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Os 14 Trabalhos de Hércules Leônidas – Parte 1

Quarta-feira, 04 Março 09, 11:30 AM · Comentários(14)

Ninguém sabia ao certo quem era ele. Para os médicos, era apenas o paciente 130505, como constava em seu prontuário. No tal prontuário algumas informações como:

“Data de entrada: 15 de junho de 2008”

“O indivíduo foi encontrado na esquina das ruas (nome omitido por exigência do editor) e (mais um nome omitido por exigência do editor, seja lá quem for), balbuciando palavras e expressões incompreensíveis em vários idiomas estrangeiros, dentre os quais foi possível identificar os idiomas espanhol e arabe. O referido indivíduo exalava um odor desagradável, provavelmente resultante de vários dias sem banho, além de encontrar-se em avançado estado alcoólico.”

“O referido indivíduo foi encaminhado ao 21º Distrito Policial, sob a acusação de perturbação da ordem pública, além de não possuir em seu poder nenhum documento de identificação. Ao ser questionado a respeito de informações pessoais básicas como nome, endereço residencial e profissão, alternou longos momentos de silêncio e introspecção com gestos bruscos, movimentos desconexos e repetição de frases sem sentido, sendo ‘Sou descendente de São Guilherme’ e ‘Tenho uma missão, ninguém pode me impedir’ as mais repetidas”

“Em nenhum momento do período de 36 horas em que permaneceu no distrito policial o indivíduo apresentou comportamento agressivo ou ameaçador para quem quer que fosse. Tampouco recebeu visitas, além de ter se recusado, de forma amistosa, a realizar telefonemas, alimentar-se, e realizar procedimentos básicos de higiene pessoal.”

“Pelo fato de o referido indivíduo ter apresentado sinais claros de desequilíbrio emocional, não ser procurado por amigos ou familiares nem mesmo possibilitado sua identificação, foi solicitado pelo Sr. Delegado do 21º Distrito Policial a transferência do indivíduo para este Hospital, na data referida no cabeçalho deste prontuário.”

“Sem mais,”

- Derrotar o Cacique! Derrotar o Cacique! Derrocar al Cacique! Derrocar al Cacique!!!

Há meses que Hércules Leônidas estava internado no Hospital Psiquiátrico, e quase nunca apresentava progressos do ponto de vista psico-clínico. Apresentava sinais claros e preliminarmente diagnosticados  como Esquizofrenia Desorganizado-Catatônico-Indiferenciada. A intrigante frase que ecoava em sua mente era apenas mais uma dentre as tantas frases e vozes que alguém com seu diagnóstico é capaz de ouvir.

 - Derrocar al Cacique! Derrocar al Cacique! Derrotar o Cacique! Derrotar o Cacique!!! – a frase, ora em espanhol, ora em português começou a ecoar com mais força na mente de Hércules Leônidas. Os diferentes tons das várias vozes começaram a ecoar. Assustado, ele optou por omitir tal sintoma em todas as avaliações psicológicas e psiquiátricas às quaias era submetido. Num dado momento, passou a ouvir a frase ininterruptamente, 24 horas por dia, estivesse acordado ou durante o sono.

Aquilo realmente começou a preocupar. E também a dar na vista até do mais delirante interno, se é que houvesse alguém num estado de distanciamento da realidade do que Hércules Leônidas. Até que a comissão de médicos resolveu que cinco internos passariam por um tratamento experimental que se propunha a ser revolucionário para a história da psiquiatria. Uma combinação de medicamentos de novíssima geração com técnicas tradicionais e consagradas para tratamento de malucos, clinicamente falando.

Num rasgo de lucidez, numa epifania comparável à visão nítida de que Deus e Jimi Hendrix são a mesma pessoa, Hércules Leônidas percebeu que seria cobaia. Conseguiu começar a se comportar quase como uma pessoa normal, a despeito da misteriosa frase que continuava a ecoar com cada vez mais força em seu cérebro. Derrotar o cacique, derrocar al cacique! 33 Sul, 70 Oeste! Derrocar al cacique! Derrotar o cacique! 33 Sul, 70 Oeste! Agora a mensagem tinha uma novidade em seu enunciado, que em nada ajudava a compreendê-la.

