gaguejar.
- Co-co-co-co...
- Qual foi, tá virando galinha? Quer um pozinho, não é? Tenho um pouquinho aqui, quanto você quer pagar.
- Não é para consumo - falou Hércules Leônidas, imbuído de uma súbita coragem. Afinal, era matar ou matar.
- Agora eu tô começando a sentir firmeza. Não guardo quantidade grande aqui. Quanto você quer?
Hércules Leônidas olhou para os lados e para trás e abriu a mochila, revelando o maço de dólares.
- Quanto tem aí? - perguntou Najim.
Hércules Leônidas pediu a caneta emprestada e escreveu o valor num guardanapo.
- Dá pra conseguir uma coisinha pura com isso. Vai demorar um pouco, mas dá. Entrega a grana e passa daqui a umas quatro horas.
- Com todo respeito, Seu Najim, essa é a única grana que tenho. Tô comprando pra ver se faço alguma grana no caminho até São Paulo. Tenho três dias para chegar lá. Só entrego a grana com a mercadoria na mão - o destemor de Hércules Leônidas até calou a soturna voz - Se não rolar, paciência, você fica por aqui e eu vou embora.
- Espera um pouco, como tu pretende vender esse negócio? No trajeto? Ou só quando chegar em São Paulo?
- Não faço a mínima idéia. Só sei que tenho que estar de volta a São Paulo na terça-feira, minha grana não dá pra chegar lá e o jeito é investir a grana que me resta em algo que me dê lucro rápido.
- Você tem coragem de levar uma quantidade bem maior do que essa de caminhão? - Perguntou-lhe Najim.
- Amigo, pra mim é matar ou matar. Não importa. Esses comprimidos - Hércules Leônidas puxou o saquinho e derramou alguns na mão - rendem alguma grana?
Najim observou-os com atenção e os devolveu a Hércules Leônidas sem responder. Acenou para um dos taxistas, que veio ao seu encontro.
- Leva esse rapaz lá no Júlio Mengo.
Hércules Leônidas acompanho o taxista e quinze minutos depois estava chegando numa casa de paredes, muros e portões brancos.
- Aí é contigo. Torce pro Najim e o Júlio Mengo não estarem armando pra cima de você. Boa sorte. - mal o taxista terminou de falar e já estava arrancando, quase sem esperar que Hércules Leônidas descesse do veículo.
Hércules Leônidas percebeu que o portão se abria. Um sujeito magricela apareceu.
- É você que é o Juremir?
- Sim.
- Entra aí.
Júlio Mengo apontou para os banquinhos do jardim, indicando que Hércules "Juremir" Leônidas se sentasse enquanto ele, Júlio Mengo, ia buscar uma bebida. E a misteriosa voz não dava trégua:
NO ÉS EN EL MIÉRCOLES, ÉS EN EL MARTES! TIENE SÓLO TRES DÍAS! MEJOR IR EN AVIÓN! NO ÉS EN EL MIÉRCOLES, ÉS EN EL MARTES! TIENE SÓLO TRES DÍAS! MEJOR IR EN AVIÓN! NO ÉS EN EL MIÉRCOLES, ÉS EN EL MARTES! TIENE SÓLO TRES DÍAS! MEJOR IR EN AVIÓN!
Júlio Mengo voltou com duas cervejas long neck geladíssimas. Foi sucinto no que diz respeito do que iriam fazer.
- Vou levar doze quilos de cocaína pura até Ponta Porã, conhece? Se não, aula rápida de geografia, fica no Mato Grosso do Sul. Ela vai em pacotes de meio quilo escondidos no meio de uma carga de frutas. Leva uns dois dias, se tivermos sorte nas blitzes. Vamos pela Bolívia e pelo Paraguai, que a fiscalização é mais frouxa e fácil de subornar. O que você tem que fazer é, em caso de aproximação de blitz, tomar meu lugar ao volante enquanto eu me escondo na boléia. Tô manjado na área, entende? Aí você se vira em enrolar os caras, molhar a mão deles, se vira. Se eles forem revistar e encontrarem a carga ou eu, você tá fudido, simples assim. Se não topa, saia por aquele portão e reze.
- Comigo é matar ou matar, amigo. A que horas a gente sai?
- Matar, hum. Tem arma?
- Não.
- Vou te arrumar um .38, serve?
- Estando carregado, serve bem - disse Hércules Leônidas, em nada lembrando que a única vez que esteve perto de uma arma, ela estava apontada para o seu rosto.
- Então é isso, mestre. O caminhão estará carregado às dez da manhã. Você tem habilitação? Creio que não. Vamos tratar de arrumar uma agora. Vou ligar pro meu contato no Detran.
Júlio Mengo sacou o celular e ligou para o tal contato. Falando em códigos, permaneceu por cinco minutos. Desligou e perguntou se Hércules Leônidas tinha lâmina de barbear. Ele respondeu negativamente com a cabeça.
- Bem, rapaz, vou levá-lo ao banheiro. Tem algumas descartáveis fechadas. Tire essa barba horrível e tome um banho. Coisa rápida. Temos que tirar uma foto sua e mandar para o Detran sua carteira falsa tem que estar em nossas mãos antes das dez da manhã.
Eram nove horas e dois minutos. Dez minutos depois, Hércules Leônidas estava e barba feita e banho tomado. Júlio Mengo tirou algumas fotos do rosto de Hércules Leônidas e as enviou pela internet. Cinco minutos depois, o celular de Júlio Mengo tocou.
- Alô? Ah, certo? Tudo beleza mesmo. Ok, ok. Vinte minutos. Porra, faz em quinze, manda de moto. Três buzinaços pra avisar que chegou. Certo. Na caixa de correspondência. Ok. Valeu.
Quinze minutos e trinta e dois segundos depois, os três buzinaços foram ouvidos. Júlio Mengo foi até o portão e pegou o envelope. Uma carteira de habilitação perfeitamente falsa.
Júlio Mengo entregou-a a Hércules Leônidas e trancou as portas e janelas da casa. Foram a pé até onde estava o caminhão. Júlio Mengo acenou para dois homens que estavam próximos e logo estavam na estrada, a caminho de Ponta Porã.
Que Hércules Leônidas não entendia nada de direção estava na cara. Seria apenas uma precaução, que custaria barato, já que nenhum valor foi acertado. Como Hércules Leônidas manteve o restante da grana que tinha, era vantajoso para ele também.
Para a sorte de ambos, não houveram acidentes, nem quebras do caminhão, nem blitzes rigorosas, embora algumas vezes, por precaução, trocaram de lugar no caminhão. Chegaram a Ponta Porã até algumas horas antes do previsto.
Desceram do caminhão no início da manhã de segunda-feira. Haveria um bom tempo para Hércules Leônidas chegar a São Paulo até a noite de terça-feira.
- Como não gastamos com suborno, vou te pagar um pouco mais do que o planejado. Ah, e devolva meu .38 - disse Júlio Mengo.
Hércules Leônidas devolveu a arma e recebeu um maço de notas de cem reais e outro de cinqüenta.
- Não vai conferir. Não é bom confiar num bandido como eu - disse Júlio Mengo com um riso sardônico.
Hércules Leônidas não se fez de rogado e contou o dinheiro. Mil e quinhentos reais.
- Não quer levar o pagamento em pó? Te dou uma parada legal e tu pode fazer uma grana maior em Sampa. É pra lá que você vai, não é?
- Sim, mas dispenso levar. Vou de ônibus, quero ir de boa.
- OK, vou tirar um troco legal nesse trampo. Quer carona para a rodoviária?
- Melhor não abusar da sorte. Explique como eu faço para chegar lá.
Júlio Mengo deu as instruções e se despediu com um aceno de Hércules Leônidas.
Depois de tantos dias andando em automóveis, Hércules Leônidas resolveu caminhar um pouco até a rodoviária. Descobriu um ponto onde passava um ônibus para a rodoviária, que não demorou a chegar. Antes do meio-dia, Hércules Leônidas chegou ao terminal.
Havia um ônibus saindo às 14:15, com chegada prevista para às dez da manhã do dia seguinte no terminal rodoviário do Tietê. Havia um bom tempo para chegar até São Paulo.
A viagem entretanto, não foi tão tranqüila. O ônibus saiu com uma hora e quinze minutos de atraso, e três horas depois, quando já estava escurecendo, teve dois pneus furados. Quatro horas parado. Pouco depois de retomar a viagem, uma blitz que prendeu dois sujeitos com um quilo de cocaína cada um. Hércules Leônidas reconheceu os pacotes: eram os mesmos pacotes de meio quilo que ele tinha ajudado a transportar. Mais quatro horas parado e duzentos reais para não ter a bagagem revistada.
O ônibus chegou quase às oito da noite de terça-feira no terminal Tietê. Hércules Leônidas, preocupado, foi ao banheiro e escondeu todo seu dinheiro na carteira, nos bolsos e os dólares dentro dos sapatos. Deixou a mochila com parte das roupas no guarda-volumes da rodoviária. Livrou-se da mala que tinha algumas roupas sujas.
Faltava pouco mais de uma hora para o jogo. Era preciso um bom taxista para chegar a tempo no estádio. Por sorte, o tal bom taxista foi escolhido e Hércules Leônidas entrou no estádio com apenas quinze minutos de bola rolando.
Cansado, não foi aquele torcedor das partidas anteriores, que berrava do fundo da alma. Em campo, seu time levava um sufoco daqueles. As chances se sucediam, mas só para o lado adversário. O primeiro tempo terminou num lucrativo 0x0 para o Sport. No segundo tempo, até a voz tinha dado um tempo, talvez comovida com o cansaço e a tensão de Hércules Leônidas. De tanto insistir, o adversário marcou o único gol da partida, numa jogada de bola parada. E perdeu outros tantos até o final da partida.
A saída do estádio foi tensa. Hércules Leônidas foi reconhecido e identificado por torcedores rivais, que o hostilizaram. Por sorte, havia muitos policiais próximos dali, inibindo a ação de eventuais covardes. Por precaução, seria melhor entrar logo em um táxi e sair dali o quanto antes. Ele logo fez isso, indo até a estação de metrô mais próxima. Ainda havia tempo hábil de chegar até o terminal rodoviário, pegar sua bagagem e pensar no que fazer para chegar no Recife até a terça-feira seguinte.
E a voz voltou a ensurdecer a mente de Hércules Leônidas, em bom português:
- É MATAR OU MATAR, VENCER OU VENCER! É MATAR OU MATAR, VENCER OU VENCER! É MATAR OU MATAR, VENCER OU VENCER! É MATAR OU MATAR, VENCER OU VENCER! É MATAR OU MATAR, VENCER OU VENCER! É MATAR OU MATAR, VENCER OU VENCER!
Terça-feira, 12 Maio 09, 12:25 PM
Capítulos anteriores:
O alívio para Hércules Leônidas veio não apenas pela classificação antecipada, mas pelo fato de que a combinação gritos+cantos+sistema de som+fogos abafava a voz ressoante. Mesmo assim, a tal voz fazia uma força surpreendente para ser ouvida:
- POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO! POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO! POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO! POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO! POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO!
Demorou para que a repetitiva voz realmente começasse a incomodar. E quando ela começou a incomodar, mais gritos, cantos, buzinas e fogos para abafá-la. Ela não conseguiria seu intento naquela noite. Mas o conteúdo da mensagem logo começou a intrigar Hércules Leônidas.
Não parecia apenas avisar aquilo que Hércules Leônidas já sabia. Parecia conter algo mais. Mas Hércules Leônidas nada entendia de espanhol e resolveu se preocupar com o fato de que certamente encheria a cara naquela noite. Ainda mais ao ver Jarbas abordando o vendedor de cerveja, tirando uma lata do isopor, abrindo e virando de um só gole, amassando-a na testa e tirando mais duas. Jogou uma delas para Hércules Leônidas e abriu a outra, novamente bebendo todo o conteúdo em um só gole.
- Pronto. Deu pra compensar um pouco o tempo que fiquei lá dentro sem beber. Aliás, acho que dá para tomar mais uma.
E pôs-se a pegar outra latinha e virar de um só gole, embora um pouco mais devagar do que nas vezes anteriores.
Esse sujeito que virou três latinhas de cerveja em pouco mais de um minuto para "compensar o tempo" em que ficou assistindo à partida proibido de consumir bebida alcóolica nas dependências da Ilha do Retiro seria o mesmo que dirigiria por cerca de uma hora até o hotel-fazenda, se é que ele planejava isso.
Estivesse Hércules Leônidas ido sozinho ao jogo, poderia desvencilhar-se de pegar carona com um sujeito que já estava com a quarta lata de cerveja pela metade enquanto ele, Hércules Leônidas, mal tinha começado a beber a primeira. Nunca se sabe o que se pode acontecer com um sujeito neste estado, ao volante.
Poderia acontecer um acidente. Ou o carro ser parado por uma blitz. Bafômetro na certa. Sorte Hércules Leônidas saber da honestidade dos bravos policiais plantonistas noturnos do Brasil e ter se precavido de levar algumas notas de cinqüenta reais para alguma eventual negociação.
Caminharam e comemoraram entre outras centenas de torcedores. No caminho até onde o carro estava estacionado, Jarbas esvaziou a quarta lata, bebeu mais três e comprou mais algumas. Hércules Leônidas mal abrira sua terceira latinha.
- Ei, cara, você está bem para dirigir? - disse Hércules Leônidas ao chegarem no carro.
- Claro que sim! - respondeu Jarbas com voz um tanto embargada, afinal foram sete latas de cerveja em pouco mais de quinze minutos, antes de berrar a plenos e absolutos pulmões:
- É Sport, porra!
Os temores quanto a um acidente logo cessaram nos primeiros minutos de estrada. Hércules Leônidas logo percebeu o quanto Jarbas era responsável e preocupado com seu negócio. Durante o caminho, tendo como trilha sonora a resenha radiofônica pós-jogo, Jarbas intercalava a conversa periodicamente falando de que tinha que acordar cedo, coisas para fazer, hóspedes de saída, outros que iriam chegar pela manhã, que por ele enchia a cara para comemorar, mas não dava, que tinha muito trabalho no dia seguinte, mas que se Sônia segurasse a bronca na recepção pelo menos na parte da manhã ele bebia até o sol raiar e dormias umas quatro ou cinco horinhas, mas que havia coisas a fazer...
- Quem é Sônia? - perguntou Hércules Leônidas
- Minha mulher, porra. Me dá um gole dessa cerveja aí - disse Jarbas, esvaziando a lata e atirando-a pela janela.
Chegaram pouco depois da uma da manhã no hotel-fazenda. Sônia estava na varanda da recepção, com o radinho ligado.
- Que sufoco, hein. Vocês demoraram. Eu já estava ficando preocupada. Amor, hoje eu tô boazinha e vou deixar você beber um pouco mais hoje. Mas às sete e meia você está de pé, ouviu? Preparei umas comidinhas pra vocês, tá? Boa noite, vou acordar cedo.
Sônia deu um beijo no marido e um tapa com as costas da mão no tórax de Hércules Leônidas, subiu as escadas e foi dormir. Jarbas e Hércules Leônidas seguiram bebendo até mais de três da manhã.
- Bem, vai dormir que eu também vou. Boa noite.
