Quarta-feira, 04 Junho 08, 07:42 PM
Marchando e berrando
E prendendo o negão
Somos policiais, não queremos confusão...*
*paródia ao hit antiditadura de Geraldo Vandré (sim, aquele)
Uma expulsão por um lance no qual não houve falta. Um atleta visitante puto da vida por receber um cartão vermelho. Um chutão numa garrafa. Gestos obscenos para a torcida local. Um pedido de calma dos companheiros no banco de reservas. O aviso do quarto árbitro de que o expulso deveria se dirigir até o vestiário. O expulso acata e se dirige até o local. A polícia o segue. Uma aspirante a tenente encosta-lhe a mão. Ele refuta e ergue a mão. Ela entende como tentativa de agressão e dá voz de prisão. O vestiário está trancado. A confusão está formada de vez.
Todo o efetivo de policiais no gramado para prender um atleta. Ele tenta e consegue se desvencilhar. É dominado novamente. Não pode ficar pior do que está. Mas fica. Muito pior.
Sem poder sair pelo vestiário, a polícia decide retirar o atleta de campo por entre a torcida anfitriã. Atiram-lhe de tudo, exceto flores. Pela fama da torcida, as flores eram elas próprias. O presidente do clube visitante tenta intervir e é igualmente agredido e levado ao posto policial do estádio. Quatro horas depois, o atleta, ainda com o uniforme de jogo, é liberado após concordar em pagar uma fiança (declarada) de 25 salários mínimos. O presidente não aceitou e deverá voltar à cidade dos incidentes para responder processo.
O atleta: André Luís. O presidente: Bebeto de Freitas. O time visitante: Botafogo. O time anfitrião: Náutico. O árbitro: Wilson Seneme. A aspirante a tenente: Lúcia Helena. Personagens de mais uma confusão no país que sediará uma Copa do Mundo daqui a seis anos.
Os incidentes ocorridos em La Barbinera (vulgo Estádio dos Aflitos) correram o Brasil. Para quem freqüenta ou freqüentou estádios no Recife, até não surpreendeu tanto, visto que a truculência policial em praças desportivas recifenses é uma velha conhecida.
O que causa espanto é a sucessão de atitudes incorretas por parte daqueles que deveriam ser os responsáveis pela ordem durante o que deveria ser uma partida válida pelo Campeonato Brasileiro de Futebol 2008.
O árbitro permitiu que a polícia invadisse o campo sem que ele o solicitasse; a federação pernambucana de futebol (em letras minúsculas mesmo) ordenou que o vestiário fosse fechado, sob a suposta alegação de que o próprio comando da policia militar (também em minúsculas) ordenou tal ato, já que havia uma ordem de prisão; a aspirante Lúcia Helena tenta dar uma chave de braço em André Luís, que já havia concordado em se dirigir até onde a polícia desejasse; o gesto brusco do atleta é confundido pela aspirante como uma tentativa de agressão. Pára tudo.
Um ato simples, primário, até mesmo pueril, poderia ter evitado tudo. André Luís iria até a entrada do vestiário, escoltado pelos policiais supostamente desacatados. Tomaria uma ducha, conversaria com comissão técnica e dirigentes do Botafogo. Na saída do vestiário, uma autoridade aguardaria o atleta e o levaria para ser interrogado. É preciso ser um gênio para pensar nisso?
Também é preciso ser um gênio para perceber o exagero que é colocar o batalhão de choque da PM dentro do gramado? Alguém já pensou em colocar o BOPE no gramado do Maracanã, do Engenhão ou de São Januário? Ou o GATE no Morumbi, no Pacaembu ou no Parque Antártica?
Antes que alguém discorde do raciocínio acima exposto, alegando o risco de que torcedores invadam o campo, não seria mais simples que as tais tropas de choque fizessem a segurança nas arquibancadas?
Por conta de uma combinação de erros absurdos, tanto de planejamento como operacionais, todo jogo em Recife vai virar uma guerra, alimentada pela irresponsabilidade de dirigentes, treinadores e imprensa.
A Federação Estadual do Rio de Janeiro vai brigar pela proibição de jogos do Brasileirão em Pernambuco; Vanderlei Luxemburgo abre a boca para falar de incidentes provocados exclusivamente por torcedores (Sport x Palmeiras, em Recife, pela Copa do Brasil) e insinuar a conivência da polícia no ataque ao ônibus de sua equipe; a imprensa (em especial O Lance e seus congêneres) pega estes fatos, junta a outros e transforma Recife num Iraque dos trópicos.
Ninguém propõe nenhuma melhoria.
Se Recife ainda esperava ser uma das sedes da Copa de 2014, um abraço. Já era.
E, sinceramente, melhor que cancelem logo a Copa do Mundo no Brasil. Menos desvio de verbas, menos elefantes brancos, menos politicagem (sonha, escriba, sonha). É capaz de o Brasil repetir 1950 e, pior, perdendo para a Argentina na final.
Seria uma boa que a Argentina fizesse com o Brasil o que o México fez com a Colômbia em 1986. “Tomar” o direito de sediar o mundial. Eles têm os mesmos problemas dos brasileiros, alguns em escala até maior. Mas eles se movimentam. Buscam melhorias para os problemas que assolam seu futebol.
Na sincera, brasileiro pode até gostar de futebol. Mas não o respeita. O que aconteceu nos Aflitos na tarde de 1º de junho de 2008 é o melhor dos exemplos.
2 Comentários
Meu, é foda!
Depois que eu falo que a "imprensa" tem responsabilidade, eu to errada.
Porra! E depois do texto irresponsável no fórum MeuSport, pode esperar que a coisa vai degringolar...infelizmente o futebol perde!
Pega fogo, cabaré!