Por conta do tratamento, Hércules Leônidas teria que ser retirado da única atividade de integração social dos detentos da qual participava: o jogo de futebol dos doidos, por assim dizer. Afinal, não havia traves, nem marcação de campo, nem equipes definidas. Os internos chutavam a bola de um lado para o outro ou uns nos outros até que alguém dava um chutão para qualquer lugar, gritava gol! e parte dos participantes corria para comemorar com o “artilheiro”. Também haviam os “goleiros”, que se atiravam aos pés dos internos para interceptar a bola e gritar “Defendeu!”, sob aplausos e xingamentos dos participantes e expectadores.

Foi alguns dias antes de começar o novo tratamento que Hércules Leônidas, encostado numa das árvores do pátio, começou a conversar com um outro interno, conhecido como Xico. Houve surpresa dos funcionário que observavam a cena: nunca em seus mais de seis meses como interno, Hércules Leônidas tinha sido visto conversando com alguém por mais de três minutos. Nem mesmo com os médicos.

Xico não era maluco ou deficiente mental. Longe disso. Xico adquiriu certo status no submundo do crime como estelionatário, falsário, trambiqueiro e charlatão de primeira linha. Até que uma tentativa de golpe num chefão acarretou numa sentença de morte, que o obrigou a optar entre aceitá-la e disfarçar-se de esquizofrênico. Algumas ligações de seu advogado, documentos falsos e sua habilidade teatral nata o salvaram da morte e o levaram ao Hospital Psiquiátrico de Jaqueira.

Uma vez aceito o disfarce, Xico tinha que esforçar-se para mantê-lo. Simulava surtos dia sim, dia não, e às vezes dia sim e outro também. Punha as própria fezes na boca. Banhava-se com a própria urina. Mordia as pontas dos dedos até deixá-las em carne viva. Mas de doido não tinha nada, a não ser a compulsão de cometer atos ilegais sem motivação financeira (afinal estava num manicômio e não em um presídio) apenas por satisfação pessoal.

Numa dessas, conseguiu contrabandear algumas revistas e jornais, relativamente recentes, além de cartas aos internos que eram retidas pela administração do hospital e uma meia dúzia de livros. Era terminantemente proibido que os internos mantivessem contato com o mundo externo. Nunca se soube ao certo como Xico conseguiu, mas as conseqüências de tal ato foram muito, muito graves. Mas Xico jamais seria descoberto.

As revistas, jornais, cartas e livros circularam por pouco mais de oito horas. Um jornal, datado de três dias antes foi lido sem muito interesse por Hércules Leônidas. Passou os olhos por várias matérias, sem se deter em nenhuma. Até que veio a bomba, a caixa de Pandora das reminiscências de Hércules Leônidas de Aquino, o paciente 130505.

DIVULGADA A TABELA DA COPA LIBERTADORES DA AMÉRICA 2009

A Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) divulgou nesta terça-feira, em seu site oficial na internet, a tabela da copa libertadores da América 2009, com datas e horários, das duas primeiras fases da competição: a “Pré-Libertadores”, como é conhecida no Brasil e primeira fase, e a fase de grupos. (...) O Sport Recife, campeão da Copa do Brasil 2008, estreará fora de casa contra os chilenos do Colo Colo, no dia 18 de fevereiro, às 21:50 (horário de Brasília)

Num átimo, Hércules Leônidas lembrou-se de tudo. Do porre antes da final contra o Corinthians. Os 2x0 que selaram o título do Sport e, indiretamente, decretaram sua ida para o hospital psiquiátrico da Jaqueira. Sim, ele estava na Ilha do Retiro, atrás da trave oposta ao placar, a mesma trave onde Carlinhos Bala e Luciano Henrique marcaram os gols que deram a vitória e o título. Ao menos ele julgava ter estado lá. Só não lembra o que aconteceu no intervalo de tempo entre sua saída do estádio e a chegada ao hospital psiquiátrico. Não lembrava dos atos de vandalismo, das atitudes impensadas, como ir uniformizado durante a madrugada até a sede de um clube rival na cidade e defecar nas mãos e atirar a merda contra a bandeira e os muros do mesmo clube. Nem das quantidades de colossais de bebida alcoólica que consumiu nas horas anteriores subseqüentes à partida, que quase o levaram ao estado comatoso. Nem de ser encontrado em estado deplorável e ser levado à delegacia, de onde seguiu, sem identificação amigos ou parentes, para o Hospital Psiquiátrico da Jaqueira.