Hércules foi para o seu chalé, ainda com a porta para consertar. Sentiu um frio na espinha ao cogitar a possibilidade de alguém ter entrado e mexido em suas coisas. Sobretudo a mochila recheada de dinheiro. Foi direto até o guarda-roupa. A mochila estava lá, aparentemente imaculada. Abriu-a. Os maços de cédulas estavam lá. Soltou um suspiro de alívio, guardou a mochila de volta e foi tomar um banho. Deitou-se e não demorou muito para cair no sono. Demorou menos ainda para acordar.
- POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO! POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO! POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO! POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO! POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO!
A incômoda e intrigante voz voltara, e não parecia muito disposta a deixar Hércules Leônidas dormir em paz. E foi o que aconteceu. Hércules Leônidas virou-se e revirou-se na cama, mas a voz não deixava em paz. Percebeu que o dia estava amanhecendo e a voz não dava trégua. Já que dormir seria mesmo impossível, ele acabou dedicando a noite insone já tendendo à manhã naquele momento a tentar traduzir e decifrar a mensagem. Sem sucesso, já que seu conhecimento de espanhol era abaixo de parco. Ao menos Hércules Leônidas sabia, através da tabela da Libertadores, que o próximo jogo seria dali a seis dias em Quito, capital do Equador.
E Hércules Leônidas teria que dar um jeito de ir até lá. Sabia que o Sport já estava classificado e que o adversário, a LDU, já estava desclassificado. Quando pensou em não ir e aguardar os acontecimentos, a voz retumbou pra valer:
- POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO! POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO! POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO! POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO! POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO!
Já passava das sete horas. O café da manhã certamente já estava servido. E Hércules Leônidas se dirigiu ao restaurante do hotel-fazenda. Sônia estava por lá, conversando com um casal de hóspedes. Hércules acenou-lhe, serviu-se e sentou noutra mesa.
Após comer, foi até a mesa na qual Sônia se encontrava e lhe perguntou se ela tinha algum dicionário de espanhol.
- Hércules Leônidas, estes são Ramiro e Ximena. Eles são espanhóis. Acho que podem te ajudar mais do que um dicionário.
- O que queres saber, rapaz? - Disse Ramiro, com um carregadíssimo sotaque.
Hércules Leônidas tentou repetir as palavras que atormentavam sua mente. Com uma pronúncia sofrível, que arrancou alguns risos de Ximena, ele repetiu a frase.
- É fácil, - disse Ramiro - quer dizer: "Pelo ar, até o Equador, em direção ao topo". Por que a pergunta?
- Por nada, apenas sonhei com essa frase. Não faço a mínima idéia do que queira dizer.
Nesse momento, Sônia olhou para Hércules Leônidas.
- Ô, rapaz, está na cara - Sônia começou a falar - Esse sonho pode ser um aviso de se você for ao Equador ver nosso time jogar para terminar como líder do grupo, você terá que ir pelo ar. De avião.
- Será? Ainda bem que é somente um sonho. Não gosto de aviões. Deixa quieto, vou ver pela TV. E mesmo assim, a passagem até lá deve ser bem cara, né?
Definitivamente, Hércules Leônidas não convenceu ninguém com estas palavras. E a voz aumentou de volume, a ponto de ele sentir a cabeça doer.
- Com licença, gente - disse Hércules Leônidas, levantando-se - vou deitar um pouco. A ressaca está braba. Bom dia e até logo.
Pouco depois, Jarbas chegava ao restaurante. Perguntou por Hércules Leônidas e soube que ele acabara de sair de volta ao chalé. Disse que iria até lá, pois tinha que consertar a porta. Ao chegar lá, encontrou Hércules Leônidas arrumando sua bagagem.
- De saída, moço?
- Sim, preciso voltar a São Paulo.
- Passagem comprada?
- Ainda não. Vou comprar na hora.
- Vai de avião?
- Não, de ônibus. Não gosto de aviões.
- Ô, rapaz. Espera um pouco que eu te descolo uma carona de caminhão. Você poupa uma grana e vai gastar praticamente o mesmo tempo. E não precisa ficar esperando na rodoviária. Só te peço para me ajudar a consertar esta porta.
- Tudo bem, mas você garante mesmo?
- Esteja certo disso, meu amigo. Na pior das hipóteses, você tá na estrada amanhã pela manhã. Vamos consertar a porta?
Em pouco menos de uma hora, fizeram o reparo necessário.
- Bem, ainda é cedo - Disse Jarbas - Com sorte, pegamos algum peão saindo agora. Sua mala está pronta?
- Sempre está.
- Então vamos acertar sua conta e eu te levo até o lugar de onde os caboclos saem para São Paulo.
Hércules Leônidas teve problemas para pagar o valor integral de sua conta. Não pelo valor, mas pela dificuldade em convencer Jarbas a receber tudo. O proprietário só faltou isentar por completo os cinco dias de hospedagem, mas no final, Hércules Leônidas acabou pagando pouco mais da metade do valor total.
- Use o que você economizou para ajudar a pagar os subornos pelo caminho - disse Jarbas, já ao volante - Se você pegar carona com quem eu estou pensando, você vai precisar muito dessa grana.
Quinze minutos após sair do hotel, o carro de Jarbas chegava a um posto de gasolina onde vários caminhões estavam estacionados. Jarbas pediu que Hércules Leônidas aguardasse dentro do carro. Foi ao escritório, passou alguns minutos e saiu.
- O caminhão do cara está na oficina. Fica pronto daqui a uma hora. Daqui a pouquinho ele deve aparecer por aqui.
Um sujeito alto, pesando uns 120 kg e com os braços cheios de tatuagens, aproximou-se e cumprimentou Jarbas, que estava do lado de fora do carro conversando com Hércules Leônidas.
- Hércules Leônidas, esse é o Vitão, o sujeito de que te falei - disse Jarbas. Hércules Leônidas percebeu um olhar hostil e desconfiado de Vitão. Jarbas pediu licença para conversar a sós com o caminhoneiro.
- Vitão, o cara é gente boa e precisa de carona até São Paulo. Você tá levando aquela carga proibida dessa vez?
- Sim, e não fui muito com a cara desse sujeito. Posso levar o rapaz, mas se ele der qualquer goela, você sabe o que acontece com ele, não é?
- Relaxe, ele estava no hotel desde sábado. Conversei e o observei muito. Tem cara de que está escondendo alguma coisa também. Não pode vacilar.
- Vou levar porque é você que tá indicando. Mas se o moço vacilar, você sabe. É chumbo nele!
- Pode guardar sua munição. Eu garanto.
Jarbas despediu-se dos dois e se foi. Hércules Leônidas perguntou quanto tempo demoraria para chegar a São Paulo.
- O tempo que for preciso. Tem que ver a hora que o caminhão vai ficar pronto - foi a amistosa resposta de Vitão - Pode ser um pouco grato e pagar meu almoço?
- Claro que sim. Sem problemas.
O caminhão foi liberado pela oficina pouco antes do meio-dia. Ambos almoçaram cedo e logo estavam na estrada.
Vitão não era de muita conversa, mas até ele estranhou o silêncio de Hércules Leônidas, que olhava ora para a frente, ora para o lado. Vitão tirou um maço de cigarros do porta-luvas e ofereceu ao carona, que recusou balançando a cabeça. Vitão resolveu puxar conversa.
- Tu não me engana, moleque. Estás fugindo de quem ou do quê?
- Não estou fugindo. Moro em São Paulo.
- Que nada, cara. Já ganhei tua fita na hora. É melhor não tentar me passar a perna.
- Pode ficar tranqüilo, Vitão.
- Não vou ficar tranqüilo enquanto desconfiar de você.
O clima ficou hostil. Vitão não estava com cara de bons amigos. E a voz, que estava um tanto tímida, retumbou:
- POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO! POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO! POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO! POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO! POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO!
Então Hércules Leônidas inventou uma história que, de tão mirabolante, convenceria até o mais cético dos céticos.
- Minha ex-mulher fugiu com meu filho para o Equador. Descobri há poucos dias, lá no Recife, onde morávamos. Ela aproveitou uma viagem minha a trabalho quando estava grávida e vazou para lá. Descobri até o endereço dela em Quito. Preciso pegar um avião em São Paulo.
Vitão ficou perplexo, e permaneceu desconfiado.
- Qual o nome do pirralho?
- Raul.
- Idade?
- Quatro anos.
- Há quanto tempo a vagabunda sumiu?
- Ei, é a mãe do meu filho.
- E daí? Vai defender a vagabunda agora? Ainda gosta dela? Tô dando carona para um corno insistente, então? - disse Vitão com um sorriso cínico e um olhar ainda mais
hostil
- Bem, tem mais de dois anos. O guri deve estar com essa idade.
- Tem foto dele? Ou ela nunca mandou?
- Nunca mandou. Nunca vi o menino.
- Cara, estou começando a mudar meu conceito sobre ti. Mas porque você não vai de avião?
- Economizar grana, meu caro. Mas acho que vou de avião lá de São Paulo.
- É mais certeza, meu caro. Chegar ao Equador de carona não é fácil. Vou até Guarulhos e posso te deixar no aeroporto.
Hércules Leônidas sentiu um alívio. Aquele sujeito assustador, provavelmente com uns dez homicídios nas costas acreditava naquela história mirabolante. Mas certamente seria mais complicado convencê-lo caso falasse a verdade.
A viagem seguiu sem problemas até São Paulo, com paradas apenas para refeições rápidas e dormidas de seis horas. No sábado à noite, Hércules Leônidas já estava no aeroporto de Guarulhos. Demorou um pouco a encontrar informações sobre vôos para Quito, mas logo descobriu um vôo saindo às oito e meia da manhã de domingo. Apresentou os documentos falsos que Xico lhe arrumara pouco antes de começar sua primeira viagem, recebendo um olhar desconfiado da atendente, que fez menção de chamar alguém.
Hércules Leônidas teria que conversar com agentes da Polícia Federal. Estes certamente não seriam facilmente enganados ou subornados. Por via das dúvidas, repetiu a história contada ao caminhoneiro Vitão.
Ao conseguir enganar novamente pessoas mais do que desconfiadas com aquela história inacreditável, Hércules Leônidas sentiu um medo ainda maior do que o de avião. Principalmente quando perguntaram porque estava comprando apenas a passagem de ida.
- Não sei quanto tempo vou ficar lá, mas não vai ser muito tempo, creio eu.
- Quanto tempo? Uma semana - perguntou um dos agentes.
- Nem isso. Não pretendo brigar pela guarda do garoto. Ao menos agora. Quero apenas ver o menino.
- Onde pretende ficar? Tem reserva em algum hotel? - perguntou outro agente.
- Não fiz reserva, mas vou ficar em alguma pousada simples.
O interrogatório seguiu por mais duas horas até que Hércules Leônidas foi liberado. Foi até o posto de câmbio e trocou parte de seus reais, agora bem menos por conta da compra da passagem para Quito, por dólares. O volume de notas diminuiu e ele teve mais facilidade para escondê-las entre as roupas na mochila e na mala.
Hércules Leônidas esperou até o limite para entrar na sala de embarque e não despachou sua bagagem. O medo tomava conta de Hércules Leônidas, ainda mais com a mudança no tom da voz, que se tornara muito mais soturno:
- POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO! POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO! POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO! POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO! POR EL AIRE, HASTA EL EQUADOR, CURSO PARA EL TOPO!
Hércules Leônidas não dormiu na sala de embarque. Trinta e cinco minutos antes da hora marcada para a decolagem, os passageiros começaram a embarcar. Hércules Leônidas observava como se comportavam, para repetir os atos. Alojar as bagagens, se sentar, apertar o cinto, pegar uma revista de bordo e fingir interesse. Baixar o encosto do assento. Observar as recomendações dos comissários de bordo e aeromoças.
Nada disso serviu para aplacar o medo de Hércules Leônidas, e o som da voz que somente ele ouvia. A decolagem quase o matou de infarto. Assim que foi liberado tirar os cintos, Hércules Leônidas correu para o banheiro e vomitou até a alma. Ouviu batidas na porta. Era uma das aeromoças perguntando se ele estava bem. Ele respondeu que sim e pediu um copo de água. Antes de sair do banheiro, pegou o copo com água e foi para seu assento.
Pensou em tomar um dos comprimidos mágicos, mas ao conferir sua passagem percebeu que a primeira troca de avião ocorreria em três horas. Passou-as indo repetidas vezes ao banheiro. Três horas se passaram como três milênios. Mas passaram e logo veio a sofrida e aterrorizonte aterrissagem. Desembarque, mais espera e um novo embarque. Seriam cerca de dez horas até a próxima aterrissagem. Tempo de um comprimidinho mágico do sono. Dormiu durante todo tempo, sendo acordado por uma aeromoça e um comissário. Pegou suas coisas, desembarcou e esperou a próxima conexão. Já não tinha mais noção alguma de hora ou dia da semana. Estava tão grogue que nem lembrou do medo que sentia, nem deu atenção à voz que insistia em atormentá-lo.
O último trecho passou rápido, quase imperceptivelmente. Era madrugada de segunda-feira. Dois dias e meio sem absolutamente nada para fazer na capital equatoriana até o dia da partida contra a LDU.
Hércules Leônidas esperou o amanhecer para tomar um ônibus até o centro de Quito. Chegou, comeu dois sanduíches e tomou um suco numa padaria e arriscou um portunhol macarrônico para descobrir uma pousada barata perto dali. Pagou adiantado um dia de hospedagem, foi para seu quarto, tomou um longo banho e engoliu logo dois comprimidos de vez. Dormiu quase vinte horas seguidas, acordando na manhã de terça-feira.
Pagou sua hospedagem antecipadamente para até quinta-feira. Saiu para dar uma volta nos arredores. Entrou em algumas lojas, bebeu em alguns bares e voltou à noite para o hotel. Demorou a dormir, mas resisitiu em tomar o comprimido mágico. Pregou o olho quase às três da manhã, acordou às oito da manhã e foi à rodoviária buscar informações sobre ônibus para o Brasil. Haviam ônibus em dias alternados para o Amazonas e Acre. Havia ainda um semanal para Roraima. Deu suas voltas pela cidade e foi direto para o estádio. Faltavam duas horas para começar a partida e haviam poucos torcedores. As arquibancadas estavam longe da lotação.
De forma contida, respeitosa até, os poucos torcedores do Sport comemoraram a vitória de virada por 3x2, com dois golaços de Andrade e um de Igor. A liderança do grupo estava assegurada e, pelo rádio, Hércules Leônidas e alguns torcedores souberam que o Palmeiras se classificara. E a voz, que andara meio calada nos últimos dias, voltou a ressoar com força:
- NO IMPORTA CONTRA QUIEN, ES MATAR O MATAR! NO IMPORTA CONTRA QUIEN, ES MATAR O MATAR! NO IMPORTA CONTRA QUIEN, ES MATAR O MATAR! NO IMPORTA CONTRA QUIEN, ES MATAR O MATAR!
Seria preciso esperar até a noite seguinte para saber quem seria o próximo adversário.
A saga continua aqui.
Terça-feira, 05 Maio 09, 09:24 AM
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Parte 04Conforme o solicitado à recepção, o telefone da suíte 1905 tocou pontualmente às seis da manhã. Grogue e completamente atordoado após uma noite sem sonhos, Hércules Leônidas atendeu ao telefone, ouviu a mensagem de despertar. São Paulo, seis horas. Levantou-se com dificuldade e foi ao banheiro, onde lavou o rosto e começou a pensar no que teria que fazer para estar de volta ao Recife em seis dias.
A misteriosa voz pareceu ter dado uma trégua durante a noite. Certamente influenciada pelo poderoso comprimido sonífero tomado na noite anterior. Assim que enxugou o rosto, Hércules Leônidas voltou a ouvir a voz.
- MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE! MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE! MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE!
Há muito tempo a voz já tinha deixado de ser enigmática. Agora, já tinha se tornado chata, incômoda e enfadonha. E Hércules Leônidas teria que conviver com isso.
Já que estava acordado mesmo, resolveu tomar o café da manhã, incluído na nada barata diária do hotel. Poucas vezes, certamente nenhuma, teve à sua disposição tanta comida. Impressionante. Aproveitou e comeu muito. E ainda conseguiu "contrabandear" algumas maçãs e iogurtes para o quarto.
O relógio marcava pouco mais de oito da manhã quando Hércules Leônidas voltou. O dinheiro que recebeu pelo serviço ilegal não foi pouco. Seria solução para seus problemas, não fosse pelo fato de não ter onde guardá-lo. Banco, nem pensar. Nem documentos autênticos possuía.
Mas nada disso importava diante da necesidade de voltar ao Recife em seis dias. Não parecia problema, uma vez que já tinha realizado viagens mais longas, se escondido por períodos mais longos, com uma quantidade infinitamente menor de dinheiro.
Agora, havia uma mala cheia de dinheiro. Nem tinha se dado ao trabalho de contar. Era só pegar um avião dentro de seis dias e em três horas aterrissaria no Recife. Mas havia um sério problema.
Hércules Leônidas tinha um medo crônico de avião. Nem ele mesmo sabia quando isso tinha começado. A verdade é que o mero som de uma turbina de avião lhe causava calafrios e desespero. Mas era a maneira mais rápida e segura de ir para o Recife. Ônibus clandestinos eram perigosos e ir de ônibus convencional tomaria quase dois dias, com gastos só um pouco abaixo de uma passagem aérea de classe econômica.
O temor de turbulências, arremetes, pousos de emergência e um eventual desastre acabou falando mais alto. Até mesmo do que a voz, que insistia em repetir:
- MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE! MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE! MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE!
Neste instante, Hércules Leônidas pegou o telefone, ligou para o serviço de informações, para a rodoviária, para a companhia de ônibus e agendou sua passagem para aquela noite de quinta-feira. Era preciso estar na rodoviária quatro horas antes da saída do ônibus, que sairia do terminal da Barra Funda, próximo ao hotel. Daria tempo de um banho de piscina, um drinque, um almoço e uma soneca. Depois de três meses de agitação absoluta, nada como uma manhã e tarde de tranqüilidade, às custas de um serviço ilegal. E foi exatamente isso que Hércules Leônidas pensou, com toda sua força, tentando afastar a misteriosa e à essa altura, irritante voz ressoante em sua mente.
Durante seu descanso, Hércules Leônidas não conversou com ninguém, folheando jornais e revistas e tomando algumas cervejas para passar o tempo. Após o almoço, passou na recepção, acertou sua conta e avisou que deixaria o quarto no início da noite. Recolheu-se aos seus aposentos e teve a feliz idéia de trocar as roupas e o dinheiro de lugar. As roupas iriam na mala, a ser despachada no bagageiro do ônibus, e o dinheiro na mochila, à mão, junto com os comprimidos do sono.
Quatro horas, dezenove minutos e cinco segundos antes da saída do ônibus, Hércules Leônidas chegou ao guichê da companhia. Pegou sua passagem, fez o pagamento e comprou algumas palavras cruzadas e uma caneta. A espera não lhe fazia bem, era óbvio. Tinha a sensação de estar sendo perseguido e de que seria preso. Além da fuga do hospício, já tinha viajado ilegalmente para o exterior, comercializado anfetaminas, transportado e comercializado outras drogas sintéticas além da utilização permanente de documentos falsos. Não era pouca coisa.
As horas demoraram a passar, mas transcorreram bem. Hércules Leônidas não conseguiu resolver todas as palavras cruzadas, que foram colocadas na mochila. Pôs a mala no bagageiro e subiu no ônibus. Acomodou sua mochila nos pés, baixou o banco e tentou dormir antes que o veículo partisse. Sem sucesso. Hércules Leônidas passou as primeiras dez horas da viagem em estado de alerta, tal como um sentinela. Pensou em tomar um dos comprimidos mágicos do sono, mas desistiu, pois havia alguns milhares de reais para serem vigiados. Mais algumas horas e o ônibus parou para que os passageiros almoçassem.
Exceto pela súbita insônia, que perpassou a totalidade da viagem, não houve problema algum. Nem problemas mecânicos, nem blitzes policiais. Uma tranquilidade que a insônia não permitiu que Hércules Leônidas usufruísse, além da ressonante voz, que não parava de repetir um só segundo:
- MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE! MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE! MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE!
No meio da tarde de sábado, quatro dias antes da partida, o ônibus chegou ao Terminal Integrado de Passageiros, no bairro do Curado, em Recife. Já fora do ônibus, mochila cheia de dinheiro nas costas e mala de roupas à mão, logo pegou um táxi e pediu para que o deixasse em alguma pousada ou hotel próximo dali:
- Tem um hotel-fazenda próximo daqui, uns quinze minutos de viagem. Tranqüilo, longe da cidade, só um pouco caro. Mas vale a pena - disse o taxista.
- Qual teu time? - perguntou Hércules Leônidas.
- Sou de Caruaru, patrão, sou Central. E mais nenhum - respondeu o taxista, olhando para Hércules Leônidas.
- Acho que posso confiar em você. Leve-me a esse hotel-fazenda de que você falou.
Conforme o prometido pelo taxista centralino, em quinze minutos eles estavam no hotel-fazenda. À primeira vista, não parecia tão luxuoso, mas isso não interessava à Hércules Leônidas. Ele só queria ter a certeza de que conseguiria dormir por ao menos dezesseis horas sem ser incomodado ou surpreendido. E o tal hotel-fazenda parecia bem adequado para tal.
Hércules Leônidas estava exausto. Optou por um chalé na parte de trás do hotel, o mais afastado possível da entrada do hotel. Mesmo cansado, dipensou a ajuda do carregador, decisão da qual arrependeu-se ao perceber que seu chalé ficava bem distante da recepção. Mas já não dava para voltar atrás e num esforço espartano, Hércules Leônidas filnalmente chegou ao seu novo reduto, ao menos pelas próximas horas.
Estava sem banho há tempo demais para dispensar uma boa ducha. Foi o que ele fez, antes de cair desfalecido na confortável cama. Só acordou após o meio-dia do domingo, a tempo de almoçar e acompanhar pela televisão a partida decisiva do campeonato pernambucano, um empate sem gols com o Náutico que deu o título invicto ao Sport.
Jarbas, proprietário do hotel-fazenda, era um notório e conhecido torcedor do Leão. Após a partida, ofereceu cervejas e churrasco aos poucos hóspedes lá hospedados na ocasião. Um dos hóspedes, torcedor do Náutico, aceitou a proposta, desde que pudesse oferecer o whisky 12 anos que guardava na bagagem. A festa estendeu-se até perto da meia-noite, com conversas animadas sobre futebol e outras coisas menos importantes. Num determinado momento, Jarbas descobriu que Hércules Leônidas iria ao jogo de quarta-feira, contra o Colo Colo pela Libertadores:
- Meu amigo, você vai comigo ao jogo. Tenho duas cadeiras cativas, e não acredito que eu esteja suficientemente gordo para ocupar ambas. Sem discussão, você vai ao jogo comigo, não importa se vai ficar aqui até a quarta-feira. Aliás, você fica até quarta-feira, e pagando adiantado - Jarbas interrompeu a fala ébria com uma gargalhada - Tenho que me precaver, né?
- Bem, o que posso dizer? Vamos nessa.
E a conversa seguiu animada até que perto da meia-noite todos se recolheram. Hércules Leônidas apagou até depois do meio-dia da segunda-feira. Acordou, deu uma volta pelo terreno do hotel. Sentia uma leve ressaca. Por pouco, não perdeu o horário de almoço. Após comer, voltou ao quarto, levando os jornais do dia e algumas revistas. Folheou-as com algum interesse e as horas passaram rápido, até o jantar. Conversou um pouco com Jarbas e logo estava no quarto novamente.
A terça-feira seguiu sem grandes surpresas. Comer, beber, dormir, nada mais que isso. Até a misteriosa voz pareceu dar uma trégua. A quarta-feira amanheceu com uma persitente chuva:
- Puta merda, melhor que pare logo - disse Jarbas, ao encontrar Hércules Leônidas no café da manhã.
- Fica calmo, hermano Jarbas - replicou Hércules Leônidas - com ou sem chuva, sairemos da Ilha do Retiro classificados.
- Deus te ouça, e São Pedro também.
Após o café da manhã, Hércules Leônidas não resistiu e tomou um dos comprimidos do sono mágico. Deu merda. O homem apagou. Às cinco da tarde, Jarbas começou a ficar preocupado. Seu hóspede predileto não apareceu para o almoço e não dava as caras desde as oito e meia da manhã. Seis da tarde e nada de Hércules Leônidas. Jarbas foi até o chalé e bateu algumas vezes na porta. Sem resposta. Jarbas resolveu então arrumar o carro e as coisas para sair para o estádio.
Jarbas tomou alguns cafés e conversou com a esposa. Aos cinqüenta anos recém-completados, tinha se tornado um sujeito de tolerância acima da média, o que volta e meia rendia-lhe prejuízos nos negócios, sobretudo por conta de contas não pagas por clientes. Mas uma coisa realmente lhe tirava do sério.
Pessoas que não cumpriam com compromissos. E o comprimido do sono mágico fez com que Hércules Leônidas se aproximasse dessa categoria. Isso era perigoso.
Pouco antes das sete da noite, a extensa e incomparável paciência de Jarbas foi para o espaço. Bateu mais algumas vezes à porta do chalé onde Hércules Leônidas se encontrava, mais uma vez sem resposta. Não teve dúvidas: arrombou a porta com um chute de fazer inveja a Chepo, um lateral-direito hondurenho que jogou no Sport no final da década de 1990. Só depois do estrago foi que Jarbas lembrou que era só usar a cópia da chave.
O barulho não foi suficiente para despertar Hércules Leônidas do seu estado morfético. Jarbas teria que apelar, e foi que ele fez. Deu-lhe uns safanões:
- Vambora, porra! Sport, porra!
Hércules Leônidas acordou assustado. Não é toda hora que se é acordado à base de porrada estando sob efeito de tranqüilizantes.
- Hããããã - disse Hércules Leônidas - Já vamos sair? Estou pronto.
Hércules Leônidas estava deitado da cama, vestindo bermuda, sua camisa surrada do Sport e meias. Levantou-se e calçou os tênis.
Jarbas ficou estarrecido. Havia uma porta para consertar, à toa.
Entraram no carro e se dirigiram até à Ilha do Retiro. Quarenta minutos e estavam estacionando próximo a um posto de gasolina. Uma passagem pela loja de conveniência para algumas cervejas. Uma, na verdade, pois a segunda foi bebida já na caminhada de cinco minutos até o estádio. Mais uma latinha para cada um, e entraram no estádio.
Faltavam uns quarenta minutos para o início da partida. Jarbas estava ansioso, nervoso, e fumava um cigarro atrás do outro desde que saíra do hotel-fazenda. O estranho nisto tudo é que Hércules Leônidas não percebera em nenhum momento nos últimos dias Hércules Leônidas percebera Jarbas acender um cigarro sequer.
Foi um bom pensamento para ocupar a mente durante quarenta minutos e tentar afastar a voz, que tentava fazer sua parte para atormentar Hércules Leônidas:
- MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE! MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE! MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE!MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE! MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE! MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE!
No primeiro tempo, pouca coisa aconteceu. Hércules Leônidas não tirava os olhos do campo e Jarbas não parava de fumar. Nada muito diferente do restante do público.
No início do segundo tempo, uma bobeira e gol do adversário. Pela terceira vez seguida, o adversário abre o placar. Das primeira vez, uma derrota, na segunda, um empate. Havia uma evolução ali. A torcida continuou a cantar, acreditando na evolução
Pouco mais de dez minutos depois, um chute na trave de Hamilton, um rebote de Moacir e o empate.
De fato, havia uma evolução. A torcida cantou mais alto. Hércules Leônidas berrou mais alto. A voz ensurdeceu a mente de Hércules Leônidas:
- MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE! MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE! MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE!MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE! MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE! MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE! MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE! MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE! MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE!MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE! MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE! MATAR EL GRUPO DE LA MUERTE!
Vandinho pareceu ter ouvido a voz e marcou o gol da vitória. Ainda faltavam cerca de vinte minutos, mas estava escrito que a classificação viria naquela partida.
E de fato veio ao final do jogo, com fogos, gritos, cantos e lágrimas.
Não era preciso ouvir a misteriosa voz para saber que seria preciso Hércules Leônidas dar um jeito de estar no Equador dali a sete dias. Afinal, seria preciso terminar a primeira fase da Libertadores na liderança de seu grupo.
A sexta parte da saga está aqui.
Terça-feira, 21 Abril 09, 06:03 PM
Episódios anteriores: Parte 1, Parte 2 e Parte 3
Ao apito final do árbitro Carlos Torres, boa parte da torcida caiu no silêncio. Uns outros esbravejavam contra o esquema tático, as substituições, o dinheiro que gastaram no ingresso, o horário da partida. Alguns simplesmente se retiravam das arquibancadas para seus carros e suas casas.
Hercules Leônidas vagava pelos degraus da arquibancada, das gerais, dava voltas, sem saber por que tudo aquilo estava acontecendo. Olhava para a torcida do Palmeiras, e os flashbacks dos seus tempos de torcedor fanático vieram com intensidade. Lembrou de como odiava o Palmeiras. Observou a ofensiva comemoração dos adversários. Tempos atrás, daria um jeito de pegar um ou mais deles e sentar a porrada, com. Mas os tempos haviam mudado. Qualquer deslize seria um risco no cumprimento da missão Esperava pela próxima mensagem da soturna e misteriosa voz.
A voz permanecia em silêncio, como havia permanecido na maior parte do dia do jogo. Hércules Leônidas deteve-se no último degrau da arquibancada, apoiado no parapeito. Observava a saída dos torcedores do Palmeiras, bufando de ódio.
E a voz continuava em silêncio.
Mais do que a derrota, a primeira do ano, o que mais irritava Hércules Leônidas foi o súbito silenciamento da misteriosa voz que há meses ressonava em sua mente, sem parar. Em alguns momentos ele não dava atenção, ou a percebia num volume baixo, mas nunca havia silenciado como naquele momento.
- Que merda, hein?
Um senhor de aproximadamente 50 anos estava apoiado no parapeito da arquibancada, ao lado de Hércules Leônidas. Já estava lá antes, mas não foi percebido. O senhor ofereceu um cigarro a Hércules Leônidas, que recusou prontamente.