As lembranças foram retornando na mesma proporção que o volume da voz aumentava:

DERROTAR O CACIQUE! DERROCAR AL CACIQUE! 33 SUL, 70 OESTE!

No jornal, havia uma gravura com escudos dos times brasileiros e seus adversários na primeira rodada da Libertadores da América. Ao se deparar com escudo do Colo Colo, viu a imagem de um índio. Só podia ser o tal cacique da voz que ecoava insistentemente em sua cabeça. Mas o que seria 33 Sul, 70 Oeste.

Hércules Leônidas percebeu que entre os livros “contabandeados” por Xico estava um atlas. Sim, aquele livro com mapas era um dos mais disputados pelos internos. Hércule Leônidas tomou o livro das mãos de um dos internos de forma brusca e um tanto agressiva:

– Calma, eu já devolvo – disse ao interno, que parecia assustado e não era para menos.

Procurou o mapa da América do Sul e localizou a cidade de Santiago: 33 graus de latitude sul, 70 graus de longitude oeste. Sim, ele ainda lembrava o que eram coordenadas geográficas. São indicações que permitem localizar qualquer ponto do globo terrestre. Mas o atlas não tinha a o detalhamento suficiente para localizar a pequena cidade de Jaqueira, em cujo território localizava-se o hospital o qual tornou-se o lar de Hércules Leônidas nos último seis meses.

Finalmente entendeu a mensagem, que por sua vez não cessava de ecoar em seu cérebro. Ele, Hércules Leônidas de Aquino, torcedor fanático do Sport Club do Recife, teria que ir até Santiago do Chile “derrotar o Cacique”. Havia pouco mais de um mês para chegar até lá e ele se encontrava num hospital psiquiátrico, próximo a iniciar um tratamento experimental. Era preciso fugir dali, de qualquer forma, mas vivo.

As revistas, jornais, cartas e livros foram recolhidos pela administração e logo o Hospital Psiquiátrico de Jaqueira. Entretanto, Hércules Leônidas conseguiu esconder o atlas. Começava ali o plano de fuga, que teria que contar com a ajuda preciosa de Xico, que empolgou-se com o plano do colega logo que ele relatou:

­– Sim cara, posso te ajudar a fugir daqui. Se pudesse, fugiria também – disse Xico, em voz baixa para que os monitores não percebessem.

– Por que você não vem?

– Cara, eu também torço para o Sport. Sei que tem torcedor do Náutico e Santa Cruz aqui. Ele vão secar nosso time. Serei o pára-raios da secação aqui no hospital.

– Não entendi.

– Deixa pra lá. Tratemos de organizar sua fuga. Tenho as escalas de horários de todos os médicos, enfermeiros e funcionários daqui. Meu advogado me arrumou. Nunca diga a ninguém que tenho advogado, ou dou um jeito de mandar matarem você.

– OK.

– É o seguinte. Daqui a dois dias, um doutor recém-formado vai cobrir a folga do doutor Pacheco, o bafo de onça. Apenas tenha o cuidado de não tomar o remédio para dormir.

­– Já faço isso há um bom tempo. Tenho vários comprimidos escondidos. Nunca lembro de dar um jeito de fazê-los sumir.

– Ótimo. Pode servir como moeda na viagem, se o dinheiro não der. Você faz isso só com os remédios de dormir?

– Faço com quase todos. Só engulo quando médico enfia goela abaixo. Fiquei craque na técnica de fingir que engole e esconder embaixo da língua.

– Muito bem. Dê-me todos. Vou separar os antidepressivos dos sedativos, os estimulantes dos calmantes. Vai facilitar.

– Certo, como faremos para que eu fuja?

– O monitor ta de olho em nós. Vamos cada um para seu quarto. Amanhã continuamos.