- Por que não, rapaz? Areja a cabeça – disse o velho enquanto puxava um maço de Marlboro do bolso - Deixa de pensar na piaba que tomamos agora e pensa... sei lá... que essa fumaça vai estragar teus pulmões, se você continuar fazendo isso você vai ter câncer, essas coisas, problemas de coração. Ajuda a digerir essa merda toda que vimos hoje
- Não, eu não fumo. Mesmo. Obrigado.
- Tudo bem. Vai voltar como para casa?
Não, o senhor não estava fazendo esta pergunta. A necessidade de inventar uma nova história, uma nova farsa era demais para Hércules Leônidas.
- Não sei. Não sei mesmo. Nem sei se volto pra casa. Nem sei onde é minha casa. Esta noite, eu não sei de porra nenhuma. Como jogamos mal. Puta que pariu!
- Olha, rapaz - disse o senhor, tragando forte seu Marlboro e soltando uma bela baforada para o alto - tem horas que perder faz parte do aprendizado. Aquela velha história de recuar em determinado ponto para avançar mais à frente. Pode ter certeza de que vimos isso aqui hoje. Estávamos mal-acostumados, sem perder este ano e desde agosto do ano passado sem perder em casa. Não que o adversário tenha tido méritos. Ele apenas aproveitou a chance que teve no primeiro tempo e o desespero do nosso time no segundo. Gastamos nosso azar hoje, e eles, a sorte. A torcida também não veio em peso como sempre acontece. Culpa desses preços extorsivos que a porra da diretoria colocou. Mas relaxe. Semana que vem, daremos o troco, na casa deles.
O início da última frase deu um estalo na mente de Hércules Leônidas.
- Semana que vem? Como assim?
- É amigo, isso mesmo. Daqui por diante, é jogo toda semana. Estranhou essas cinco semanas sem Sport na Libertadores, não é?
- Putz, só tenho uma semana para chegar em São Paulo.
- Caramba. Agora eu que pergunto: como assim?
- É uma longa história.
- Longa será a noite. Aceita uma ou mais cervejas? Fiquei curioso com essa história de você ir a São Paulo ver o jogo - disse o senhor, já descendo os degraus e lançando o filtro do cigarro com um peteleco - Vamos amigo, pela sua cara você não vai dormir tão fácil esta noite.
Hércules Leônidas hesitou por alguns instantes, olhando para o estádio quase vazio. Os refletores se apagavam, gerando um ambiente fúnebre. Hércules Leônidas pensou, olhou um par de vezes para o senhor, que gesticulava algo como "Vamos nessa".
Por fim, Hércules Leônidas topou, mesmo sabendo o risco que corria ingerir álcool com o cérebro naquele estado. Ao menos a soturna voz que atormentava sua mente parecia terdado um tempo.
Se dirigiram então a um bar próximo ao estádio. Não havia muitas pessoas nas mesas e o semblante de absolutamente todas contrastava com o clima de euforia até a partida começar. Sentaram e o senhor logo pediu uma cerveja, dois copos e uma dose de whisky.
- Vai no whisky também, rapaz? Aliás, qual seu nome? O meu é Hélio.
- Vou ficar na cerveja, seu Hélio. Meu nome é Hércules Leônidas.
- Nome interessante esse seu. Homenagem a alguém?
- Nunca perguntei a meus pais. Aliás, faz tempo que não tenho notícias deles.
As bebidas já tinham sido servidas. Hélio acendeu outro cigarro, sob olhar de reprovação de alguns dos últimos frequentadores do bar, mesmo com a mesa do lado de fora.
- Conta essa história aí. Tu vai pra São Paulo ver o jogo. Vai de avião, ônibus?
- Ainda não sei, Só sei que vou, e não é de avião.
- Tem onde ficar lá?
- Eu moro lá - Hércules Leônidas acabava de inventar uma nova mentira para despistar.
Hélio tragou levemente o cigarro, olhando nos olhos de Hércules Leônidas. Parecia não acreditar muito no que o rapaz dizia. Para a sorte de Hércules Leônidas, ele também parecia não se importar muito com a veracidade das palavras do fugitivo do hospital psiquiátrico que ali estava, uma das cerca de 20 mil testemunhas oculares daquilo que em outros tempos seria uma catástrofe.
- Onde erramos? - questionou Hércules Leônidas
- Não erramos - disse Hélio, entre um gole e outro de cerveja - Porra, todo mundo parece que esqueceu que não existe time imbatível. O Santos de Pelé perdeu partidas. A Hungria ficou três anos e meio sem perder sequer amistoso pra ser derrotada na final de uma Copa do Mundo. Perdemos uma partida. Ponto. Acontece. Se não acontecesse não seria futebol. Pense que nós estávamos empolgados demais. Serve pra esquecer a empólgação e ficar de olho nas falhas.
E nessa toada seguiram por pouco mais de uma hora, quando o garçom bar já avisava que o bar iria fechar.
Hélio não permitiu que Hércules Leônidas contribuísse na conta, soltando um olhar agressivo para reforçar sua vontade. Saindo do bar, ofereceu carona a Hércules Leônidas, que ficou meio transtornado em responder. Afinal de contas, para onde iria?
-Me deixe ali pelo centro da cidade. De lá eu me viro.
Logo Hércules Leônidas encontrou um hotel tão barato quanto desconfortável, em meio a traficantes, cafetões, prostitutas, travestis e drogados de toda espécie. Carregando uma mochila com algumas roupas, pagou adiantado a pernoite e seguiu para seu quarto.
Sem necessidade de comprimidos para dormir, só abriu os olhos ápós as onze da manhã. As cervejas não desceram bem. Havia conseguido arrecadar algum dinheiro nos trabalhos na praia. Seu estoque de comprimidos estava perto do fim e ainda tinha esquecido de oferecê-los a algum dos marginais que faziam ponto à noite, nas cercanias do hotel.
Foi quando alguém finalmente se manifestou:
- SE VIRA, PEÃO - SÃO SEIS DIAS PRA CHEGAR NA POCILGA!
A poliglota e tonitruante voz agora atacava em bom português - e nunca esteve tão intimidadora. E pelo jeito, voltara de vez, implacável, repetitiva e em tom crescente. Hércules Leônidas tentou um banho para amenizar. Lá ficou por uns vinte minutos. Nada adiantou. A voz parecia querer compensar seu breve período de ausência soando cada vez mais alta.
- SE VIRA, PEÃO - SÃO SEIS DIAS PRA CHEGAR NA POCILGA!
Bem, pocilga, que quer dizer casa dos porcos, deveria ser o estádio do Palmeiras, que tem o tal suíno por apelido. Era hora de entrar em açõa. Logo lembrou dos tais ônibus clandestinos. Um deles seria mais que útil. Mas vai saber se daria tempo. Bem, não havia grana para um ônibus de linha, muito menos para uma passagem aérea. Carona até podia rolar, mas como repetia a voz, eram seis dias para chegar na pocilga.
Saiu do quarto, entregou a chave na recepção e saiu na rua. O calor úmido e a ressaca não o deixavam pensar direito para onde ir até que deu de cara com um cartaz num poste. Tinha algo escrito sobre viagem para São Paulo a baixo custo e um número de telefone. Hércules Leônidas deteve-se diante da mensagem, tentando memorizar o número do telefone para ligar em seguida. Foi quando um sujeito aproximou-se de modo um tanto sorrateiro.
- Tá interessado nisso aí? - disse um homem de pouca estatura, poucos cabelos e poucos fios no bigode.
- Acho que sim. Você pode me ajudar?
- Depende se você pode me ajudar.
- Como assim?
-Olha aqui, esse tipo de viagem é para quem tem pouco dinheiro e muita coragem. Você tem dinheiro?
- Pouco, pra falar a verdade.
-Quer ganhar muito?
-Como?
-Já almoçou? Vem comigo. É por minha conta.
Entraram no restaurante, se é que o aspecto do estabelecimente o credenciasse para ser chamado desta forma e o homem pediu "o de sempre". Antes que Hércules Leônidas pudesse se acomodar, seu interlocutir foi logo falando, em ritmo acelerado.
- Vou logo te dar a real. Não quero saber seu nome nem vou te dizer o meu. A tarefa é simples. Você vai levar uma carga de algo que a polícia não pode saber. Inclusive você deve topar com eles várias vezes durante o percurso e no ponto final também. Você tem documentos?
- Sim.
- Esqueça-os. Vou providenciar novos. E...
- Esqueça você - disse Hércules Leônidas, levantando-se da cadeira - Não quero me meter nisso, já tenho problemas demais, quero apenas gastar pouco e estar em São Paulo dentro de seis dias.
O homenzinho não perdeu a calma, segurando Hércules Leônidas pelo braço.
- Calma, tudo isso já está providenciado. É só colocar uma foto sua em cima do que já está pronto. O ônibus sai às quatro da tarde e são pouco mais de meio-dia. Nosso almoço já está chegando, enquanto comemos, vou te dar os detalhes.
Hércules Leônidas olhou para os lados. Havia a possibilidade de estar se metendo em uma grande merda.
Durante o almoço, o homenzinho explicou como se daria o plano: portando documentos com o nome de Juremir Teixeira de Souza, Hércules Leônidas levaria um pacote com 500 comprimidos de ecstasy. Receberia dois mil reais em espécie para despesas de viagem, incluindo eventuais subornos. Recebeu uma lista de onde se dariam as blitzes e a notícia de que a viagem duraria cerca de 3 dias e meio. Chegando em São Paulo, um homem do qual recebeu uma fotografia o estaria esperando. O contato não poderia ser imediato, seria preciso esperar todos os passageiros desembarcarem e pegar suas malas.
- Você fuma? - perguntou o homenzinho.
- Não - respondeu Hércules Leônidas - Não gosto.
- Pois trate de gostar. Despista a atenção quando não se está fazendo nada e principalmente quando se está fazendo algo suspeito. Além do mais, vai permitir a aproximação com meu contato. Outra coisa, tem gente minha no ônibus. Se pensar em fazer alguma bobagem, o ônibus pára e te derrubam lá mesmo. Entendido?
- Sim.
A essa altura, a voz que ecoava na mente de Hércules Leônidas, já tinha chegado a um volume no limite do suportável:
- TE VIRA, PEÃO! SEIS DIAS PARA CHEGAR NA POCILGA!
O homenzinho pediu a conta e ambos saíram para providenciar os últimos retoques. Barba feita, cabelos cortados e Hércules Leônidas assumia, provisoriamente, a identidade de Juremir Teixeira de Souza, nascido em Vitória de Santo Antão, 32 anos. Pouco tempo depois, já estava no ônibus, que saiu com quase duas horas de atraso, a caminho da capital paulista.
Os primeiros seiscentos quilômetros transcorreram sem problemas, até que dois pneus do ônibus furaram de uma só vez. Quatro horas para a viagem ser retomada. Mais 200 km e a primeira blitz. Dentro do contexto, inclusive com um suborno de 300 paus de sua parte para que o ônibus não fosse revistado. Outros passageiros também "colaboraram".
Entre quebras, revistas, subornos e tudo o mais, o ônibus chegou ao seu ponto final às sete da manhã de do dia da partida, 15 de abril. Um atraso de um dia e meio além do previsto. E a voz não o abandonou durante toda a viagem, e nesse momento, ela aumentou o volume muito além do suportável.
- TE VIRA, PEÃO! 12 HORAS PARA CHEGAR À POCILGA! CUIDADO COM A VESTIMENTA.
Então foi que Hércules Leônidas deu-se conta que usar camisa do Sport em São Paulo em dia de jogo contra o Palmeiras era deveras arriscado. Tirou do bolso o maço de cigarro paraguaio que havia comprado no caminho e acendeu um. O trago veio como uma verdadeira bomba gasosa em seus pulmões. Tentou disfarçar, com sucesso. Evitava as tragadas. Os passageiros retiravam suas malas, encontravam os conhecidos que o esperavam no ponto final. Hércules Leônidas não tinha bagagem além da mochila com algumas roupas e o único conhecido que o esperava ele teve que comparar com a foto. Afastou-se da multidão e sinalizou com o olhar para o homem da foto materializado. Ele sinalizou com a cabeça, convidando-o a segui-lo à distância. Andaram cerca de 500 metros, até que o homem entrou numa pousada, muito mais assustadora do que qualquer lugar que Hércules Leônidas tivesse passado. O homem voltou, olhou para os lados e fez sinal para que Hércules Leônidas entrasse.
A sensação de terror de Hércules Leônidas não era para menos. Os olhares das pessoas na rua pareciam todos destinados a ele. Parecia que todos eram palmeirenses. Ele entrou na pousada e seguiu por um estreito corredor até um dos quartos.
Não houveram muitas palavras. O homem misterioso se comunicava apenas com gestos. Revistou Hércules Leônidas. Levantou a própria camisa, revelando que estava armado. Olhou a carga transportada por Hércules Leônidas e fez sinal de positivo com a cabeça. Entregou-lhe uma mala e indicou que abrisse.
Havia cerca de quatro mil reais na mala. Em espécie. Hércules Leônidas não conferiu
- Bem, minha sugestão é que você não fique muito tempo com isso em seu poder. Pegue um táxi, vá para algum hotel mais ou menos, noutro bairro. De preferência, troque de roupa antes de sair daqui. Hércules Leônidas foi ao banheiro, trocou de roupa e em menos de três minutos já entrava num táxi. Desceu poucos quilômetros depois, suando frio. Pegou outro táxi e foi até o bairro de Perdizes, próximo ao estádio. Procurou um hotel e pediu a suíte mais barata. Pensou em pagar adiantado e desistiu. Apresentou sua identidade falsa e dispensou ajuda para carregar sua bagagem até o quarto. Uma vez no quarto, guardou a mala num lugar seguro, tomou um banho e adormeceu. Perdeu o horário do almoço, acordando no meio da tarde. Saiu pelos arredores e comeu uns salgados numa padaria próxima ao hotel. Foi até o estádio do Parque Antártica. Os torcedores do Palmeiras já se movimentavam. Um ou outro o olhava de forma desconfiada. Percebeu que era melhor voltar ao hotel.
Uma hora antes da partida, saiu do hotel. Foi até a bilheteria, comprou seu ingresso, soltou alguns berros de "Sport!", para afastar um pouco a incômoda voz ressoante em sua mente. Mal percebeu que a partida já tinha começado.
Cerca de quinze minutos se passaram, e o árbitro uruguaio enxergou um pênalti que nem em histórias da carochinha existiu. Logo seu time estava em desvantagem.
Aquele gol, paradoxalmente o encheu de esperança. Não se sabe por que, se a voz havia profetizado algo, mas naquele momento Hércules Leônidas teve a certeza de que o Sport não perderia aquela partida.
O Palmeiras atacava, o Sport se defendia como podia, o juiz anulava um gol legítimo do adversário e em campo, pouca coisa fazia acreditar que o Sport conseguiria alguma coisa. Até que no último minuto do primeiro tempo, a voz se manifestou, com um tom de voz inédito até então.
-PAULO BAIER NA BOLA! PAULO BAIER NA BOLA! PREPARE-SE QUE É GOL!
Hércules Leônidas demorou a perceber que era a voz na sua mente. Mas antes olhou para os lados, tentando identificar, em vão a voz que ressoava:
- PAULO BAIER NA BOLA! PAULO BAIER NA BOLA! PREPARE-SE QUE É GOL!
A bola alçada na área não inspirava grandes pretensões. Mas houve uma confusão e a bola sobrou para Wilson chutar por baixo do goleiro do Palmeiras.
Era o empate. Era o empate! No único chute a gol do Sport na primeira etapa. E que seria o único em toda a partida. Para dificultar as coisas, Wilson tirou a camisa e foi expulso.
No segundo tempo, o Palmeiras tentava, tentava e tentava. O goleiro Magrão defendia tudo, até quando a partida já estava parada. Os contra-ataques só serviam para prender a bola no ataque, nunca resultando em lances de perigo. E a partida acabou.
Hércules Leônidas, desta vez, dispensou as comemorações. Pôs uma camisa xadrez sobre a camisa do Sport, saiu do estádio e caminhou até o hotel. Pegou sua chave e subiu para o quarto sem trocar mais do que as palavras com a recepcionista. Tomou um refrigerante e uma água com gás, um banho e deitou-se na cama. Não sem antes engolir um dos comprimidos milagrosos para dormir dados pelo seu amigo Xico. Antes de adormecer, pediu antes para que a recepcionista o acordasse às seis da manhã.
A voz já havia se manifestado e há muito tempo já se tornara previsível e incômoda. Ao acordar, Hércules Leônidas teria seis dias para voltar ao Recife. Tinha uma mochila com algumas roupas e uma mala cheia de grana.
Nesse instante, ele adormeceu.
Quarta-feira, 15 Abril 09, 03:35 PM
Leia a primeira parte aqui, e a segunda aqui.
Ao ser despertado de seu sono, Hércules Leônidas demorou a perceber que a aquela voz que retumbava em sua mente voltara. A essa altura, nada mais o surpreendia. Mesmo o fato de a mesma voz ter ecoado em sua mente deste o apito final da partida entre Sport e LDU. A loucura, sim, loucura mesmo, plena e irrestrita, o impediu de perceber que a voz permanecia em sua mente, a despeito da euforia tranqüilizadora da vitória frente ao time então detentor do título da Libertadores.
A voz fez seu trabalho, que só foi percebida pelo “objeto” de labor, na manhã seguinte, com a ajuda do policial, em algum dos bancos da Praça do Derby.
- CURA DEL MAIALE! CURA DEL MAIALE! CINQUE SETTIMANE È TROPPO LUNGO!
A voz agora tinha resolvido falar algo em italiano. A essa altura, nada seria lá muito estranho. Nem mesmo a voz se mostrar uma poliglota.
Hércules Leônidas não deu lá muita atenção. Afinal, tinha que saber quando seria o próximo jogo.
Tinha saído do bnco da praça, “a pedido” do policial.
Que logo virou as costas e tentou trabalhar de verdade.
Hércules Leônidas espreguiçou-se, levantou e pôs-se a caminhar. Puro jogo de cena.
Não demorou muito para um trabalhador largar o jornal da data num dos bancos da Praça do Derby.
Hércules Leônidas logo estava folheando o informativo. Até descobrir que cinco semanas se passariam até a próxima batalha pela Libertadores.
O que fazer durante cinco semanas, foragido de um hospital psquiátrico, a alguns quilômetros de onde estava naquele momento?
Checou os bolsos. Havia alguns trocados, além da chave da pousada na qual tinha se hospedado na noite anterior. Certamente no quarto da pousada havia mais dinheiro, além dos comprimidos.
Hora de voltar para sua casa provisória. Mas não sem antes passar no primeiro boteco e trocar a grana de uma passagem de ônibus por uma gelada, nababesca, providencial, inigualável e antes de mais nada, necessária, cerveja.
O boteco estava fechado, por conta do horário precoce para a embriaguez. Foi necessário ir até a loja de conveniência de algum posto de gasolina, onde Hércules Leônidas pôde perceber que seus trocados valiam três latas de cerveja, com algumas moedas de troco.
Fez negócio e pouco depois estava caminhando de volta à pousada, pensão, hotel ou coisa que o valha na zona norte do Recife. O calor era escaldante, como é de costume nas manhãs de março em Recife. Antes que terminasse a primeira latinha, Hércules Leônidas pôde perceber que não só a cerveja que estava tomando, como as outras duas que carregava na sacola plástica da loja de conveniência.
Virou a latinha que estava tomando quando quase teve uma grande idéia.
Quase teve porque a voz aproveitou o momento conveniente para voltar a ressoar, igualmente aproveitando o sol que rachava todo e qualquer crânio presente em Recife:
- CURA DEL MAIALE! CURA DEL MAIALE! CINQUE SETTIMANE È TROPPO LUNGO!
Hércules Leônidas atirou a latinha vazia contra um muro, quase caiu na calçada e respirou fundo, tentando ignorar a voz.
Lembrou do que havia lido minutos antes no jornal. O próximo adversário seria o Palestra Itália, vulgo Palmeiras.
E em mais uma dessas convenientes coincidências que costumam assolar este tipo de história, passva em frente a uma biblioteca pública:
- O que significa “Cura del maiale! Cinque settimane è troppo lungo!”? – já perguntava Hércules Leônidas ao bibliotecário, antes que pudesse perceber que já estava dentro da biblioteca.
- Hahaha! Isto é italiano – respondeu o jovem bibliotecário estagiário, nitidamente zombando do estado de Hércules Leônidas, indefectivelmente trajado com a velha camisa do Sport presenteada pelo amigo e cúmplice Xico.
- Olhe aqui, seu filho da puta, eu te fiz uma pergunta e você não me respondeu – disse Hércules Leônidas, com um olhar mais do que intimidador – Sabe o que acontece quando esse tipo de coisa acontece.
O estagiário gelou. Não esperava por aquilo no início do expediente:
- Hããããããã... perdão.... Pode repetir? Se escrever, ajuda mais... vou pegar o dicionário de italiano... quer água?
- Não quero água, pegue essa porra desse dicionário logo. Logo!
O bibliotecário estagiário afastou-se rapidamente e logo estava de volta:
- Aqui está o dicionário. Qual foi mesmo a frase a qual você perguntou o significado? – perguntou o estagiário, demonstrando que as aulas extras de correção gramatical na língua portuguesa foram eficientes para fazê-lo tirar uma nota máxima na prova, mas não para salvá-lo de uma situação constrangedora.
Hércules Leônidas apenas olhou-o nos olhos, franzindo as sobrancelhas de maneira amaeça e intimidadora.
- Ah, tá – disse em tom apavorado o bibliotecário, esforçando-se em buscar nas profundezas de sua mente a frase pronunciada por aquele maluco minutos atrás - “Cura... del... mai...ale! Cinque settimane... è troppo... lungo. Cuidado com o porco... cinco semanas é muito tempo – disse o estagiário, tentando se acalmar.
- Porco, italiano, palmeiras... já entendi – disse Hércules Leônidas – Qual teu time?
- N-n-não gosto de futebol, senhor.
- Vá-vá-vá se fuder! Diga seu time, agora! – Hércules Leônidas usou um tom de voz rude, que chamou a atenção dos matinais freqüentadores habituais da biblioteca, que logo desviaram o olhar de seus respectivos livros, jornais, revistas ou coisa que se equivala para o desenrolar do que acontecia na recepção.
- Responda, por que tanta frescura, porra?
- Na-ná-ná-utico.
- Esse medo todo não podia ser à toa. Barbie!
Hércules Leônidas saiu da recepção e pouco depois ouviu uma voz, não aquela voz, mas a voz de uma das pessoas que freqüentavam. E era uma voz muito alta:
- É Sport, porra!
Hércules Leônidas ergueu e sacodiu o punho esquerdo. Numa celebração que seria um tanto solitária se não fosse acompanhada por algumas pessoas. De algum ponto, uma outra voz gritou:
- Pelo Sport nada!
E várias vozes espalhadas pela pequena multidão de transeuntes gritava:
- Tudo!
E a mesma voz treplicava repetindo num tom ligeiramente mais elevado:
- Pelo Sport nada!
As vozes perdidas na pequena multidão elevaram em número e volume:
- Tudo!
- Então como é que é, como vai ser e como sempre será?
As vozes inicialmente perdidas na pequena multidão unissonaram:
- Cazá-cazá-cazá-cazá-cazá... a turma é mesmo boa, é mesmo da fuzarca. Sport, Sport, Sport!
E então Hércules Leônidas teve a certeza de que ali era o seu lugar, sem “voz interior” alguma para encher o saco. Certeza que durou até a esquina seguinte:
- CURA DEL MAIALE! CURA DEL MAIALE! CINQUE SETTIMANE È TROPPO LUNGO!
A maldita voz soou inacreditavelmente mais assustadora. “Cuidado com o porco! Cuidado com o porco! Cinco semanas são muito tempo”, a tradução tentava, sem sucesso, sobrepor-se ao som da voz que acompanhava Hércules Leônidas há bem mais que cinco semanas. Logo a voz da tradução desistiu.
Haveriam comprimidos suficientes para dormir ininterruptamente por cinco semanas? Foi o que pensou Hércules Leônidas.
- Cura del maiale! Cura del maiale! Cinque settimane è troppo lungo! – foi o que respondeu a voz.
Haviam duas latas de cerveja quentes na sacola e algumas moedas num dos bolsos. Então veio novamente a idéia que havia sido interrompida momentos atrás.
Parar em alguma padaria, boteco, budega ou coisa que o valha e trocar uma lata quente por uma gelada, dando alguns centavos como complemento.
Era uma idéia genial, que teve que passar por três estabelecimentos antes que fosse posta em prática. Sem a cobrança dos centavos.
A última latinha foi trocada, com o complemento dos centavos que restavam, quando Hércules Leônidas já estava perto da pensão na qual havia se hospedado. Pasou pela recepção, avisando que estava indo ao quarto para pagar a diária. O dono do estabelecimento estava na recepção e interpelou-o:
- Jogamos muito ontem, hein?
- O suficiente para vencer.
- Você vai embora agora?
A pergunta desnorteou de certa forma Hércules Leônidas, que hesitou em responder.
- Não sei se vou agora, mas a diária eu vou pagar – e subiu as escadas em direção ao quarto em que estava hospedado.
Ao chegar, um flashback do hotel em Santiago o derrubou na cama. Não era tão confortável quanto a do hotel em Santiago. Tampouco o chuveiro era tão forte quanto o do quarto do hotel na capital chilena. Mas era bem mais aconchegante do que o banco da Praça do Derby.
Hércules Leônidas desceu, foi até a recepção entregou algumas cédulas ao dono do estabelecimento, voltou ao quarto e dormiu, sem a ajuda de comprimidos, por cerca de catorze horas. Acordou no meio da madrugada, exausto de fome e sede. Por sorte, havia um filtro deágua no quarto. Agachou-se e pôs a boca abaixo da saída do filtro, ingerindo quase um litro de água ininterruptamente. Depois, voltou à cama.
Dormiu até aproximadamente oito da manhã. Levantou-se, tomou outro banho, arrumou seus parcos pertences e saiu do quarto.
Havia pela frente mais uma diária a pagar e 33 dias até o próximo jogo.
O que porra fazer durante 33 dias? Seria melhor dar uma volta pelos arredores para decidir, já que o déficit de sono tinha sido bem reduzido nas últimas horas. Dar uma volta pelos arredores, mas desde que com a conta paga e o não-compromisso de voltar à pousada.
Depois de uns dez minutos de caminhada, Hércules Leônidas percebeu que Adelmar, o motorista torcedor do São Cristóvão que havia lhe dado carona até o Chile havia pagado muito bem pelos estimulantes/antidepressivos. Foi até o terminal rodoviário e logo estava num ônibus a camainho de alguma praia no litoral norte. Não sabia o que faria por lá, nem como arrumaria dinheiro, mas tinha muito tempo para pensar nisso.
A viagem até praia, que deveria durar pouco mais de uma hora, demorou, ao menos na consciência de Hércules Leônidas, muito mais tempo do que todo aquele desde que tinha fugido do Hospital Psiquiátrico de Jaqueira. Duas paradas por problemas mecânicos, três por blitz, uma prisão de um rapaz que carregava uma quantidade considerável de maconha e crack, tudo isso diante de seus olhos. E logo Hércules Leônidas, que carregava consigo, mesmo sem saber por que, uma quantidade consistente de comprimidos proibidos por lei de serem comercializados sem receita médica. Em pouco mais de três horas o ônibus chegou ao seu ponto final, quando já haviam poucos passageiros. Hércules Leônidas foi o último a sair, quando foi interceptado pelo motorista de ônibus.
- Vai para onde, rapaz?
Hércules Leônidas gelou.
- Não lembra de mim, rapaz? Estávamos na Ilha do Retiro, na final da Copa do Brasil.
- Hããããã... ah, lembro. Como é teu nome mesmo? – Hércules Leônidas não soube mesmo disfarçar o lapso de lembranças daquela noite.
- Jairo.
- Isso, Jairo. Que doideira, hein? Fosse pro jogo na quarta?
- Cem paus é meio salgado, né?
- De fato. Nem sei se vai dar pra ir pro jogo com o Palmeiras.
- Pra esse eu vou. Tô juntando grana.
- Massa.
- E tu, cara? Vai passar o final de semana por aqui?
- Sim, vou. Depois volto pro trampo, né?
- Tu trabalha com o quê?
Aquela conversa começava a ficar perigosa. Não é sensato dar informações detalhadas quando se é um foragido de um hospital psiquiátrico.
- Com vendas.
- Tu vende o quê?
Hércules Leônidas teve que inventar uma mentira rapidamente.
- Equipamentos de mergulho. Mas nesse final de semana não vou testá-los.
- Boa. Olha, eu moro na terceira casa daquela rua ali – disse o motorista, apontando para uma esquina onde havia uma pequena banca de jornais e revistas – Qualquer coisa pergunta por Jairo motorista que todo mundo conhece. Deixa eu ir lá, tem mais três viagens hoje.
- Valeu, Jairo. Bom trabalho. Qualquer coisa, eu te procuro.
- Sim, porra, e qual é teu nome mesmo?
- Hércules Leônidas.
- Achei que era Léo. Mas deve ser mesmo – Disse Jairo, que mal esperou Hércules Leônidas descer para começar a manobra do ônibus para o sentido oposto.
Já passava do meio da tarde quando Hércules Leônidas percebeu que estava sem comer nem beber o dia inteiro, exceto por alguns goles de água numa das interrrupções da viagem no ônibus.
Viu uns coqueiros e seus problemas estavam temporariamente resolvidos, à custa do trabalho de arrebentar os cocos nas poucas rochas da praia. Assim que começou a escurecer, acomodou-se na areia, tomou dois comprimidos e logo estava dormindo.
Nos trinta dias seguintes, Hércules Leônidas peregrinou pela praia, ora subindo ao norte, ora descendo de volta, trabalhando em troca de alguns trocados em bares, boates e barcos pesqueiros.
Nesse meio tempo, vendeu alguns comprimidos que o ajudaram a engordar o orçamento e comprar outras camisas do Sport, entre outros itens do vestuário. Dormia na maior parte das vezes na areia da praia, exceto quando achava alguma varanda de alguma casa momentaneamente desocupada
Na manhã da partida contra o Palmeiras, Hércules Leônidas pouco dava atenção à voz que ecoava em sua mente, a despeito do volume ensurdecedor da mesma, que apenas repetia:
- CURA DEL MAIALE! CURA DEL MAIALE! CINQUE SETTIMANE È TROPPO LUNGO!
A viagem até Recife, desta vez, foi curta, rápida e tranqüila.