O dia da véspera da fuga transcorreu numa calmaria incomum. Não houve problemas entre os internos, os monitores relaxaram e Hércules Leônidas e Xico puderam traçar o o plano com detalhes: o médico chegaria às 18 horas do dia seguinte e avaliaria os pacientes individualmente. Xico iria surpreendê-lo com algum comportamento estranho, enquanto Hércules Leônidas imobilizaria o médico para que Xico pusesse um pano encharcado de clorofórmio na boca do médico. Não se sabia como Xico conseguiria o clorofórmio, mas a verdade é que ele tinha um vidro enorme da substância. Com o médico desacordado, ambos tirarariam suas roupas, seu jaleco e sua valise. Hércules Leônidas sairia disfarçado de médico, assinaria uns papéis sob o olhar involuntariamente conivente de um segurança sonolento e ébrio, o verdadeiro doutor acordaria com dificuldades de lembrar o que aconteceu e até darem pela falta de Hércules Leônidas e do envolvimento de Xico, Hércules Leônidas já estaria longe e o advogado de Xico já teria arrumado alguns cheques e maços de dinheiro para que tudo se mantivesse dentro da normalidade. Também era importante que Hércules Leônidas estivesse com os cabelos cortados e a barba feita. Por uma conveniente e cósmica coincidência, a manhã do dia da fuga era dia de corte de barba e cabelo.

E foi desta forma que aconteceu, com o acréscimo de um pequeno detalhe. Antes de sair, Xico entregou um embrulho para Hércules Leônidas. Foi taxativo.

– Só abra o pacote quando estiver em segurança.

A fuga transcorreu sem problemas, e Hércules Leônidas caminhou por aproximadamente 10 km, já sem o jaleco, que tinha abandonado a alguns metros da entrada do hospital. Caminhou sem direção definida, mudou de rumo várias vezes, recuando, tudo para despistar eventuais perseguidores. Percebeu estar seguro, sentou-se e abriu o pacote entregue por Xico. Nenhum bilhete, apenas dois sacos de comprimidos, um com a etiqueta estimulantes/antidepressivos e outro com escrito calmantes/tranqüilizantes, uma boa quantia de dinheiro e uma velha e gasta camisa do Sport. Hércules Leônidas vestiu-a imediatamente e continuou a caminhar até o amanhecer. A esta altura, encontrou uma auto-estrada e não demorou muito para encontrar um posto com uma pequena pousada. Dirigiu-se ao escritório e logo perguntou ao funcionário:

– Pra que lado fica Santiago do Chile?

O funcionário tentou sem sucesso disfarçar o riso. Hércules Leônidas lançou-lhe um olhar intimidador e o funcionário prontamente respondeu-lhe, indicando os pontos e rotas no imenso mapa do Brasil

– Você vai até a cidade de Valquíria e pega um ônibus até São Paulo. Tem um caminhão saindo agora pela manhã até Valquíria. De lá, você pega um ônibus até São Paulo. De São Paulo em diante, é contigo.

O funcionário ofereceu um café e perguntou se Hércules Leônidas queria comer alguma coisa. O café foi prontamente aceito acompanhado de algumas torradas um tanto passadas de ponto e de tempo. Ambos se dirigiram a um dos caminhões parados no posto, cujo motorista, um senhor alto e barbudo fumava um cigarro à frente do veículo antes de partir para a viagem.

“Fique quieto e não fale nada além de responder o que ele te perguntar. Mas só depois que você entrar no caminhão. Agora, só eu falo. Esses caras são muito desconfiados”, falou em voz baixa o funcionário.  

– Seu  Adelmar, pode dar uma carona a esse caboclo aqui até Valquíria? Ele quer pegar um ônibus pra São Paulo.

Adelmar fitou Hércules Leônidas com ar de desconfiança por um breve momento e concordou, acenando com a cabeça.

Já estavam há uns quinze minutos na estrada quando Adelmar perguntou se ia até São Paulo atrás de trabalho. Hércules Leônidas disse que não, que São Paulo era apenas uma escala numa longa viagem semi-peregrina até Santiago do Chile. Disse também que se dependesse dele, faria todo caminho a pé, mas não havia tempo. Adelmar perguntou que objetivo tinha Hércules Leônidas nessa viagem, mas este foi evasivo, limitando-se a dizer que iria encontrar um cacique em Santiago. Adelmar não fez muito esforço em entender e perguntou por que não levava bagagem

– O que eu precisar, compro no caminho ou quando chegar lá.

– Você tem data fixa para chegar?