As horas demoraram a passar até que Hércules Leônidas estivesse no estádio, comprando seu ingresso e entrando sem problemas no estádio. Havia algo estranho.
Público meia-boca, vários clarões em vários setores. Antes da metade do primeiro tempo, numa falha cômica e assustadora, seu time estava perdendo.
A torcida, grande diferencial do time na Copa do Brasil e na partida anterior, aquietou-se.
O segundo tempo e o segundo gol adversário mostraram uma verdade que Hércules Leônidas tinha demorado para se dar conta.
A voz não estava para brincadeiras.
Quarta parte aqui.
Quarta-feira, 08 Abril 09, 09:54 AM
Leia a primeira parte clicando neste link.
Após alguns metros de uma barulhenta e ébria caminhada, Hércules Leônidas pôde finalmente perceber que as vozes “reais” iam diminuindo em volume, embora não em intensidade. Momento propício para as traiçoeiras vozes em sua mente ficassem mais altas. Ensurdecedoras na verdade.
Em segundos, Hércules Leônidas foi ao chão, deitado sobre as próprias pernas, com as palmas das mãos coladas aos ouvidos tentando, com os olhos, focalizar o céu. Soltou berro vindo diretamente das mais profundas entranhas de sua alma.
Uma reminiscência lhe veio à mente, um trecho que ele não tinha se dado conta da suposta verdade e seriedade das palavras de Xico:
“Se tudo lhe parecer louco demais, finja, sempre, normalidade. A loucura assusta a grande maioria das pessoas. A outra parte abraça a loucura ou agem como pessoas assustadas.”
Tentou fingir normalidade, quando lembrou de mais uma frase preciosa de Xico:
“Quando muitas pessoas agirem feito loucas, relaxe, camarada. Não há no mundo nada mais normal que isso.”
Fugir de um hospital psiquiátrico, mensagens misteriosas que só ele ouvia, percorrer milhares de quilômetros de carona usando a mesma roupa, ter uma arma apontada na cara, estrear na Libertadores da América com uma vitória fora de casa sobre um time fortíssimo, cair no meio da rua de um país estranho e soltar um berro mais assustador do que qualquer coisa ouvida por qualquer ser vivo dotado de audição em qualquer parte do universo. Tudo absolutamente normal.
Tão normal que ao abrir os olhos, Hércules Leônidas pôde perceber que algumas pessoas estavam na mesma posição que ele, berrando do fundo de suas almas.
Levantou-se e percebeu que algumas pessoas também se levantavam. Por curiosidade espontânea, Hércules pôs-se a contar quantas pessoas estavam ao seu redor. Catorze.
Cristo teve doze apóstolos. Ali haviam catorze pessoas e ao invés de um monte de macho feio, cabeludo e barbudo e vestindo túnica, ali ainda tinha umas gatinhas, vestindo camisa do Sport. Legal.
A religião é a mais complexa e eficiente forma de paranóia.
O que fazer a milhares de quilômetros de uma casa que Hércules Leônidas não tinha?
- Quer uma? Sport, porra!
Uma bela moça de cabelos negros, pele queimada de sol e olhos azuis havia pronunciado aquelas palavras e carregava uma lata de cerveja em cada mão. Geladíssimas. Entregou-lhe gentilmente.
E a multidão pôs a entrar em táxis, parar nas calçadas esperando seus respectivos ônibus, enfim, se dispersando. Mas os catorze puseram a andar por horas, perambulando nos bares, até que eles fechassem, quando então se dirigiam até outro, e outro e outro e outro. Já era dia, alguns já dormiam mesmo continuando a caminhar, outros pararam numa praça, no que forma acompanhados na atitude.
- Puta merda, Quinho arriou. Onde estamos? Cadê o Mercado da Madalena? Não, isso tá parecendo... Imbiribeira. – disse Yuri, em clarríssimo estágio de delírio alcoólico. Vamos comer uma fava, se não eu vou passar mal.
- Não estamos na Imbiribeira, Yuri. Nem sequer estamos no Recife. Aqui é... algum bairro de Santiago do Chile, se não me engano ou não me falha a memória. Alguém tem um cigarro?
Era a mesma moça que tinha lhe oferecido aquela cerveja que certamente salvou Hércules Leônidas de um novo surto esquizofrênico-desorganizado-catatônico-indiferenciado. Instintivamente, Hércules Leônidas pôs a mão no bolso esquerdo, onde havia um maço de cigarros pela metade.
Algo realmente muito estranho, visto que Hércules Leônidas não fumava.
- Estão meio amassados, mas acho que dá.
- A essa altura do campeonato você acha que isso importa? Tem fogo? Aliás, acho que tenho um isqueiro aqui. Ah, achei. Obrigada – disse a moça, devolvendo-lhe o maço.
- Pode ficar, senhorita. Nem sei o que diabo essa coisa estava fazendo no meu bolso. Eu nem fumo.
- Não fuma mais a partir de hoje? Promessa?
- Não, nunca fumei. Sério.
- Deveria. Estraga o corpo, mas fortalece a alma.
- Boa frase para colocar num maço de cigarros.
A moça deu uma leve tragada e o olhou nos olhos. Havia uma familiaridade entre eles.
- Alguém sabe onde estamos e como fazemos para voltar ao hotel? – A moça falou.
- Lule, como vamos fazer pra Quinho acordar? Vai ser meio difícil carregá-lo – disse Tina, uma moça magricela que usava óculos de aro fino.
Assis, que dormia em um dos bancos, virou de lado para vomitar, voltou à posição original e adormeceu novamente.
A estranha voz que ecoava na mente de Hércules Leônidas voltou a se manifestar naquele momento, num tom diferente, como se cobrasse alguma coisa:
TURN OFF THE LEAGUE! THIRTEEN DAYS! AT HOME!
Hércules Leônidas demorou a perceber que apenas ele podia ouvir aquela voz e que todos estranharam quando ele começou a olhar para cima e para os lados, como que procurando alguma coisa. Só não sabiam que o que ele procurava era apenas de onde vinham as vozes. Hércules Leônidas apontou para uma das esquinas. Havia um ponto de táxi, com dois veículos parados enquanto outro chegava.
Estavam ali há cerca de meia hora e sequer tinham percebido que a alguns metros deles estavam os táxis.
TURN OFF THE LEAGUE! THIRTEEN DAYS! AT HOME!
Todos se dirigiram até os táxis. Yuri deu uns tapas no rosto de Assis:
- Acorda, féadaputa! Voltar pro hotel, porra.
Quinho não acordou e precisou da ajuda de Cleiton, que apesar do porte físico adequado para carregar o balofo do Quinho, mal se agüentava em pé. Pediu ajuda a Pina Doido, que tinha um copo na mão, cujo conteúdo nem ele, Pina Doido, sabia exatamente o que era. Largou num dos bancos da praça e foi ajudar.
Seria preciso dividir o grupo em quatro, para serem distribuídos nos táxis. Rapidamente foram criadas “categorias” assim denominadas na voz suave, rouca e ordeira de Lule:
- Perda Total: Quinho, Assis, Laurinha e Maria Chapa-o-coco
Gargalhadas de todos, menos de Quinho, que já estava acomodado no primeiro táxi, às custas de muito esforço de Pina Doido e Cleiton. Assis vomitou mais um pouco e atrasou-se no coral das gargalhadas vitoriosas.
- Tá brabo: Tina, Chico Pinga, Marilu e Yuri.
Mais gargalhadas.
Yuri, caçula do grupo, reclamava de sua inclusão no grupo.
- Que nada, por mim eu tomava mais uma. Sport, porra!
- Sujeitos à observação: Lule, esta que vos fala, Hélio Caô e Toinho.
Mais gargalhadas, mais contidas.
E, finalmente, um nome em homenagem a meu irmão Yuri, o grupo:
- “Por mim eu tomava mais uma”: Cleiton, Érico Negão e Pina Doido.
Em que categoria Hércules Leônidas se encontrava? Aliás, o que todos devem ter realmente pensado é “Quem diabos é esse maluco?”.
- Em que hotel você está?
- Você é de Recife?
- Veio como?
Passara a noite inteira entre eles e nada sabia sobre eles, mal sabia seus nomes e, por instante, lembrou que não houve conversas, apenas celebração. E a soturna retumbante voz voltou a ecoar com mais força na mente de Hércules Leônidas. Desta vez, a voz parecia estar de zombaria, sacanear, tirar sarro mesmo, falando no ritmo de uma famosa canção de alguma famosa banda de rock inglesa.
TUUURN OFF THE LEAAAAAGUE! TURN OFF THE LEAAAAGUE! THIRTEEN DAYS! AT HOME! TUUURN OFF THE LEAAAAAGUE! TURN OFF THE LEAAAAGUE! THIRTEEN DAYS! AT HOME!
Passou-se um longo instante até que Hércules Leônidas respondesse:
- Eu sou Sport, porra! Pelo Sport nada!
O grupo respondeu, em uníssono,
- Tudo!
Pelo Sport nada!
- Tudo!
Então como é que é, como vai ser, e como sempre será?
Até a voz misteriosa que ecoava na mente de Hércules Leônidas 24 horas por dia, em regime permanente, silenciou por alguns instantes:
- Cazá, cazá, cazá cazá cazá, a turma é mesmo boa, é mesmo da fuzarca. Sport, Sport, Sport! – gritava o grupo, provocando as primeiras manifestações de reprovação dos dedicados trabalhadores chilenos que tinham seu sono interrompido naqueles preciosos quinze minutos antes da hora em que o despertador costumava tocar, às seis e meia da manhã. Era hora de voltar para casa. Mas que casa?
- Posso pegar uma carona com vocês? Cheguei em cima da hora do jogo, não fiz nem reserva em hotel – Disse Hércules Leônidas.
- Ôxe, cola com a gente, veio. Lá do hotel tu resolve. Tu é de que bairro lá de Recife? – perguntou Yuri.
Esta pergunta era realmente desafiadora.
- Nasci em Recife, mas não moro lá já há algum tempo – respondeu Hércules Leônidas.
- Porra, será que sou eu que vou ter que perguntar o teu nome? – falou Pina Doido, curioso e até certo ponto, desconfiado.
- Hércules Leônidas.
Um por um, foram apresentados por Hélio Caô. Naquele momento, Hércules Leônidas tinha, formalmente, catorze novos amigos
Então, com a chegada do quarto táxi, Lule começou a distribuir quem iria em cada táxi, equacionando o nível de embriaguez da turma. Quinho, já devidamente acomodado, Marilu, Érico Negão e Hélio Caô iriam num táxi, Pina Doido, Laurinha, Tina e Toinho noutro.
- Cleiton, você vai com Chico Pinga, Maria Chapa-o-Coco e Assis – indicou Lule – você, Leônidas, pode vir comigo e com meu irmão Yuri. Acho que Chico Pinga e Assis estão num quarto triplo, então dá pra você dormir na cama que sobra lá.
E os táxis se dirigiram ao hotel, levando o grupo. Nos aproximadamente vinte minutos que durou a viagem, conversa se limitou a Yuri fazendo perguntas sobre onde estava a bagagem de Hércules Leônidas, onde ele morava, o que fazia da vida, coisas que um jovem de 19 anos perguntaria a um maluco que ele encontrou no jogo do Sport pela Libertadores da América contra o Colo Colo no Chile. Lule conversava em espanhol fluente com o taxista Cristóban, que logo apelidou a si mesmo de “Tristóban”. Ele era torcedor do Colo Colo desde a infância e logo disse que, sempre que podia, ia aos jogos. Esteve no David Arellano na noite passada. Estava atrás da trave onde saíram os três gols da partida.
- Que la bola no entró
- La pelota no entrió. Yo estaba detrás de la barra. No entrió!
As gargalhadas tomaram conta de todos, inclusive de Cristóban.
- Pero hermoso comienzo de otro día de trabajo.
O quarteto de táxis chegou ao hotel e, como era de se esperar, todos desceram. Antes que Hércules Leônidas fizesse qualquer menção a contribuir em dinehiro para pagar o táxi, Lule já estava com o “troco” dos outros táxis ao qual juntou com notas de dinheiro chileno que ela tirou de um dos bolsos. Logo Hércules Leônidas estava com bermuda, cueca, camisa e até um par de de meias limpas doadas por seus velhos novos amigos.
Chico Pinga e Assis dispensaram o banho e caíram na cama. Hércules aproveitou ter banho à disposição e passou uns bons quinze minutos debaixo da forte água do chuveiro do hotel.
Caiu feito um saco de batatas sobre a cama. Eram 7:37 da manhã. Dormiu por quase dez horas sem interrupção.
Ao acordar, viu que Assis ainda dormia e Chico Pinga não estava. Juntou sua roupa usada, enfiou na sacola e logo estava num ônibus até a rodoviária.
Conseguiu comprar uma passagem para Foz do Iguaçu. Graças a verdadeiros documentos falsos que Xico tinha arrumado, junto com os comprimidos, o dinheiro e a velha camisa do Sport, a essa altura mais suja ainda. Nesse tempo inteiro, ninguém tinha pedido algum documento. O atendente do guichê foi o primeiro. O ônibus sairia na manhã seguinte e Hércules Leônidas ficou zanzando pela rodoviária e arredores até o início da madrugada, quando a voz voltou a ecoar mais forte em seu cérebro.
TURN OFF THE LEAGUE! TWELVE DAYS! AT HOME!
Pegou seus pertences no guarda-volumes e foi até uma banca de revistas da rodoviária. Viu um Guia da Libertadores em espanhol e foi à página da Liga Deportiva Universitária, a tal LDU.
“Desliga a Liga, doze dias, em casa”, estava explicado. Sacrificou parte de seu parco dinheiro na compra da publicação. Folheou a publicação, e tirou uma soneca até o amanhecer. Pegou o ônibus e seguiu acordado até a parada para almoçar. Voltou ao ônibus e engoliu dois tranqüilizantes. Dormiu por 16 horas seguidas. A viagem pareceu mais demorada que a de ida, com várias inspeções da polícia rodoviária. Ninguém achou seus comprimidos e logo ele estava desembarcando em Foz do Iguaçu.
Não demorou muito e foi até um posto de gasolina. Grande, com vários caminhões estacionados. Passava por um, depois outro motorista e todos o olhavam com estranhamento. No reflexo, percebeu que estava com a barba meio grande e alguns dias sem banho. Era melhor ficar mais apresentável. Foi fazer a barba e tomar um banho.
Ao sair do banho, foi à lanchonete. Estava com fome e pediu um sanduíche e um café forte e sem açúcar. Um homem de aproximadamente 35 anos o abordou.
- E aí, cara. Era você que estava com o Cristóvão de São Cristóvão em Matelândia alguns dias atrás?
Hércules Leônidas o olhou e não reconheceu.
- Não lembra não, porra? Descarregamos o caminhão, não lembra? – disse-lhe o homem.
Aquela constatação era o cúmulo da conveniência.
- Vai pra onde desta vez?
- Recife, respondeu Hércules Leônidas.
- Posso te dar uma carona até São Paulo. Ajuda?
- Muito.
Logo estava no caminhão guiado por Leonardo Severino, piauiense e evangélico. Sim, teria que ouvir hinos religiosos no som do caminhão até São Paulo. E ajudar a carregar e descarregar o caminhão, o que tomaria dois dias a mais. Aproveitou uma das paradas e cortou o cabelo. O homem pouco falava, concentrado na estrada e no volante. Mesmo assim, a viagem seguiu sem problemas.