­– Preciso estar em Santiago no dia 18 de fevereiro. Quantos dias tenho? Nunca fui muito bom de matemática.

– Exatamente uma semana. Como você pensa em chegar? Vai pegar avião em São Paulo?

– Sem chance, sem dinheiro e sem coragem.

A viagem até Valquíria durou cerca de duas horas, em meio a conversas sobre a vida, a estrada, o calor, comentários sobre barulhos estranhos no motor do veículo, esse tipo de coisa. Ao se aproximar da rodoviária, Adelmar perguntou a Hércules Leônidas:

– Cara, quer seguir de carona? Pode te ajudar a economizar grana. Vou entregar essa carga daqui a oitocentos quilômetros, pegar outra carga e seguir descendo a estrada. Só vou parar lá perto da fronteira com o Paraguai. É mais perto de Santiago do que São Paulo. De lá tento falar com algum colega que vá até mais perto. Encara?

– Quanto tempo vai durar?

– Onde vou descarregar dá pra chegar hoje a noite. Entregamos a carga e vamos buscar a outra amanhã de manhã. Daí, mais uns três dias até a fronteira. De lá você terá três dias para chegar em Santiago no dia 18. O que acha?

– Vamo nessa.

Hércules Leônidas ajudou no desembarque das cargas e no embarque das novas cargas. Tomou cerveja depois de oito meses de abstinência psiquiátrica. Riu. Gargalhou. Até conversou sobre futebol. Descobriu que Adelmar era torcedor do São Cristóvão, graças às histórias que o avô de Adelmar contava sobre o time campeão carioca de 1926 (em breve será outra vez) e que seu novo amigo esteve no estádio que leva o nome de seu xará, numa vitória do Sport sobre o Baraúnas do Rio Grande do Norte no Campeonato do Nordeste de 1999.

– Putz, cara eu estive neste jogo. Será que lembro quanto foi o placar?

– Três chances para você, Sr. Hércules Leônidas.

– Putz, foi uma goleada, 7 a 2, acho.

– Saquei a sua Hércules Leônidas. Esse papo de encontro com o cacique e tal. Data fixa para chegar. Você com essa porra dessa camisa do Sport o tempo todo. Tu vai é pra estréia do teu time na Libertadores da América. Não sei porque esse pé atrás pra dizer. Você deve ter seus motivos. Não se preocupe, nem que eu te pague uma passagem de ônibus você vai estar em Santiago no dia 18.

– Cara, você não pode estar falando sério.

Esta sete palavras provocaram uma freada brusca. Adelmar sacou uma .357 que estava debaixo do assento e seu semblante se alterou.

  Olhe aqui, seu filho da puta, eu já matei dois caras na minha vida  – o motorista estava visivelmente irritado   e nunca fui sequer indiciado. Um tentou me roubar, o outro desconfiou de mim. Quer ser o terceiro?

– Não, não  – os resquícios da catatonia ajudaram a manter a calma  – tudo bem, acredito em você, mas você pode tirar esta arma do meu rosto?

Adelmar acalmou-se e deu partida no veículo:

– Vamos embora que tem muita estrada pela frente.

A viagem seguiu calma, contemplativa e silenciosa até uma cidade próxima à Foz do Iguaçu.

­ – Vou te levar até Foz. De lá você consegue ônibus ou carona para Santiago. Te despacho e volto para fazer a entrega. Se tiver ônibus que chegue lá no dia 18, pago tua passagem. Se não, te arrumo uma carona ou dou um jeito de te levar até lá.

– Mas não é melhor descarregar antes?

Adelmar pegou a arma. Hércules Leônidas ficou quieto e o motorista guardou a arma de volta.

Por sorte ou mera coincidência, havia um ônibus saindo em duas horas, que tinha chegada prevista para a madrugada do dia 18.

– Cara, você pode até me matar, mas quero dar um jeito de retribuir à sua gentileza e confiança.

– Qual é a proposta?

– Tenho uns 40 comprimidos de estimulantes aqui. Coisa boa, roubada de um hospital psiquiátrico.

– Mostre.

Hércules Leônidas tirou o saquinho de um dos bolsos. No outro estavam os calmantes. Adelmar pegou o pacote, tirou uns três comprimidos e analisou-os atentamente.