Chegaram em São Paulo dois dias depois. Hércules Leônidas logo se informou de que poderia ser difícil conseguir carona e que seria mais rápido ir de ônibus. Mas, ante a reserva de dinheiro que carregava, seria um risco grande ir de ônibus convencional.
Logo conseguiu informações sobre ônibus “alternativos” com passagens mais em conta e riscos exponencialmente maiores. Foi ao bairro de Santo Amaro, de onde saíam esses ônibus.
Desta vez, apelou forte nos tranqüilizantes. Não agüentava mais estrada, poeira, buracos, inspeções, checagem de documentos. Só queria chegar ao Recife e “desligar a Liga”.
TURN OFF THE LEAGUE! SIX DAYS! AT HOME!
Pelos seus especulativos cálculos, chegaria faltando dois ou três dias para o jogo. O ônibus quebrou três vezes no caminho, atrasando a viagem. Hércules Leônidas acabou chegando no Recife na manhã da véspera do jogo.
Percebeu que ainda conhecia bem a cidade, apesar das tentativas de lavagem cerebral sofridas no Hospital Psiquiátrico de Jaqueira. Foi à praia, mas evitou a Ilha do Retiro e arredores, por medo de sofrer um surto provocado por algum flashback.
Zanzou por várias ruas no bairro de Boa Viagem e perto do anoitecer, pegou um ônibus para um bairro mais humilde, onde conseguiria hospedagem a preços mais baixos.
Achou uma pousada num bairro na zona norte da cidade. Foi dormir por volta das nove da noite e teria que sair às sete da manhã. Para passar o tempo, resolveu ir a pé até o estádio da Ilha do Retiro, chegando lá no final da manhã. Seu dinheiro mal complementava o valor do ingresso. Comprou-o na bilheteria e sobraram alguns trocados, que davam para o almoço. Foi então para a praça do Derby, onde havia sombra e alguns bancos. A hora do jogo demorava a chegar e ele acabou entrando quatro horas antes do início da partida. E não parou de berrar um segundo até o início da partida.
Era verdade. Ele estava de volta à Ilha do Retiro, quase nove meses depois. Estava num local próximo ao que esteve no jogo contra o Corinthians. E só esperou 13 minutos para gritar gol, numa bola chutada por Daniel Paulista que entrou na barra oposta ao lado onde estava. Viu seu time manter o controle da partida, apesar do equilíbrio. Afinal, do outro lado estava o atual campeão do torneio. Que no segundo tempo teve seu goleiro expulso após cometer pênalti no camisa 10 do Sport. O tal camisa 10, Paulo Baier, chutou forte no meio do gol para fazer 2x0. Depois, foi só esperar o apito final e se assustar um pouco com a pressão da LDU.
Ao final do jogo, olhou para o céu, esperando que a voz ecoasse novamente com alguma frase misteriosa. Perguntou a um senhor que estava ao seu lado:
- E agora, jogamos contra quem?
- Pelo Campeonato Pernambucano, não lembro direito. Pela Libertadores, contra o Palmeiras, daqui a cinco semanas.
- Cinco semanas? – perguntou Hércules Leônidas, em tom assustado – E o que raios eu vou fazer até lá?
O senhor olhou com estranhamento para Hércules Leônidas, como que respondendo “E eu lá sei”. Hércules Leônidas percebeu a quase gafe e continuou berrando a plenos pulmões.
Ficou no estádio até que as luzes começaram a apagar. Esperou todos saírem sendo convidado a se retirar quando só sobrava ele de torcedor em todo o estádio. Do lado de fora, alguns torcedores esticavam o expediente de trabalho dos vendedores de cerveja. Deveriam ser umas três da manhã. Sem casa, sem dinheiro, sem fonte de renda. E, ao menos por enquanto, sem vozes ecoando na cabeça. O que fazer nas cinco semanas que faltavam para a próxima partida pela Libertadores? Havia ainda o risco de surtar, se envolver em alguma besteira ou simplesmente que a sorte se afastasse por um tempo. Afinal de contas, um fugitivo de hospital psquiátrico com documentos falsos não é um alvo tão difícil. Adormeceu na praça do Derby, sendo acordado ao amanhecer por um policial uniformizado. Seria descoberto, tinha certeza.
O policial educadamente pediu-lhe que não dormisse mais no banco da praça. A sorte não tinha lhe abandonado.
Era preciso encontrar algo para preencher os 34 dias até a próxima partida. E se preparar para quando as misteriosas vozes voltassem a ecoar.
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Quarta-feira, 04 Março 09, 11:30 AM
Ninguém sabia ao certo quem era ele. Para os médicos, era apenas o paciente 130505, como constava em seu prontuário. No tal prontuário algumas informações como:
“Data de entrada: 15 de junho de 2008”
“O indivíduo foi encontrado na esquina das ruas (nome omitido por exigência do editor) e (mais um nome omitido por exigência do editor, seja lá quem for), balbuciando palavras e expressões incompreensíveis em vários idiomas estrangeiros, dentre os quais foi possível identificar os idiomas espanhol e arabe. O referido indivíduo exalava um odor desagradável, provavelmente resultante de vários dias sem banho, além de encontrar-se em avançado estado alcoólico.”
“O referido indivíduo foi encaminhado ao 21º Distrito Policial, sob a acusação de perturbação da ordem pública, além de não possuir em seu poder nenhum documento de identificação. Ao ser questionado a respeito de informações pessoais básicas como nome, endereço residencial e profissão, alternou longos momentos de silêncio e introspecção com gestos bruscos, movimentos desconexos e repetição de frases sem sentido, sendo ‘Sou descendente de São Guilherme’ e ‘Tenho uma missão, ninguém pode me impedir’ as mais repetidas”
“Em nenhum momento do período de 36 horas em que permaneceu no distrito policial o indivíduo apresentou comportamento agressivo ou ameaçador para quem quer que fosse. Tampouco recebeu visitas, além de ter se recusado, de forma amistosa, a realizar telefonemas, alimentar-se, e realizar procedimentos básicos de higiene pessoal.”
“Pelo fato de o referido indivíduo ter apresentado sinais claros de desequilíbrio emocional, não ser procurado por amigos ou familiares nem mesmo possibilitado sua identificação, foi solicitado pelo Sr. Delegado do 21º Distrito Policial a transferência do indivíduo para este Hospital, na data referida no cabeçalho deste prontuário.”
“Sem mais,”
- Derrotar o Cacique! Derrotar o Cacique! Derrocar al Cacique! Derrocar al Cacique!!!
Há meses que Hércules Leônidas estava internado no Hospital Psiquiátrico, e quase nunca apresentava progressos do ponto de vista psico-clínico. Apresentava sinais claros e preliminarmente diagnosticados como Esquizofrenia Desorganizado-Catatônico-Indiferenciada. A intrigante frase que ecoava em sua mente era apenas mais uma dentre as tantas frases e vozes que alguém com seu diagnóstico é capaz de ouvir.
- Derrocar al Cacique! Derrocar al Cacique! Derrotar o Cacique! Derrotar o Cacique!!! – a frase, ora em espanhol, ora em português começou a ecoar com mais força na mente de Hércules Leônidas. Os diferentes tons das várias vozes começaram a ecoar. Assustado, ele optou por omitir tal sintoma em todas as avaliações psicológicas e psiquiátricas às quaias era submetido. Num dado momento, passou a ouvir a frase ininterruptamente, 24 horas por dia, estivesse acordado ou durante o sono.
Aquilo realmente começou a preocupar. E também a dar na vista até do mais delirante interno, se é que houvesse alguém num estado de distanciamento da realidade do que Hércules Leônidas. Até que a comissão de médicos resolveu que cinco internos passariam por um tratamento experimental que se propunha a ser revolucionário para a história da psiquiatria. Uma combinação de medicamentos de novíssima geração com técnicas tradicionais e consagradas para tratamento de malucos, clinicamente falando.
Num rasgo de lucidez, numa epifania comparável à visão nítida de que Deus e Jimi Hendrix são a mesma pessoa, Hércules Leônidas percebeu que seria cobaia. Conseguiu começar a se comportar quase como uma pessoa normal, a despeito da misteriosa frase que continuava a ecoar com cada vez mais força em seu cérebro. Derrotar o cacique, derrocar al cacique! 33 Sul, 70 Oeste! Derrocar al cacique! Derrotar o cacique! 33 Sul, 70 Oeste! Agora a mensagem tinha uma novidade em seu enunciado, que em nada ajudava a compreendê-la.
Por conta do tratamento, Hércules Leônidas teria que ser retirado da única atividade de integração social dos detentos da qual participava: o jogo de futebol dos doidos, por assim dizer. Afinal, não havia traves, nem marcação de campo, nem equipes definidas. Os internos chutavam a bola de um lado para o outro ou uns nos outros até que alguém dava um chutão para qualquer lugar, gritava gol! e parte dos participantes corria para comemorar com o “artilheiro”. Também haviam os “goleiros”, que se atiravam aos pés dos internos para interceptar a bola e gritar “Defendeu!”, sob aplausos e xingamentos dos participantes e expectadores.
Foi alguns dias antes de começar o novo tratamento que Hércules Leônidas, encostado numa das árvores do pátio, começou a conversar com um outro interno, conhecido como Xico. Houve surpresa dos funcionário que observavam a cena: nunca em seus mais de seis meses como interno, Hércules Leônidas tinha sido visto conversando com alguém por mais de três minutos. Nem mesmo com os médicos.
Xico não era maluco ou deficiente mental. Longe disso. Xico adquiriu certo status no submundo do crime como estelionatário, falsário, trambiqueiro e charlatão de primeira linha. Até que uma tentativa de golpe num chefão acarretou numa sentença de morte, que o obrigou a optar entre aceitá-la e disfarçar-se de esquizofrênico. Algumas ligações de seu advogado, documentos falsos e sua habilidade teatral nata o salvaram da morte e o levaram ao Hospital Psiquiátrico de Jaqueira.
Uma vez aceito o disfarce, Xico tinha que esforçar-se para mantê-lo. Simulava surtos dia sim, dia não, e às vezes dia sim e outro também. Punha as própria fezes na boca. Banhava-se com a própria urina. Mordia as pontas dos dedos até deixá-las em carne viva. Mas de doido não tinha nada, a não ser a compulsão de cometer atos ilegais sem motivação financeira (afinal estava num manicômio e não em um presídio) apenas por satisfação pessoal.
Numa dessas, conseguiu contrabandear algumas revistas e jornais, relativamente recentes, além de cartas aos internos que eram retidas pela administração do hospital e uma meia dúzia de livros. Era terminantemente proibido que os internos mantivessem contato com o mundo externo. Nunca se soube ao certo como Xico conseguiu, mas as conseqüências de tal ato foram muito, muito graves. Mas Xico jamais seria descoberto.
As revistas, jornais, cartas e livros circularam por pouco mais de oito horas. Um jornal, datado de três dias antes foi lido sem muito interesse por Hércules Leônidas. Passou os olhos por várias matérias, sem se deter em nenhuma. Até que veio a bomba, a caixa de Pandora das reminiscências de Hércules Leônidas de Aquino, o paciente 130505.
DIVULGADA A TABELA DA COPA LIBERTADORES DA AMÉRICA 2009
A Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) divulgou nesta terça-feira, em seu site oficial na internet, a tabela da copa libertadores da América 2009, com datas e horários, das duas primeiras fases da competição: a “Pré-Libertadores”, como é conhecida no Brasil e primeira fase, e a fase de grupos. (...) O Sport Recife, campeão da Copa do Brasil 2008, estreará fora de casa contra os chilenos do Colo Colo, no dia 18 de fevereiro, às 21:50 (horário de Brasília)
Num átimo, Hércules Leônidas lembrou-se de tudo. Do porre antes da final contra o Corinthians. Os 2x0 que selaram o título do Sport e, indiretamente, decretaram sua ida para o hospital psiquiátrico da Jaqueira. Sim, ele estava na Ilha do Retiro, atrás da trave oposta ao placar, a mesma trave onde Carlinhos Bala e Luciano Henrique marcaram os gols que deram a vitória e o título. Ao menos ele julgava ter estado lá. Só não lembra o que aconteceu no intervalo de tempo entre sua saída do estádio e a chegada ao hospital psiquiátrico. Não lembrava dos atos de vandalismo, das atitudes impensadas, como ir uniformizado durante a madrugada até a sede de um clube rival na cidade e defecar nas mãos e atirar a merda contra a bandeira e os muros do mesmo clube. Nem das quantidades de colossais de bebida alcoólica que consumiu nas horas anteriores subseqüentes à partida, que quase o levaram ao estado comatoso. Nem de ser encontrado em estado deplorável e ser levado à delegacia, de onde seguiu, sem identificação amigos ou parentes, para o Hospital Psiquiátrico da Jaqueira.
As lembranças foram retornando na mesma proporção que o volume da voz aumentava:
DERROTAR O CACIQUE! DERROCAR AL CACIQUE! 33 SUL, 70 OESTE!
No jornal, havia uma gravura com escudos dos times brasileiros e seus adversários na primeira rodada da Libertadores da América. Ao se deparar com escudo do Colo Colo, viu a imagem de um índio. Só podia ser o tal cacique da voz que ecoava insistentemente em sua cabeça. Mas o que seria 33 Sul, 70 Oeste.
Hércules Leônidas percebeu que entre os livros “contabandeados” por Xico estava um atlas. Sim, aquele livro com mapas era um dos mais disputados pelos internos. Hércule Leônidas tomou o livro das mãos de um dos internos de forma brusca e um tanto agressiva:
– Calma, eu já devolvo – disse ao interno, que parecia assustado e não era para menos.
Procurou o mapa da América do Sul e localizou a cidade de Santiago: 33 graus de latitude sul, 70 graus de longitude oeste. Sim, ele ainda lembrava o que eram coordenadas geográficas. São indicações que permitem localizar qualquer ponto do globo terrestre. Mas o atlas não tinha a o detalhamento suficiente para localizar a pequena cidade de Jaqueira, em cujo território localizava-se o hospital o qual tornou-se o lar de Hércules Leônidas nos último seis meses.
Finalmente entendeu a mensagem, que por sua vez não cessava de ecoar em seu cérebro. Ele, Hércules Leônidas de Aquino, torcedor fanático do Sport Club do Recife, teria que ir até Santiago do Chile “derrotar o Cacique”. Havia pouco mais de um mês para chegar até lá e ele se encontrava num hospital psiquiátrico, próximo a iniciar um tratamento experimental. Era preciso fugir dali, de qualquer forma, mas vivo.
As revistas, jornais, cartas e livros foram recolhidos pela administração e logo o Hospital Psiquiátrico de Jaqueira. Entretanto, Hércules Leônidas conseguiu esconder o atlas. Começava ali o plano de fuga, que teria que contar com a ajuda preciosa de Xico, que empolgou-se com o plano do colega logo que ele relatou:
– Sim cara, posso te ajudar a fugir daqui. Se pudesse, fugiria também – disse Xico, em voz baixa para que os monitores não percebessem.
– Por que você não vem?
– Cara, eu também torço para o Sport. Sei que tem torcedor do Náutico e Santa Cruz aqui. Ele vão secar nosso time. Serei o pára-raios da secação aqui no hospital.