– São dos bons mesmo. Entendo disso. Usei durante 15 anos, hoje sou fornecedor free lancer pros meus colegas. Vou te dar uma grana por eles. Não aceito nenhuma coisa pela qual eu não tenha pago.

– Não precisa.

– Ou você leva a grana ou leva uma bala na cabeça. Escolha.

– Tudo bem, primeira alternativa. Tenho uns calmantes também.

– Esses você leva. Serão necessários para a viagem. Daqui até Santiago é um pé no saco. Tome uns três e durma durante todo o trajeto. Minha dica. Tome o dinheiro.

Hércules Leônidas tomou o ônibus. Três calmantes poderia ser suicídio, dois um exagero. Tomou um e dez minutos depois já estava no décimo sono, estado no qual permaneceu até ser acordado aos sacolejos pelo motorista de ônibus, após todos os outros passageiros desembarcarem no terminal rodoviário da capital chilena, às quatro horas da manhã do dia 18 de fevereiro de 2009.

Havia quase um dia inteiro até a hora da partida. Logo Hércules Leônidas descobriu que dali a cerca de duas horas sairia um ônibus que passaria nas proximidades do Estádio Nacional do Chile. Conseguiu trocar seus reais por pesos e aguardou o ônibus. Chegou antes do horário de abertura das bilheterias. Caminhou ao redor do estádio. Um sujeito o abordou:

– Entradas para el partido de Colo Colo.

– No, para el partido de Sport Recife.

– Mi amigo, yo soy hincha de Universidad Catolica. Voy vender a usted el precio de taquilla.

– Tequila. Yo aceito.

– No, no. El precio de taquilla. Usted brasileños hablan bilheteria.

– Cierto, cierto.

Hércules Leônidas comprou ingresso e sentou-se encostado ao muro do estádio. Até que o cambista o avisou que o jogo seria no David Arellano e explicou-lhe, em portunhol sofrível, como chegar ao estádio.

Faltavam cerca de oito horas para o início da partida quando Hércules Leônidas avistou um grupo de torcedores do Sport chegando ao David Arellano. Estavam com dois enormes isopores lotados de cerveja. Trajando sua surrada camisa vermelha e preta,foi logo convidado a juntar-se a eles. As cervejas se sucediam e, aos poucos, os torcedores tornaram-se dezenas. Centenas. Milhares. Cerca de três mil. Dez vezes menos do que os anfitriões.

Entraram no estádio faltando pouco mais de meia hora para a partida começar. Hércules Leônidas sentia-se completamente embriagado. A caixa de Pandora das reminiscências abriu-se novamente e ele se viu delirando dentro de uma delegacia qualquer chilena. Delírio. Paranóia. Catatonia. Esquizofrenia. Duas latas de coca-cola cedidas pelos novos amigos o acalmaram.

Apito inicial. Os “caciques” faziam um barulho ensurdecedor. Hércules Leônidas não descolava o rosto da grade do alambrado. Seis minutos se passaram e Hércules Leônidas por uma fração de segundo pareceu ter visto algo que ninguém mais viu. Pulou, berrou, correu pelos degraus da arquibancada.

A bola de chutada por Ciro não balançou a rede, mas atravessou a linha fatal. Gol do Sport! Gol do Sport! O juiz não viu, mas o auxiliar sim. O cartão de visitas estava dado. Outro foi dado próximo ao final do primeiro tempo, quando Ciro roubou uma bola no  meio de campo, driblou um adversário e passou para Wilson fazer 2x0.

“Do mesmo jeito como na última vez. Puta merda, vou surtar de novo”, pensou Hércules Leônidas. Intervalo.

O gol de honra do adversário no segundo tempo até causou certa apreensão. Ma não tinha como perder aquele jogo. Hércules Leônidas havia saído de um estado de delírio catatônico esquizofrênico absoluto, fugiu de um manicômio e atravessou o continente para estar ali. Deus não seria tão sacana. Ao menos com Hércules Leônidas. Apito final. Os três mil visitantes berram, choram, riem, não sabem o que fazer. A Torcida do Colo Colo não pára de cantar. Todas as cervejas consumidas por Hércules Leônidasnas últimas horas batem de uma vez. Vozes começam a ecoar novamente em sua cabeça, num tom infinitamente mais ensurdecedor do que as mais de trinta mil vozes no estádio.

“TURN OFF THE LEAGUE. YOU HAVE TWO WEEKS”

Agora em inglês. “Puta merda, isso é sério. Não posso enlouquecer de novo. Aliás, já devo ter enlouquecido de novo. Vou aproveitar o que me resta de sanidade neste momento e fazer uma pergunta” Hércules Leônidas não sabia ao certo se tinha pensado isso ou falado em voz alta. Se dirigiu a um dos caras com quem tomou cerveja desde cedo:

– Quando é o próximo jogo e com quem?

– Dia quatro de março, contra a LDU, lá na Ilha! Vamos não é? Sport, porra!!!

– De onde é esse time?

– Caralho, tu ta muito bêbado mesmo. É do Equador. Dá-lhe, Sport, porra!!!

Os gritos da torcida não conseguiam abafar a estranha mensagem ressoante por cada recôndito da ébria mente de Hércules Leônidas. O que aquilo podia significar?

Não é preciso ser fluente em inglês para saber que Hércules Leônidas teria que dar um jeito de percorrer os mais de 5 mil quilômetros entre Santiago do Chile e Recife em duas semanas e voltar à Ilha do Retiro, o mesmo lugar do qual saiu meses antes para ir parar primeiro numa delegacia e depois num manicômio.

O risco seria enorme, mas antes que pudesse pensar nisso, já estava gritando junto com seus 3 mil colegas, que começavam a sair do estádio:

– PELO SPORT, TUDO!

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Tópicos: Copa Libertadores 2009, Sport
Futebol ao Vivo por: Colo Colo vs Sport
Postado por mautargino | Comentários (14)

14 Comentários · Adicionar o seu

Lu_Castro
1. Lu_Castro Escrito: | 18.00UTC | Mar 4, 2009

noooooooosssaaaaaa!
épico da literatura futebolística...kd o resto?
=P

mautex
2. mautex Escrito: | 18.37UTC | Mar 4, 2009

Pqp... isso tá bom demais. Será que ele chegou hoje lá na Ilha? To no aguardo.

Alagoanos
3. Alagoanos Escrito: | 08.29UTC | Mar 5, 2009

Eu acho q esses 14 trabalhos serão resumidos em 8!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

muito bom o texto cara!
épico homérico(eu adoro meu nome!!)!!

Tb tô no aguardo de como será o segundo episódio!!!

mautargino
4. mautargino Escrito: | 15.01UTC | Mar 5, 2009

Responder para Alagoanos:

Eu acho q esses 14 trabalhos serão resumidos em 8!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

muito bom o texto cara!
épico homérico(eu adoro meu nome!!)!!

Tb tô no aguardo de como será o segundo episódio!!!

Oito? Tudo isso? Qto otimismo.
A verdade é que Hercules Leonidas conseguiu ver o jogo contra a LDU. Vou tomar uma breja com ele hj pra q ele me conte. Té mais!

Lu_Castro
5. Lu_Castro Escrito: | 15.54UTC | Mar 5, 2009

Responder para Alagoanos:

Eu acho q esses 14 trabalhos serão resumidos em 8!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

muito bom o texto cara!
épico homérico(eu adoro meu nome!!)!!

Tb tô no aguardo de como será o segundo episódio!!!

secarei pra que fique em oito e não mais que isso...só deus sabe o que é o escriba aí monstrando em dia de jogo da libertas...affff...
lembrei que em várias ocasiões, algus times chegam arrebentando na fase de grupo, aí nas eliminatorias abre o bico...
=P

Marc
6. Marc Escrito: | 17.22UTC | Mar 5, 2009

Muito bom hein... vou acompanhar essa saga.
Só espero que nossos times não se cruzem (sou são paulino)... não sei se seremos páreo para Hércules Leônidas.

Abs

mautargino
7. mautargino Escrito: | 13.16UTC | Mar 6, 2009

Responder para Lu_Castro:

Responder para Alagoanos:

Eu acho q esses 14 trabalhos serão resumidos em 8!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

muito bom o texto cara!
épico homérico(eu adoro meu nome!!)!!