– Não entendi.
– Deixa pra lá. Tratemos de organizar sua fuga. Tenho as escalas de horários de todos os médicos, enfermeiros e funcionários daqui. Meu advogado me arrumou. Nunca diga a ninguém que tenho advogado, ou dou um jeito de mandar matarem você.
– OK.
– É o seguinte. Daqui a dois dias, um doutor recém-formado vai cobrir a folga do doutor Pacheco, o bafo de onça. Apenas tenha o cuidado de não tomar o remédio para dormir.
– Já faço isso há um bom tempo. Tenho vários comprimidos escondidos. Nunca lembro de dar um jeito de fazê-los sumir.
– Ótimo. Pode servir como moeda na viagem, se o dinheiro não der. Você faz isso só com os remédios de dormir?
– Faço com quase todos. Só engulo quando médico enfia goela abaixo. Fiquei craque na técnica de fingir que engole e esconder embaixo da língua.
– Muito bem. Dê-me todos. Vou separar os antidepressivos dos sedativos, os estimulantes dos calmantes. Vai facilitar.
– Certo, como faremos para que eu fuja?
– O monitor ta de olho em nós. Vamos cada um para seu quarto. Amanhã continuamos.
O dia da véspera da fuga transcorreu numa calmaria incomum. Não houve problemas entre os internos, os monitores relaxaram e Hércules Leônidas e Xico puderam traçar o o plano com detalhes: o médico chegaria às 18 horas do dia seguinte e avaliaria os pacientes individualmente. Xico iria surpreendê-lo com algum comportamento estranho, enquanto Hércules Leônidas imobilizaria o médico para que Xico pusesse um pano encharcado de clorofórmio na boca do médico. Não se sabia como Xico conseguiria o clorofórmio, mas a verdade é que ele tinha um vidro enorme da substância. Com o médico desacordado, ambos tirarariam suas roupas, seu jaleco e sua valise. Hércules Leônidas sairia disfarçado de médico, assinaria uns papéis sob o olhar involuntariamente conivente de um segurança sonolento e ébrio, o verdadeiro doutor acordaria com dificuldades de lembrar o que aconteceu e até darem pela falta de Hércules Leônidas e do envolvimento de Xico, Hércules Leônidas já estaria longe e o advogado de Xico já teria arrumado alguns cheques e maços de dinheiro para que tudo se mantivesse dentro da normalidade. Também era importante que Hércules Leônidas estivesse com os cabelos cortados e a barba feita. Por uma conveniente e cósmica coincidência, a manhã do dia da fuga era dia de corte de barba e cabelo.
E foi desta forma que aconteceu, com o acréscimo de um pequeno detalhe. Antes de sair, Xico entregou um embrulho para Hércules Leônidas. Foi taxativo.
– Só abra o pacote quando estiver em segurança.
A fuga transcorreu sem problemas, e Hércules Leônidas caminhou por aproximadamente 10 km, já sem o jaleco, que tinha abandonado a alguns metros da entrada do hospital. Caminhou sem direção definida, mudou de rumo várias vezes, recuando, tudo para despistar eventuais perseguidores. Percebeu estar seguro, sentou-se e abriu o pacote entregue por Xico. Nenhum bilhete, apenas dois sacos de comprimidos, um com a etiqueta estimulantes/antidepressivos e outro com escrito calmantes/tranqüilizantes, uma boa quantia de dinheiro e uma velha e gasta camisa do Sport. Hércules Leônidas vestiu-a imediatamente e continuou a caminhar até o amanhecer. A esta altura, encontrou uma auto-estrada e não demorou muito para encontrar um posto com uma pequena pousada. Dirigiu-se ao escritório e logo perguntou ao funcionário:
– Pra que lado fica Santiago do Chile?
O funcionário tentou sem sucesso disfarçar o riso. Hércules Leônidas lançou-lhe um olhar intimidador e o funcionário prontamente respondeu-lhe, indicando os pontos e rotas no imenso mapa do Brasil
– Você vai até a cidade de Valquíria e pega um ônibus até São Paulo. Tem um caminhão saindo agora pela manhã até Valquíria. De lá, você pega um ônibus até São Paulo. De São Paulo em diante, é contigo.
O funcionário ofereceu um café e perguntou se Hércules Leônidas queria comer alguma coisa. O café foi prontamente aceito acompanhado de algumas torradas um tanto passadas de ponto e de tempo. Ambos se dirigiram a um dos caminhões parados no posto, cujo motorista, um senhor alto e barbudo fumava um cigarro à frente do veículo antes de partir para a viagem.
“Fique quieto e não fale nada além de responder o que ele te perguntar. Mas só depois que você entrar no caminhão. Agora, só eu falo. Esses caras são muito desconfiados”, falou em voz baixa o funcionário.
– Seu Adelmar, pode dar uma carona a esse caboclo aqui até Valquíria? Ele quer pegar um ônibus pra São Paulo.
Adelmar fitou Hércules Leônidas com ar de desconfiança por um breve momento e concordou, acenando com a cabeça.
Já estavam há uns quinze minutos na estrada quando Adelmar perguntou se ia até São Paulo atrás de trabalho. Hércules Leônidas disse que não, que São Paulo era apenas uma escala numa longa viagem semi-peregrina até Santiago do Chile. Disse também que se dependesse dele, faria todo caminho a pé, mas não havia tempo. Adelmar perguntou que objetivo tinha Hércules Leônidas nessa viagem, mas este foi evasivo, limitando-se a dizer que iria encontrar um cacique em Santiago. Adelmar não fez muito esforço em entender e perguntou por que não levava bagagem
– O que eu precisar, compro no caminho ou quando chegar lá.
– Você tem data fixa para chegar?
– Preciso estar em Santiago no dia 18 de fevereiro. Quantos dias tenho? Nunca fui muito bom de matemática.
– Exatamente uma semana. Como você pensa em chegar? Vai pegar avião em São Paulo?
– Sem chance, sem dinheiro e sem coragem.
A viagem até Valquíria durou cerca de duas horas, em meio a conversas sobre a vida, a estrada, o calor, comentários sobre barulhos estranhos no motor do veículo, esse tipo de coisa. Ao se aproximar da rodoviária, Adelmar perguntou a Hércules Leônidas:
– Cara, quer seguir de carona? Pode te ajudar a economizar grana. Vou entregar essa carga daqui a oitocentos quilômetros, pegar outra carga e seguir descendo a estrada. Só vou parar lá perto da fronteira com o Paraguai. É mais perto de Santiago do que São Paulo. De lá tento falar com algum colega que vá até mais perto. Encara?
– Quanto tempo vai durar?
– Onde vou descarregar dá pra chegar hoje a noite. Entregamos a carga e vamos buscar a outra amanhã de manhã. Daí, mais uns três dias até a fronteira. De lá você terá três dias para chegar em Santiago no dia 18. O que acha?
– Vamo nessa.
Hércules Leônidas ajudou no desembarque das cargas e no embarque das novas cargas. Tomou cerveja depois de oito meses de abstinência psiquiátrica. Riu. Gargalhou. Até conversou sobre futebol. Descobriu que Adelmar era torcedor do São Cristóvão, graças às histórias que o avô de Adelmar contava sobre o time campeão carioca de 1926 (em breve será outra vez) e que seu novo amigo esteve no estádio que leva o nome de seu xará, numa vitória do Sport sobre o Baraúnas do Rio Grande do Norte no Campeonato do Nordeste de 1999.
– Putz, cara eu estive neste jogo. Será que lembro quanto foi o placar?
– Três chances para você, Sr. Hércules Leônidas.
– Putz, foi uma goleada, 7 a 2, acho.
– Saquei a sua Hércules Leônidas. Esse papo de encontro com o cacique e tal. Data fixa para chegar. Você com essa porra dessa camisa do Sport o tempo todo. Tu vai é pra estréia do teu time na Libertadores da América. Não sei porque esse pé atrás pra dizer. Você deve ter seus motivos. Não se preocupe, nem que eu te pague uma passagem de ônibus você vai estar em Santiago no dia 18.
– Cara, você não pode estar falando sério.
Esta sete palavras provocaram uma freada brusca. Adelmar sacou uma .357 que estava debaixo do assento e seu semblante se alterou.
– Olhe aqui, seu filho da puta, eu já matei dois caras na minha vida – o motorista estava visivelmente irritado – e nunca fui sequer indiciado. Um tentou me roubar, o outro desconfiou de mim. Quer ser o terceiro?
– Não, não – os resquícios da catatonia ajudaram a manter a calma – tudo bem, acredito em você, mas você pode tirar esta arma do meu rosto?
Adelmar acalmou-se e deu partida no veículo:
– Vamos embora que tem muita estrada pela frente.
A viagem seguiu calma, contemplativa e silenciosa até uma cidade próxima à Foz do Iguaçu.
– Vou te levar até Foz. De lá você consegue ônibus ou carona para Santiago. Te despacho e volto para fazer a entrega. Se tiver ônibus que chegue lá no dia 18, pago tua passagem. Se não, te arrumo uma carona ou dou um jeito de te levar até lá.
– Mas não é melhor descarregar antes?
Adelmar pegou a arma. Hércules Leônidas ficou quieto e o motorista guardou a arma de volta.
Por sorte ou mera coincidência, havia um ônibus saindo em duas horas, que tinha chegada prevista para a madrugada do dia 18.
– Cara, você pode até me matar, mas quero dar um jeito de retribuir à sua gentileza e confiança.
– Qual é a proposta?
– Tenho uns 40 comprimidos de estimulantes aqui. Coisa boa, roubada de um hospital psiquiátrico.
– Mostre.
Hércules Leônidas tirou o saquinho de um dos bolsos. No outro estavam os calmantes. Adelmar pegou o pacote, tirou uns três comprimidos e analisou-os atentamente.
– São dos bons mesmo. Entendo disso. Usei durante 15 anos, hoje sou fornecedor free lancer pros meus colegas. Vou te dar uma grana por eles. Não aceito nenhuma coisa pela qual eu não tenha pago.
– Não precisa.
– Ou você leva a grana ou leva uma bala na cabeça. Escolha.
– Tudo bem, primeira alternativa. Tenho uns calmantes também.
– Esses você leva. Serão necessários para a viagem. Daqui até Santiago é um pé no saco. Tome uns três e durma durante todo o trajeto. Minha dica. Tome o dinheiro.
Hércules Leônidas tomou o ônibus. Três calmantes poderia ser suicídio, dois um exagero. Tomou um e dez minutos depois já estava no décimo sono, estado no qual permaneceu até ser acordado aos sacolejos pelo motorista de ônibus, após todos os outros passageiros desembarcarem no terminal rodoviário da capital chilena, às quatro horas da manhã do dia 18 de fevereiro de 2009.
Havia quase um dia inteiro até a hora da partida. Logo Hércules Leônidas descobriu que dali a cerca de duas horas sairia um ônibus que passaria nas proximidades do Estádio Nacional do Chile. Conseguiu trocar seus reais por pesos e aguardou o ônibus. Chegou antes do horário de abertura das bilheterias. Caminhou ao redor do estádio. Um sujeito o abordou:
– Entradas para el partido de Colo Colo.
– No, para el partido de Sport Recife.
– Mi amigo, yo soy hincha de Universidad Catolica. Voy vender a usted el precio de taquilla.
– Tequila. Yo aceito.
– No, no. El precio de taquilla. Usted brasileños hablan bilheteria.
– Cierto, cierto.
Hércules Leônidas comprou ingresso e sentou-se encostado ao muro do estádio. Até que o cambista o avisou que o jogo seria no David Arellano e explicou-lhe, em portunhol sofrível, como chegar ao estádio.
Faltavam cerca de oito horas para o início da partida quando Hércules Leônidas avistou um grupo de torcedores do Sport chegando ao David Arellano. Estavam com dois enormes isopores lotados de cerveja. Trajando sua surrada camisa vermelha e preta,foi logo convidado a juntar-se a eles. As cervejas se sucediam e, aos poucos, os torcedores tornaram-se dezenas. Centenas. Milhares. Cerca de três mil. Dez vezes menos do que os anfitriões.
Entraram no estádio faltando pouco mais de meia hora para a partida começar. Hércules Leônidas sentia-se completamente embriagado. A caixa de Pandora das reminiscências abriu-se novamente e ele se viu delirando dentro de uma delegacia qualquer chilena. Delírio. Paranóia. Catatonia. Esquizofrenia. Duas latas de coca-cola cedidas pelos novos amigos o acalmaram.
Apito inicial. Os “caciques” faziam um barulho ensurdecedor. Hércules Leônidas não descolava o rosto da grade do alambrado. Seis minutos se passaram e Hércules Leônidas por uma fração de segundo pareceu ter visto algo que ninguém mais viu. Pulou, berrou, correu pelos degraus da arquibancada.
A bola de chutada por Ciro não balançou a rede, mas atravessou a linha fatal. Gol do Sport! Gol do Sport! O juiz não viu, mas o auxiliar sim. O cartão de visitas estava dado. Outro foi dado próximo ao final do primeiro tempo, quando Ciro roubou uma bola no meio de campo, driblou um adversário e passou para Wilson fazer 2x0.
“Do mesmo jeito como na última vez. Puta merda, vou surtar de novo”, pensou Hércules Leônidas. Intervalo.
O gol de honra do adversário no segundo tempo até causou certa apreensão. Ma não tinha como perder aquele jogo. Hércules Leônidas havia saído de um estado de delírio catatônico esquizofrênico absoluto, fugiu de um manicômio e atravessou o continente para estar ali. Deus não seria tão sacana. Ao menos com Hércules Leônidas. Apito final. Os três mil visitantes berram, choram, riem, não sabem o que fazer. A Torcida do Colo Colo não pára de cantar. Todas as cervejas consumidas por Hércules Leônidasnas últimas horas batem de uma vez. Vozes começam a ecoar novamente em sua cabeça, num tom infinitamente mais ensurdecedor do que as mais de trinta mil vozes no estádio.
“TURN OFF THE LEAGUE. YOU HAVE TWO WEEKS”
Agora em inglês. “Puta merda, isso é sério. Não posso enlouquecer de novo. Aliás, já devo ter enlouquecido de novo. Vou aproveitar o que me resta de sanidade neste momento e fazer uma pergunta” Hércules Leônidas não sabia ao certo se tinha pensado isso ou falado em voz alta. Se dirigiu a um dos caras com quem tomou cerveja desde cedo:
– Quando é o próximo jogo e com quem?
– Dia quatro de março, contra a LDU, lá na Ilha! Vamos não é? Sport, porra!!!
– De onde é esse time?
– Caralho, tu ta muito bêbado mesmo. É do Equador. Dá-lhe, Sport, porra!!!
Os gritos da torcida não conseguiam abafar a estranha mensagem ressoante por cada recôndito da ébria mente de Hércules Leônidas. O que aquilo podia significar?
Não é preciso ser fluente em inglês para saber que Hércules Leônidas teria que dar um jeito de percorrer os mais de 5 mil quilômetros entre Santiago do Chile e Recife em duas semanas e voltar à Ilha do Retiro, o mesmo lugar do qual saiu meses antes para ir parar primeiro numa delegacia e depois num manicômio.
O risco seria enorme, mas antes que pudesse pensar nisso, já estava gritando junto com seus 3 mil colegas, que começavam a sair do estádio:
– PELO SPORT, TUDO!
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