Tb tô no aguardo de como será o segundo episódio!!!

secarei pra que fique em oito e não mais que isso...só deus sabe o que é o escriba aí monstrando em dia de jogo da libertas...affff...
lembrei que em várias ocasiões, algus times chegam arrebentando na fase de grupo, aí nas eliminatorias abre o bico...
=P

Tudo posso naquele que me fortalece.

mautargino
8. mautargino Escrito: | 13.19UTC | Mar 6, 2009

Responder para Marc:

Muito bom hein... vou acompanhar essa saga.
Só espero que nossos times não se cruzem (sou são paulino)... não sei se seremos páreo para Hércules Leônidas.

Abs

Marc, se Sport e São Paulo se cruzarem, vai sair faísca, ao contrário dos dois (soporíferos) jogos pelo Brasileirão do ano passado.

Lu_Castro
9. Lu_Castro Escrito: | 14.47UTC | Mar 6, 2009

Responder para mautargino:

Responder para Marc:

Muito bom hein... vou acompanhar essa saga.
Só espero que nossos times não se cruzem (sou são paulino)... não sei se seremos páreo para Hércules Leônidas.

Abs

Marc, se Sport e São Paulo se cruzarem, vai sair faísca, ao contrário dos dois (soporíferos) jogos pelo Brasileirão do ano passado.

divórcio...

Lu_Castro
10. Lu_Castro Escrito: | 14.47UTC | Mar 6, 2009

Responder para mautargino:

Responder para Lu_Castro:
Responder para Alagoanos:

Eu acho q esses 14 trabalhos serão resumidos em 8!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

muito bom o texto cara!
épico homérico(eu adoro meu nome!!)!!

Tb tô no aguardo de como será o segundo episódio!!!

secarei pra que fique em oito e não mais que isso...só deus sabe o que é o escriba aí monstrando em dia de jogo da libertas...affff...
lembrei que em várias ocasiões, algus times chegam arrebentando na fase de grupo, aí nas eliminatorias abre o bico...
=P

Tudo posso naquele que me fortalece.

uhum...quem seria o fortalecedor? o sport?
mmmmmmmm....acho que não...

mautargino
11. mautargino Escrito: | 15.51UTC | Mar 6, 2009

Responder para Lu_Castro:

Responder para mautargino:
Responder para Lu_Castro:
Responder para Alagoanos:

Eu acho q esses 14 trabalhos serão resumidos em 8!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

muito bom o texto cara!
épico homérico(eu adoro meu nome!!)!!

Tb tô no aguardo de como será o segundo episódio!!!

secarei pra que fique em oito e não mais que isso...só deus sabe o que é o escriba aí monstrando em dia de jogo da libertas...affff...
lembrei que em várias ocasiões, algus times chegam arrebentando na fase de grupo, aí nas eliminatorias abre o bico...
=P

Tudo posso naquele que me fortalece.

uhum...quem seria o fortalecedor? o sport?
mmmmmmmm....acho que não...

Vai secando, vai secando. E torça para que seu time seja eliminado logo.

Lu_Castro
12. Lu_Castro Escrito: | 16.17UTC | Mar 6, 2009

Responder para mautargino:

Responder para Lu_Castro:
Responder para mautargino:
Responder para Lu_Castro:
Responder para Alagoanos:

Eu acho q esses 14 trabalhos serão resumidos em 8!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

muito bom o texto cara!
épico homérico(eu adoro meu nome!!)!!

Tb tô no aguardo de como será o segundo episódio!!!

secarei pra que fique em oito e não mais que isso...só deus sabe o que é o escriba aí monstrando em dia de jogo da libertas...affff...
lembrei que em várias ocasiões, algus times chegam arrebentando na fase de grupo, aí nas eliminatorias abre o bico...
=P

Tudo posso naquele que me fortalece.

uhum...quem seria o fortalecedor? o sport?
mmmmmmmm....acho que não...

Vai secando, vai secando. E torça para que seu time seja eliminado logo.

ui! que meda!

Daniel
13. Daniel Escrito: | 20.28UTC | Mar 9, 2009

excelente, sem dúvidas um épico!!!!
hahaeuahea
abraços

mautargino
14. mautargino Escrito: | 12.21UTC | Mar 11, 2009

Responder para Daniel:

excelente, sem dúvidas um épico!!!!
hahaeuahea
abraços

É só o começo, comparsa. O registro do segundo trabalho está em curso. Valeuz!

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